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Preço e Consequência

Eu a vi pela primeira vez na biblioteca. Lembro bem do dia, de muitos detalhes nos quais normalmente não repararia. Da temperatura, por exemplo: 24 graus, segundo a maioria dos relógios digitais. Do cara que veio ao meu lado no ônibus, dreadlocks balançando no ritmo da música que saia de seus fones de ouvido. Da promoção que o dono da cantina da faculdade resolvera fazer – dois salgados transpirando óleo mais um refresco, descrito por nós alunos como água suja com açúcar, por apenas R$ 2,50. E eu poderia passar um tempão aqui, descrevendo um monte de outras coisas. Mas pulemos para o momento em que a vi. Estava sentada numa mesa um pouco afastada, de lado para uma grande janela que jogava sobre ela a luz pálida da manhã. Como todos ali, lia. Não consegui ver o título do livro. Reparei bem nela. O que me chamou a atenção imediatamente não foi sua beleza – agora, anos mais tarde, compreendo claramente o quanto ela é linda, mas não de forma óbvia, não uma beleza que te impacta logo de cara – mas sim a jaqueta preta que usava. Dava-lhe um ar, digamos, diferente. O ar-condicionado estava quebrado, coisas de faculdade pública, e ela lá, lendo calmamente com sua longa jaqueta, não parecendo se importar com o calor que a peça de roupa certamente produzia. Pernas cruzadas embaixo da mesa. Cabelos presos, permitindo a visão lateral de seu rosto. Seu olhar cruzou com o meu. Nada demais, esse tipo de coisa acontece sempre. Você e uma mulher estranha trocam um olhar, que dura alguns segundos, e depois cada um volta a fazer o que estava fazendo. Foi o que aconteceu. Na hora, meus hormônios chegaram à conclusão de que se tratava de uma mulher bonita, e só. Voltei a mergulhar no livro a minha frente. Cerca de quinze minutos depois, ela se levantou, deixando o livro sobre a mesa, meteu as mãos nos bolsos e foi caminhando para a saída. Vestia uma calça jeans rasgada nos joelhos, all-stars pretos e blusa branca por baixo da jaqueta. Cabelo ainda preso. Só voltei a vê-la no dia seguinte. A biblioteca estava cheia, alunos desesperados a todo o momento pedindo o auxilio das mulheres de crachá, e acabei me sentando numa mesa cumprida, ocupada por um monte de gente, inclusive ela, agora sem jaqueta, braços livres e a mostra, e cabelos soltos, cobrindo o espaldar da cadeira. Novas trocas de olhar. Várias. Fomos ficando ali, a tarde adentrando, as pessoas indo embora, despedindo-se das que permaneciam. Só nós dois na mesa. De vez em quando, levantando a cabeça um para o outro. Na quadragésima vez, ela não resistiu e sorriu. Eu também. Então estendi a mão por sobre a mesa. “Desculpe ficar te encarando. Meu nome é Márcio”. Ela hesitou, mas acabou cingindo minha mão com a sua. “Não tem problema. Suzana”. Apontei para o livro que ela passara a tarde lendo. “Você cursa História?” Ela sorriu mais uma vez. “É”.

Difícil descrever o Márcio. Quer dizer, não fisicamente: bastante alto e magro, cabelos e olhos castanhos, rosto fino e descontraído. Acho-o bonito, embora algumas das minhas amigas discordem – tanto melhor, a meu ver. A primeira coisa que me chamou a atenção nele foi a voz. Grave, bem colocada, parecia não se alterar nunca. Sempre o mesmo tom agradável. Me atraiu. A segunda foi os olhos. Parecem acompanhar a boca quando ele sorri. Muita doideira isso – olhos que sorriem. Eu disse que era difícil descrevê-lo. Às vezes me pego olhando para ele, sempre descobrindo novos detalhes. Nós conversamos muito naquele dia, na biblioteca. Ambos nos atrasamos para compromissos há muito marcados por conta disso. Eu estava no primeiro período de História, ele no de Direito. Terminaríamos a faculdade quase juntos. Começarmos a namorar foi muitíssimo natural, tanto que, quando ele fez o pedido, não respondi “Sim”, mas “O que é que você acha?” Ele é um cara meio à moda antiga, cabeça fechada para muita coisa. E, claro, me irrita incrivelmente. Odeio a forma como ele lê minha mente, como se eu fosse um livro aberto. E o quanto se gaba disso. E mais uma infinidade de outras atitudes e costumes. Paradoxalmente, não consigo dormir sem ele do meu lado. Já tivemos brigas sérias, mas nunca me passou pela cabeça terminar com tudo. Nem pela dele. Sabemos exatamente o quanto precisamos um do outro. Isso nos motiva e amedronta. Uma dessas brigas aconteceu quando ele decidiu fazer prova para a Polícia.

