Morra aos 27
1 - A certeza fatal
O contrato foi aceito pela pequena família. Teriam de pagar vinte anos pela casa própria. Jean e sua mãe Luzia viviam bem na casa construída pelo avô. Mas ainda moravam no terreno dos pais de Luzia.
- Precisamos de uma casa nossa.
Era a certeza de Luzia.
Queria viver com o filho em outro lugar.
Qual foi sua alegria quando a chance apareceu como um financiamento.
Demoraram dois anos para aprumarem a casa e em um dezembro confuso se mudaram.
Jean trabalhava desde os quinze anos e agora com vinte e seis tinha memórias dos diversos empregos que tivera.
Luzia sempre trabalhara também. Tinha a certeza de estabilidade de seu cargo, mesmo com isso, atrapalhava-se nas contas.
Jean e Luzia eram os vizinhos perfeitos, os outros praticamente não os viam.
Durante um tempo, Jean ficou em sua nova casa foi despedido do emprego. Sentia falta dos amigos que deixara em sua antiga vila.
E por um tempo foi avesso ao contato com os jovens de seu novo lugar.
O isolamento do jovem não durou muito... bastou que saísse um dia pela rua e tudo mudou. Estava caminhando pela nova vila e começou a conversar com um grupo de jovens.
Tornaram-se grandes amigos. Achavam que Jean era estranho e soturno mas adoravam ele.
Jean era o mais sombrio e sinistro amigo que já existiu...
Teve um dia, que ele assustou à todos. Em meio a roda ele declarou em voz baixa:
- Eu não vou viver até os vinte e sete...
Emudeceram, a bonita Paola tentou contornar:
- Vira essa boca pra lá! Você está muito bem e vai viver muito.
Os outros riram para descontrair, para se enganarem.
Em seus íntimos tinham medo que Jean se suicidasse. Pois todos tinham noção de como era viver com a dona Luzia.
2 - Santa Luzia
Irritante, controladora, briguenta, hipocondríaca etc.
Tudo isso se podia dizer de Luzia e pior... tinha tendência a se martirizar. Era sempre vítima e bondosa... como uma santa. Santa Luzia.
Algumas dessas características agravaram após o divórcio com o pai de Jean, Crono.
Luzia o amava intensamente, casaram-se rapidamente. Jean nasceu um ano após o casamento.
Luzia e Crono eram opostos. Enquanto ela era ligada ao material ele era despojado. Enquanto ele odiava regras, ela encontrava segurança nelas.
Mas como dizem, os opostos se atraem. E as vezes se completam.
Viveram bem durante nove anos, então Luzia começou a ficar intolerante. Crono, um espírito livre, logo arranjou uma amante.
Largou Luzia para viver com essa mulher.
Para Luzia toda a culpa do mundo caia sobre Crono. Pobre do Jean que crescia com a imagem do pai. Luzia que via um pequeno Crono em Jean, pegou o filho para Cristo.
Num legítimo caso de transferência de raiva. Jean teve de se adaptar em um mundo de tudo ou nada.
As vezes ela era terna com ele, porque lembrava que era seu filho.
Mas geralmente o criticava dos pés a cabeça.
- Você não faz nada direito.
Ela teve outros namorados enquanto os anos passavam, isso de pouco adiantava. Ela via outro Crono quase homem diante de seus olhos.
Isso a deixava com sentimentos contraditórios.
O garoto ficava cada vez mais problemático. Com a chegada da adolescência, finalmente, começou a brigar com aquela que o torturava.
No aniversário de catorze anos, ralhou com ela.
- Eu trago meus amigos e quando eles vão embora você os chinga. Isso me magoa... você é uma pessoa fria e amarga. Não adianta discutir, eu vou sair.
Vendo que perdia uma batalha, a Santa Luzia apelava para o bom coração do filho.
- Ai filho, tô sentindo uma tontura...
E lá ia o pobre ajudar a mulher que encenava.
No dia seguinte disse a ela pela primeira vez.
