Um fantasma em minha vida - parte II
Os meses se passaram e nada de reencontrar a minha musa. Sem nada a esperar, fui levando a minha vida insossa e sem brilho, com uma pequena, mas talvez, significante diferença. Sim, um filete de esperança rasgava o meu pobre coração indelével, e claro, apesar de ser um ser humano sem grandes perspectivas, aquela luz se abrira para mim ao final do túnel escuro e solitário que era a minha existência.
Como já havia dito antes, eu nunca fui um afortunado, aliás, penso eu que a sorte é algo que supervalorizamos demais, pois se analisarmos bem, a vida é tão repleta de momentos infortúnios... Mas é claro que estamos falando da minha, e neste caso, o trágico e o cômico são dois sinônimos que me caem como uma luva, porém, o acaso não poderia ser tão proposital e nem tão pouco tão esperado por esse depauperado que vos fala. Ela tinha que fazer parte da minha vida, ou melhor, eu sentia que ela faria parte da minha vida.
Foi neste momento de certeza absoluta que eu a vi mais uma vez, e o meu mundo novamente se inundou de esperanças, era a minha chance, estou certo que apesar das probabilidades... Probabilidades? Caramba, nem sei por que estou pensando em probabilidades e justamente numa hora dessas! Sou péssimo em todo tipo de áticas que conheço, e a matemática que realmente importava era um e um são dois numa paixão ardente, despropositada, de preferência num quarto de hotel, com a chave da porta lançada pela janela, para não ter a desculpa do nosso enlace não acontecer...
Bem, a investida, eu confesso que teria algumas problemáticas que naquele instante eram impossíveis de serem solucionadas, pois cheguei meio cheio de cacoetes e ensaiando as mais improváveis falas na tentativa de entorpecê-la. A verdade é que eu suava em bicas e tremia feito um coelho com febre. Acabei chamando a atenção de alguns transeuntes que, na pior das hipóteses, me julgaram um doido, talvez um adepto dos entorpecentes. Teve uma senhorinha que se benzeu a poucos metros de mim, claro que se desviou para longe, o que me deixou com vontade de rir; mas estava tão nervoso que nem para isso tive forças.
Foi aí que decidi repetir um mantra, os monges de ocasião asseguram que dão certo e àquela altura, mal não fariam! Então eu repetia:
- Foque na loira, foque na loira, foque na loira.
Ela passou e então eu, descontrolado, esbravejei: - Hei você ai?
- Calma, mocinho! E ainda continuou, você está bem?
- Sim, estou bem!
- Ah, ainda bem, pois eu preciso ir!
- Não, não vá!
Nesta hora, falei com mais calma, mas respirando com dificuldades. Importa-se de me ajudar em algo?
- Eu, ajudá-lo? Bem, e do que você precisa?
É agora, é minha hora! Eu preciso, vai desembucha, diga o quanto ela é desejável, fala do quanto tem sonhado por estar em seus braços! Vai seja homem, seu energúmeno! Diga de uma vez, você é um homem ou um rato? Pra que eu fui pensar em rato numa hora dessas, o medo só se tornara mais ferrenho... A essa altura estávamos parados no meio da passarela e eu, não contrariando as expectativas, gaguejando. Não consegui pronunciar nada que fosse inteligível. Ela virou-se e seguiu, dizendo:
- Desculpe-me, mas preciso mesmo ir!
Como a vida nos mostra, tudo pode ser mais desastroso do que imaginamos, e assim começa meu martírio...
Um carro desgovernado atravessa a avenida e atingi duas pessoas ao mesmo tempo. Eu, como podem inferir, salvei-me! Mas minha loira deleitável, não! É bom que saibam que apesar de estar vivo, não me sinto um afortunado, pois meus problemas, tive a certeza, ainda que como a um lampejo, pois fiquei em coma por alguns dias, apenas começaram...
continua...
Xande Ribeiro
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910945
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.