Meus pais passaram toda minha infância e juventude tentando me fazer acreditar que sou superior ao resto dos mortais. Foram bem sucedidos com meus irmãos: ambos trabalham junto com meu pai, no megaescritório de advocacia dele, fazendo uma nota preta e livrando a cara de gente que tem mais é que acertar as contas com a lei. Sou o caçula, logo, fui o mais bombardeado. Era uma questão de honra para eles que eu seguisse a mesma carreira, tivesse uma casa grande o suficiente para abrigar a população de uma republiqueta, dirigisse um carro cujo valor chegue ou mesmo ultrapasse os seis dígitos. Por algum motivo, não colou. Nunca tive a menor vontade de defender trastes ricaços nos tribunais. Ou quem quer que fosse. As injustiças e todo aquele papo sobre as pessoas merecerem a melhor defesa possível sempre me deixaram vermelho de raiva, e não raro, durante meus trajetos até a faculdade, me assaltava o pensamento: quero fazer alguma coisa. Alguma diferença. Aí saiu o edital do concurso para investigador da Civil. Me inscrevi e fiz a prova em segredo. Só a Suzana sabia – e ela não gostou nada da idéia. Achava a Polícia uma organização essencialmente corrupta, e que eu poderia ser afetado por isso. Ledo engano. Eu queria enfrentar o que fosse, provar do que era feito. Desejo quase adolescente. Mas funcionou. Passei na prova e nunca me meti em nada ilegal. Não podia impedir a merda de acontecer, os esquemas e tudo o mais, mas podia, pelo menos, ir para casa com a mente completamente desanuviada. Minha família fez um tremendo escarcéu, claro. Eu, o principezinho do palácio, desafiando o rei e me misturando à plebe. Me tornando, de certa forma, o oposto do que eles me criaram para ser. Adorei isso, de verdade. A sensação era ótima. Só não foi melhor do que a de finalmente me formar – e, com o diploma na mão, eu poderia tentar para delegado. Esse era o plano. Estar no topo para, finalmente, ter o poder de impedir o esgoto de fluir. E grande parte desse esgoto atendia pelo nome de Cosme Pinho.

Sempre conversamos muito. A realidade com que lidávamos todos os dias, ele na delegacia, eu nas salas de aula, nos impregnava e chocava, embora nos recusássemos a fugir dela. Dividíamos o peso. Ele me descrevia as falcatruas, todo lixo que rolava por debaixo dos panos, e eu as dificuldades de uma professora num ambiente de ensino em que os alunos preferem ouvir funk a todo volume em seus celulares a ler um livro, fazer uma atividade. Muitos simplesmente desistiam, iam dar aulas em escolas particulares e cursos preparatórios, ou simplesmente abandonavam o magistério. Essa última opção estava, para mim, fora de questão. Às vezes eu desejava ser igual a todos os outros, olhar para as circunstâncias e simplesmente dar de ombros, me convencer de que as coisas não iam mudar só porque eu desejava ardentemente que mudassem. Mas não é possível se livrar de algo que está entranhado em você. Por isso nós continuávamos, apesar da corrupção, do desinteresse. Lembro-me da primeira vez em que ele falou sobre o tal do Pinho. Seus punhos imediatamente se fecharam, seus olhos transbordaram de ódio. Márcio realmente o odiava.