- Eu não vou viver até por muito tempo.
Ela pensando que ia ficar sozinha no mundo, brigara com toda a família, lhe disse:
- E vai me abandonar?
E ele:
- Não vou abandonar ninguém. Eu sei, sinto e vejo que não viverei por muito tempo.
Parecia um morto falando.
3 - Sanguessuga
Trabalhador e bom filho. Sempre ajudou a mãe com dinheiro ganho com súor. Até mais do que qualquer de seus amigos.
O tratamento com a mãe era igual, Luzia estava "feliz" com a companhia de seus namorados. Mas bastava eles não estarem que a acidez voltava.
Um dos namorados até se solidarizou com Jean.
- Você tem um ótimo filho. Ele nem te dá trabalho e você fica reclamando.
Ela fingia entender mas passavam quinze minutos e o inferno continuava.
E era Jean esquecer a carteira na sala que logo sumiam notas...
Ela nunca falou bem de nenhuma namorada do filho. E sempre que ele ia sair, apelava pra suas dores. Nem sempre ele cedia mais, vez por outra a deixava.
- Ingrato!
Era pior que pedrada, pior que uma cuspida no rosto. Ele? Ingrato?
Nos cadernos de Jean havia uma contagem de dias para seu vigésimo sétimo aniversário, isso mesmo, contava os dias.
A situação ficou ainda mais crítica num dia em que Jean iria viajar para o campo. Ficaria uma semana fora com os amigos que estavam também de férias.
Por culpa do acaso a Santa Luzia quebrou um dedo.
O mindinho.
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!
Jean correu para levá-la ao hospital, já engessada ela disse:
- Você vai cuidar de mim, não vai?
Ele disse:
- É só o dedo mindinho mãe.
E ela irritada:
- A dor irradia por toda a mão, você sabe que eu sou canhota.
Ele sabia que era um golpe baixo. Tinha que ter quebrado na mão esquerda?
- Você não quer ser um ingrato, quer?
Persona non grata. Não.
Os amigos partiram sem Jean. Este virou escravo durante a recuperação. Tudo pelo bom coração.
Afinal sua mãe se sentia inútil. Jean se consolava pensando:
"Tudo bem, não vou viver até os vinte e sete. Aí vai ver..."
Já havia até comprado o caixão.
4 - A verdade na dor
Faltava um dia para o aniversário de Jean. Seu vigésimo sétimo.
Ele acordou disposto. Estava bem pois sempre contava os dias.
"Só mais esse."
Pensava enquanto comia o pão com mortadela, estava por banco de horas da empresa nova, passava o tempo em casa.
"Só preciso de hoje."
Tinha programado um dia especial para rever amigos e beber um pouco. Mas a mãe levantou cedo e foi lhe encher.
- Filho, tô com uma dor no fígado.
Ele, já vacinado:
- Não é nada mãe. Tô saindo...
E ela vendo que perdia:
- Pelo menos toma um café comigo.
Ele impaciente:
- Mãe, eu preciso sair. Eu vou tomar café da tarde com você.
Luzia abriu a bocarra:
- Não seja ing...
Antes que terminasse, Jean sentou ruidosamente. Pegou uma xícara e serviu a mãe.
- Esse café tá horrível filho. Pega açúcar pra mim?
Ele rangendo os dentes.
- Mãe, a porta da cozinha está mais perto de você.
E ela:
- Meu fígado...
Ele nem quis ouvir, pegou a xícara dela levou na cozinha e despejou parte do pote. Trouxe a xícara olhando para a porta da saída.
- Toma. Posso ir agora?
Ela pegou a xícara e o olhou com desprezo, tomou um gole e voltou lentamente o olhar para ele.
- Se você quer tanto dispensar minha companhia, vai!
Ele giravba a maçaneta quando ela gritou:
- Filho! Estou com uma dor no peito....
Jean parou e disse:
- Sério mesmo? Dessa vez é sério?
Parecia desesperada:
- Sim.... é....
