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Rookie - Livro I - I folli muoiono prima? - Capítulo II - Primeira parte 1/2

Capítulo II

Quarta-feira 10 de fevereiro de 2012;
   “As aparências realmente enganam. Podemos ver a confiança no próximo através de sorrisos esbranquiçados e dermes intocadas, talvez até por um anel de compromisso, mas nada chega próximo a confiança que o capital traz. Você pode ser quem for, porém você está correto, basta possuir capital suficiente para isso. A lei, essa nunca chegará a você, pode ter certeza disto. Ela não existe, é apenas uma invenção do homem, assim como o dinheiro, e por isso se dão tão bem. Não se esqueça! O direito a cidadania nunca existiu! Não cumpra seus deveres, pois seus direitos jamais serão vistos, apenas seu vil metal é levado em conta, literalmente.”
  Alguns meses antes, entre sons musicais e inúmeros foguetórios, no amplo e nobre salão de comemorações de um luxuoso condomínio na Barra da Tijuca, que mostrara como é crucial o poder capital nesta sociedade consumista na qual vivemos, inúmeras pessoas importantes de diversos níveis sociais estavam presentes na comemoração dos trinta e dois anos do Senhor Salvatore Cross.
   Turi, como era conhecido o mega-empresário e filantropo Salvatore Crossifixicio, hoje comemora seu trigésimo segundo aniversário, uma data muito celebrada em várias partes na grande metrópole do Rio de Janeiro, tendo em vista que tal homem de respeito era um grande contribuinte para a sustentação e manutenção de inúmeros movimentos populares de todo o estado, os quais usufruíam das verbas da renomada Fundação Riccardo Treviso.
 A Fundação Riccardo Treviso existia há apenas um ano, contudo já era a responsável por assistir a grande parcela excluída que não poderia ser absorvida pelo seleto mercado de trabalho, além de também atender outras inúmeras demandas de diversificados pólos do grande estado fluminense.
   Sua criação não fora obra do puro altruísmo, e nem de missão messiânica, na verdade constituíra um presente de desculpas, ao qual Salvatore objetivava o perdão de sua amada ex-esposa Helena Morgan, a qual havia se separado há dezesseis meses. A manobra fora inteligente, a inteligência da pedagogia hegemônica, algo que apenas poderia ser elaborado por um monstro capitalista que vestia pele de cordeiro social, assim utilizara a Fundação como um presente de reconciliação, quando a real meta seria legitimar o Burguês Estado Fascista, sendo apoiado por ilustres figurões da política nacional, junto a grandes empresas que contribuiriam pelo abatimento fiscal em sua parcela de responsabilidade social.
  Utilizando-se dessas engenhosas manobras políticas Salvatore conseguira o poder necessário para se tornar o mais influente homem do estado e um dos mais reconhecidos do país, não apenas por sua milionária rede de lojas de construção, mas sim por sua grande influência na política nacional devido à massiva aceitação dos cidadãos em conjunto com os organizados, porém vendidos movimentos populares.
 Transformou-se em um homem captador de votos, um ícone democrático que bastava figurar em uma foto próxima a um candidato para que este fosse eleito, daí surgira sua exorbitante rede de influência, que culminaria na ascendência da Família Crossifixicio superando até a família progenitora, a grande e poderosa Família Treviso, a qual dera a Salvatore todo suporte necessário para suas primeiras empreitadas nesse vertiginoso mundo, ensinando o quão descartável é o homem, e como a vida não tem valor, pois tudo é vendável, mostrando em fatos diários que o ser humano realmente valia menos que o produto de consumo.
    Residir em seu escritório tornara-se uma opção. Não apetece a ninguém misturar vida profissional com a pessoal, no entanto para Turi não importava, pois se perdesse uma, não existiria a outra mesmo. Honestamente sequer tinha vida pessoal ultimamente, esse era o alto preço a pagar pela vida de lorde que desfrutara nos últimos seis anos. Não sendo amado e confortado por ninguém.
  Para um homem tão influente e poderoso conseguira um milagre, não ocorrera uma guerra, mortes poderiam ser contadas nos dedos, apenas uma em especial, porem fora necessária, como diz o sábio das ruas: - “Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Sempre tem um que não se toca e tenta “Cantar de galo”.
 O importante era não ser importunado, também, quem poderia enfrentar um sujeito que tem contato suficiente para portar legalmente a “ponto cinqüenta” no alto de sua alameda fortificada, apenas desvairados o enfrentariam. Apenas desvairados.
