Texto

Excursus

Depois de uma longa noite de sono (que não descansou uma célula sequer do meu corpo), eu despertei.
Despertei e era eu. Eu.
Eu quem?
Eu tudo. Eu apenas. Eu semente e fruto colhido no pomar decadente. Eu tempestade e treva. Eu luz. Eu nada.

Esperei.
A ressaca do sono era pior que do álcool ingerido em excesso naquele dia no bar onde estávamos todos (aparentemente) felizes e eu era a única que lembrava que vamos todos morrer.
Sim, eu me lembrava. Na verdade, eu nunca esqueço. Tenho até um pouco inveja de vocês que conseguem conviver tão bem com isso, simplesmente denegando a possibilidade da extinção final, onde tudo será esquecido, nada será reparado, e Nietzsche sabe o resto.
Eu estava sentada à beira do rio sujo que um dia tinha sido bonito e límpido, e esperava. Esperava a ressaca passar, um pouco esperando a vida passar também, silenciosa e indolor, como o rio. Mas a vida não passava. Ou melhor, passava, mas eu nem senti. O vento soprava na superfície da água calma e suja, e fazia ondinhas bonitinhas e leves. Questão de segundos - ou menos - e elas já tinham desaparecido, como tudo o mais nesse mundo, exceto as montanhas que sempre ficam por mais tempo que nós. Mas as montanhas também se vão... E como seria se não fossem?

Um pouco de água gelada na cara para agüentar o caminho.

- Eu sabia que você viria.
- Sim. Não poderia ser diferente. Você sabe...
- Eu sei. Dói?
- Tanto quanto dormir. Dormir dói?
- Não. Mas é angustiante não voltar...
- É angustiante se preocupar com o que veio antes? Você ainda não estava lá...
- É diferente...
- Não, é a mesma coisa. Você é apenas o intervalo, o desvio. Mais nada. As coisas seriam mais fáceis para vocês e para mim se pelo menos essa verdade fosse aceita... Tudo é apenas o desvio. E não me venha com "ah, eu preciso de mais tempo, minha vida não valeu a pena". Você teve exatamente seu tempo para fazer alguma coisa de útil. Não é culpa minha se não soube aproveitar.
- É deprimente pensar em desvio...
- Claro que é! Algum dia você pensou que a vida fosse justa, bonita e tivesse algum sentido? Tolinho! A vida é o que você faz dela. O que você faz de você mesmo. Mas agora chega de conversa. Eu tenho mais o que fazer.
- Claro...
E então eu dormi de novo. Sem sonhos.
Bárbara Rocha
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907431

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Comentários
06/11/2009 10h55 - Anderson Adami
É isso mesmo, a vida é o que fazemos dela. Parabéns!

Sobre a autora
Bárbara Rocha
Divinópolis/MG - Brasil, 19 anos
17 textos (285 leituras)
1 e-livros (11 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 03:39)

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