Assassinatos Misteriosos
Joyce Fontes não fuma, não bebe, não come carne gorda, todo fim de semana vai ao mercado público, no centro de Florianópolis, comprar o peixe. Seu Hercílio a conhece de vista. Joyce é cirurgiã odontológica, formada pela UFSC, tem seu consultório no centrinho da praia de Canasvieiras, onde mora com seu marido, gerente de uma agência de um banco multinacional no centro da cidade, e as duas filhas. Joyce é gaúcha, de Jaguarão, cidade que faz fronteira com o Uruguai, seu marido é catarinense mesmo, de São Joaquim.
Todas as manhãs Joyce acorda às 5:30 horas da manhã, pega seu carro de marca Fiat, modelo Mille Fire azul metálico e dirige até a beira da praia, em Canasvieiras, onde faz sua corridinha costumeira. Na manhã de terça-feira, como sempre, trocou as sandálias pelos tênis de corrida, com sistema de amortecimento de impacto, que lhe custou quase 300 reais, e como ainda estava friozinho, colocou sobre os ombros um casaquinho de moletom branco com detalhes em dourado, ajeitou o short preto, também com detalhes em dourado, trancou o carro e ligou o alarme. Já eram 6:25 horas da manhã, quando começou sua corrida diária, geralmente de um quilômetro, ou um e meio. Não era alta temporada ainda, portanto a praia estava praticamente deserta. Depois de meia hora de corrida, Joyce percebeu algo envolto por o que parecia ser uma lona, de cor laranja, jogado na beira da praia. Levada pela curiosidade, aproximou-se da coisa, ou criatura, examinou a lona, fosse o que fosse que aquilo estivesse escondendo, era algo grande. Agachou-se e lentamente levantou a lona. O que estava debaixo da lona deixou Joyce completamente estarrecida, mas ela ainda teve bastante presença de espírito para ir até o carro e pegar o celular, para em seguida discar 190 e notificar a polícia militar.
A polícia chegou meia hora depois, com carros dos jornais, emissoras de rádio e de tevê no seu encalço, naquele momento já havia um bom número de curiosos em torno do corpo recoberto pela lona de plástico. O corpo estava nu e era de uma garota aparentando ser menor de idade, de cabelos castanhos claros, olhos castanhos também, um pouco obesa, uma beleza comum. Era a quarta garota encontrada morta, mais ou menos com as mesmas características, corpo nu, sem nenhuma gota de sangue, com estranhas marcas de mordida no pescoço, nuca, ombros, pulsos e barriga, além de vestígios de relação sexual, não se sabe se forçada ou consentida.
Seu Hercílio viu a notícia num dos telejornais de repercussão nacional. A polícia trabalhava com a possibilidade de um maníaco, com características de serial killer, pois embora as quatro vítimas não tivessem muita ligação entre si, tinham em comum o fato de serem de menor, terem entre 12 e 17 anos de idade, e o padrão das mortes ser sempre o mesmo, os sinais de relação sexual, as mordidas, a quase total ausência de sangue nos corpos. A primeira vítima, encontrada nos arredores do terminal de ônibus do centro de Florianópolis, era uma adolescente de tez escura, 15 anos de idade, de nome Roberta; a segunda foi encontrada na mesma praia de Canasvieiras, loira, olhos azuis, nome Tabatha; a terceira, Sabrina, 12 anos de idade, magra, alta para a idade, cabelos cacheados negros, olhos castanhos escuros, encontrada morta na praia do Forte; a quarta, agora encontrada na mesma praia da segunda vítima, cabelos castanhos claros, um pouco acima do peso, 17 anos, de nome Vanessa. Todas mortas da mesma forma, seguindo um mesmo padrão doentio. Os investigadores tinham várias suposições, hipóteses e teorias, mas ainda não tinham nada com que trabalhar.
“Eu conheço esse padrão” seu Hercílio ouviu Gabriel falar, num tom um tanto incrédulo. Seu Hercílio voltou a atenção para o amigo, cujos olhos negros e sem brilho, repentinamente, tinham por trás do negror profundo como a noite sem lua, um brilho, quase como de uma faísca elétrica. “Eu conheço todo o padrão. E conheço os canalhas que cometeram esses crimes! Eles não são maníacos!” Seu Hercílio não se lembrava de ter visto alguma vez Gabriel com raiva, e o rapaz estava inclinado para a frente, na direção da tevê, os olhos vidrados, aquelas estranhas faíscas que nunca vira antes. Viu as mãos de Gabriel se crisparem. De repente era como se ele não estivesse ali, o amigo notavelmente parecia ver apenas os monstros que assassinaram aquelas meninas na sua frente, com mais clareza que a polícia. Hercílio perguntou lentamente “Como é que tu os conheceste?” O olhar de Gabriel assustou-o, parecia mais penetrante que de costume, seu Hercílio sentiu o sangue gelar, sentiu um certo arrependimento. Mas o olhar do amigo foi voltando a sua opacidade não menos assustadora, mas com a qual já estava habituado. “Já imaginas como, major? Pois eles foram os desgraçados que mataram minha filha!”
Ayrton Mortimer
Publicado no Recanto das Letras em 15/10/2009
Código do texto: T1868087
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