Texto

O PROFISSIONAL

Engulo o café frio e levanto: o cara está na rua, anda depressa.
Corro atrás, a mão segurando o revólver. É a quinta vez já, ou sexta. Nem sei mais.
Por enquanto vejo o sujeito pelas costas – e ele não é diferente de ninguém, nem de mim. O cabelinho curto, um paletó barato, a calça que não combina. Não carrega pasta, o que vai na sua mão é uma sacola de supermercado. Mais um fudido preu dar cabo.
Na primeira vez o coração me veio na boca, sofri mais que o cara que morreu. Ele se foi de vez, eu fiquei aqui colecionando fantasmas. Passei mal dois dias, nem o conhaque me limpou.
Mas aí botaram mais dinheiro na minha mão, o nome do cara escrito numa folha de caderno. E eu fui de novo. Mais seguro, mais tranqüilo. Agora não me lembro mais da cara do sujeito; a única coisa que lembro é o PLOF que fez a cabeça dele. Um trabalho bonito, disseram depois, não sobrou nem dente para identificar.
Foi assim que eu cresci na profissão. Discreto, objetivo, faço o que me pagam como querem que eu faça, nem mais nem menos. Um profissional. Poucas palavras, porque o silêncio é a melhor propaganda.
A nuca do sujeito vai crescendo enquanto me aproximo. Poderia acabar com tudo de uma vez, de longe, uma bala só. Mas chego perto, quero ver os olhos do cara. Fazer ele me enxergar pela primeira e última vez, levar a minha imagem pro inferno.
Quando tenho o homem ao alcance da mão ele pára, se vira lentamente e me olha nos olhos. Dessa vez não sou eu, é ele que enfia o seu olhar no meu. Não tem medo ali, nem raiva. Ali não tem nada, é um vazio de sombras.
Um outro, tempos atrás, me encarou também. Mas para chorar, implorar mais uma migalha de vida miserável, mais uns poucos anos de sofrimento humano. A história do mundo naquele olhar. E o filho da puta implorando para continuar na merda. Matei esse aí com raiva de tamanha covardia, que fosse chorar lá bem longe.
Diante daquele olhar, portanto, uma outra história. Um pequeno tremor em volta do cabo do revólver. Porque eu sabia que o meu tempo estava chegando. Só não sabia que ele era o cara.
- Toma – eu falei. – Pega aí.
O sujeito pegou minha arma, tirou da sacola de supermercado um silenciador. Um profissional também.
Os olhares. Com os gestos bem medidos ele levantou a arma, encostou na minha têmpora. Não quis fechar os olhos: ia levar a imagem dele pro inferno.
Com um movimento bem rápido ele jogou a arma pra longe. Ficamos ali um diante do outro, as mãos vazias, os olhares. As perguntas não cabiam.
Virei as costas e me afastei lentamente. Não houve tiro mas eu percebi que estava morto. Ele também. Uma rajada de vento levou a sacola de supermercado para o alto, cada vez mais para cima, em direção ao céu.
Claudio Parreira
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991235
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Sobre o autor
Claudio Parreira
São Paulo/SP - Brasil, 43 anos, Escritor Semi-profissional
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