Ele começou a enumerar:
- Como da vez que disse que uma veia da sua cabeça tinha estourado, ou da vez que pensou que tinha quebrado a bacia, ou...
Ainda viu a imagem borrada do filho. E quando ele notou a veracidade, estava falando com um cadáver.
5 - Funeral e aniversário
E novamente a mãe estragara os planos, passou o dia avisando parentes e arrumando as honrarias. E no dia seguinte...
Os amigos dele acharam irônico. O caixão que Jean comprou anos antes agora levava sua mãe e não ele...
Se aproximaram dele no enterro:
- Tá vendo? Você não morreu.
Disse o Toninho, a Paola lhe deu um beliscão.
- Não fala assim Toninho! É falta de respeito com a mãe do Jean.
O Toninho era terrível, não resistiu, perguntou:
- Não vai ter festa de aniversário? Sua festa Jean?
Paola respondeu rapidamente:
- É claro que não Toninho. Onde já se viu? Deixa o Jean em paz!
Jean olhava o horizonte e os surpreendeu:
- Vai haver uma festa. Eu preciso me sentir melhor!
E surpreendeu a si mesmo.
Despediu-se a tarde dos parentes e recebeu a visita de um advogado.
- Senhor Jean?
Respondeu:
- Sim, sou eu.
O advogado tinha uma pasta nas mãos.
- Represento o condomínio. O senhor leu o contrato de financiamento?
Jean respondeu:
- Não.
E o advogado:
- Pelo contrato, em caso de falecimento do titular, a residência passa automaticamente para o poder do dependente. O senhor também fica dispensado do pagamento do financiamento, clausula do seguro adquirido.
O calvo homem lhe tocou o ombro:
- Lamentamos pela sua mãe. Agora a casa é sua.
Jean aparentava confusão:
- Minha... eu... não preciso pagar?
O advogado sorriu:
- Óbviamente pagará a água, luz e o telefone. Novamente lamentamos o ocorrido. Passe bem.
Sentou-se. Parecia uma nova vida.
Noite.
O quintal cheio de amigos e amigas de Jean. Todos silenciosos e contidos.
Ele estava lá num canto e de repente, deu um salto. Foi para dentro da casa e voltou com o aparelho de som. Ligou o aparelho na tomada de fora e gritou:
- Nós estamos vivos!
Ligou o som, um rock pesado, agitado.
- E é meu aniversário!
Toninho começou a dançar, logo, todos dançavam. Riram, comeram e viveram na noite.
Paola se aproximou de Jean:
- Eu tenho um motivo para você passar do dia de hoje.
Ele olhou o rosto doce:
- Qual?
Ela deu um sorriso:
- Eu gosto de você.
Ele a beijou longamente. E desejou eternidades, dormiram juntos.
- Quero casar com você. Quer casar comigo?
Foram as palavras que Paola ouviu ao acordar. Gostava de Jean à tempos, parecia lógico responder:
- É o que mais quero.
A manhã passava enquanto se amavam.
Tarde, debruçada no colo dele, Paola perguntou:
- Por quê queria morrer?
Ele levantou e olhou pela janela. Ela disse:
- Pensa nisso, enquanto faço um chá para nós.
Chá de camomila. O cheiro doce enchia a casa. Ele segurou o braço dela, de leve:
- Eu não queria morrer. Só disse que não viveria até os vinte e sete. Agora, comecei a viver. Comecei uma vida nova, uma vida, de verdade.
Ela riu e duvidou:
- Resposta nova espertinho? Espera aí que esse chá tá sem açúcar... eu já volto.
Paola levantou e foi até a cozinha. Jean abraçou-a por trás quando ela pegou o pote. Tirou o pote dela.
- Esse não amor...
Embaixo do ármario, pegou o pacote de açúcar.
- Por quê do pote não?
Respondeu sussurrando:
- O que esta neste pote é que garantiu nossa nova vida...
Raoni Barone
Publicado no Recanto das Letras em 15/10/2009
Código do texto: T1868153
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.