Conheci o desgraçado quando ainda era investigador. Tinha uns cinqüenta anos, vinte como policial, e um dedinho em todas as atividades ilícitas imagináveis. O cara não conhecia limites, e nem precisava: escondia-se muito bem escondido por trás do distintivo, acumulando mais e mais poder. Todo mundo sabia. Ninguém fazia nada. Eu estava disposto a fazer. Na segunda tentativa, passei no concurso para delegado. Aos trinta e um anos, um dos mais jovens da cidade. Nessa época, um novo mal havia surgido, as milícias, e não tardou para que Pinho resolvesse que também queria uma fatia do bolo. O problema é que agora era eu quem estava olhando de cima. Juntei um grupo de gente também disposta a meter a cara. Foi uma verdadeira caça às bruxas. Alguns deles morreram em ações organizadas por milicianos. Você paga o preço. Fui à vários enterros de colegas. Se eles tivessem vivido um pouco mais, teriam visto que valeu a pena. Conseguimos gente disposta a falar, e, finalmente, provas o suficiente para superlotar Alcatraz. Foi um fuzuê dos infernos, com muita gente rodando. Inclusive Pinho. Fora exposto como miliciano pela mídia, e sua captura foi capa dos principais jornais. Seu rosto estampado na primeira página foi um troféu particular. Uma vez preso, abriu e bico entregou mais gente. Vereadores, até deputados, gente acima de qualquer suspeita. Estar no meio daquilo tudo, ter, aliás, sido um dos perpetradores daquela iniciativa é uma coisa que me enche de orgulho. Mas o orgulho não resiste a tudo. Não resiste ao medo. Eu o sinto. Depois de duas tentativas de homicídio, das quais escapei só Deus sabe como, não ando sem olhar o tempo todo para trás e não passo mais que algumas horas sem ligar para Suzana. Meu coração aperta toda vez que ela vai para a escola. E dilata quando a vejo, no fim do dia.

Márcio está nervoso, apreensivo. Houve uma fuga em massa no presídio onde Pinho e alguns amigos dele estavam presos. Meu marido não para quieto, seu celular toca a todo o momento trazendo novas informações. Suspeitam que houve facilitação da fuga. Márcio acredita nessa hipótese. Está tarde e ainda não fomos para o quarto. Ele dá instruções, levanta hipóteses sobre onde o grupo fugitivo pode estar, mais falando do que ouvindo. Desliga, finalmente. Vamos para a cama. Ele me cinge com o braço. “Não vou deixar nada acontecer com você”, diz.

O revólver está apontando para mim, agora. É quase engraçado. Pensei em todas as possibilidades, juntamente com minha equipe. Dei instruções de busca, enviando unidades a diversos pontos do estado. Mas nunca sequer me ocorreu que ele viria exatamente para cá. Acertou-me com algo pesado, trouxe-me para o quarto, surrou-me por uns dez minutos. Suzana está encolhida no canto, também sangrando. Ela olha pra mim e chora.

Você paga o preço. Sempre acreditamos nisso. Aceitamos que nossas ações poderiam gerar represálias, que poderiam até nos destruir. No entanto, quando essa possibilidade sai do plano empírico e se torna realidade, quando você vê aquilo que mais teme acontecer, sente-se pequeno, imóvel, inútil, não consegue segurar as lágrimas, e como uma criança que descobre não existir nenhum bom velhinho vestido de vermelho, você desaba. O homem, Pinho – reconheço-o das muitas fotos nos jornais – se afasta do meu marido e vem na minha direção. As lágrimas descem sem parar, apesar das minhas tentativas de fazê-las parar. Pinho olha para Márcio e aponta a arma para mim. Ele também chora. Nunca o vi chorar. O homem que eu amo. Pinho, talvez pela primeira vez, fala. “Tudo tem conseqüências, Márcio. Tudo”. O dedo dele roça o gatilho. Olho para meu marido. Meus lábios se movem sem emitir som algum. Ele os lê. “Eu te amo”.

O tiro soa no quarto tomado pela escuridão. Fecho os olhos para não ver o corpo dela tombando para trás, o sangue dela banhando o chão. Fica um silêncio que pressagia o que está por vir, o vazio que a minha vida está para se tornar. Você nunca pensa que o preço pode ser alto demais. Se pensa, procura afastar a possibilidade. Tudo tem conseqüências. Pinho diz adeus e sai do quarto. Não vai me matar, não precisa fazê-lo agora que tirou o que eu tinha de mais precioso. Não vou atrás dele, fico aqui, parado, na companhia de minha esposa morta.
E tudo que resta é adeus.


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Josué de Oliveira
Publicado no Recanto das Letras em 13/10/2009
Código do texto: T1863652

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Comentários
14/10/2009 11h52 - Josué de Oliveira
Obrigado, Caroline. Grande abraço.
13/10/2009 19h40 - Caroline Farias
Nossa! Muito bom, parabéns! E realemente tudo tem seu preço e consequência. beijo ;*

Sobre o autor
Josué de Oliveira
Niterói/RJ - Brasil, 19 anos
8 textos (909 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 11:21)

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