  O aniversariante, o único que deveria desfrutar de paz e tranqüilidade nesta próspera data, na verdade se encontrava dentro de um pequeno kit net, porém muito bem mobiliado em forma de escritório, onde havia em sua saída uma fila com algumas poucas pessoas. Ao lado de Salvatore figurava um rapaz atlético de aparência rude, que devido a suas fartas e zangadas sobrancelhas contrastando com sua pele morena, lembrava um nato carcamano do sul. Este é Giovani seu fraterno, que consternado questiona: — Irmão é seu aniversário, deixe o serviço de lado e vamos aproveitar, você faz isso todos os dias e todas as horas. Vamos beber algo. — Sorrindo Salvatore responde com seu costumeiro tom irônico: — São apenas novos aliados, em menos de duas horas acabo com isso e iremos aproveitar bastante, contudo não repita sua sugestão na frente de nenhum deles e nem demonstre que está querendo sair. — Olhando com cansaço para o irmão,  Gio deveras obediente menciona: — Uma pena o que aconteceu com Tomasso, esse sim era homem para dar conselhos e trabalhar em feriados. — Abaixando a cabeça, Sr. Cross desvia os olhos para uma foto onde figurava abraçando um conhecido de mais idade e afirma: — Tenho certeza disso, esse trabalhava muito bem, mas escolheu o caminho dele, no entanto você está de volta e possui meu sangue, será meu conselheiro. Desde novo valorizo sua perspicácia e creio que será de bom uso. — Presentemente sorrindo, Giovanni se aproxima a porta, e  de maneira respeitosa porém ríspida pede para que o primeiro pedinte entre ao escritório.
   Ao mesmo tempo em que Salvatore trabalhava, as iniciais celebrações da grande festividade ocorriam em seu belíssimo espaço reservado, que mais parecia uma luxuosa casa de eventos, onde a nebulosa de fumantes apenas enfatizava os fortes efeitos dos canhões de luz eficazmente montados.
   Destacados e reunidos em uma roda encontram-se quatro diferentes homens. O primeiro, bastante esguio, que devido a tal compleição parecia mais um boneco de marionete, contudo belo através dos chamativos olhos verdes rodeados por sarnas, que revelavam seu ótimo humor. Utilizando deste humor, o magro ser brinca com uma das inúmeras beldades que se encontravam no local, dizendo: — Que delícia em Matilde, Sr. Cross cuidou muito bem de você desde novinha, está pronta para o famoso abate — Mostrando-se muito chamativa, a pequena revela seus belos dentes brancos e se oferece: — É só o senhor me requisitar com um dedo que te laço na cama Sr. Shotz. Para os membros oficiais o serviço é pela conta da casa — Analisando a cena com um pouco de asco, outro pertencente à roda, dono de estatura mediana, porte rijo e cabelos dourados, conhecido como Dr. Moraes afirma com deselegância: — Posso trabalhar para o Salvatore, mas ainda não entendo como ele consegue criar essas crianças e jogá-las nessa vida tão repugnante. Parece mais um cafetão do que um respeitável empresário. — Cortando Dr. Moraes com demasiada acidez, eis que surge o quinto elemento, conhecido como Macedo. Um legítimo capanga, ombros largos, braços torneados, nariz pontiagudo e cabelos lisos como um europeu, que cresce perante. Moraes apesar de sua pequena estatura, revelando assim toda a lealdade que o fez crescer na organização, e indignado explicita: — Logo você que mama nas tetas da prostituição dessas meninas para ganhar seu salário astronômico, como tem coragem de falar assim de nosso irmão? — Ainda com raiva afirma: — Você deve mais a ele, do que ele a você. Entenda isso seu almofadinha de merda. — Dr. Moraes corado devido a sua exaltação e a aparente embriaguez, espatifa a taça de champanhe no chão e com o dedo indicador próximo ao nariz de Macedo esbraveja: — Ele não é meu irmão, e nem seu, é nosso amigo de infância e meu trabalho sempre foi muito importante! Sou eu quem limpa a sujeira dele como um bom advogado. Sou quem lava o dinheiro dele e transforma tudo em legal e você soldado o que faz? Só sabe apertar a porra de um gatilho, isso até um macaco consegue fazer! — Irado com a indiscrição do aliado, Macedo cerra seu punho e assemelhando a um rugido abre sua enorme boca para revidar a ofensa, quando intervindo na velocidade de uma bala, aparece com em um passe de mágica, um tipo engraçado severamente moreno, que devido aos seus chistosos óculos quadriculados, o forneciam uma aparência bondosa, mas que hábil como um lutador segurava com intimidade o punho de Macedo, e aproximando-se do ouvido deste educadamente pede: — Por favor, cara não faça isso, é a festa de nosso chefe, ele te estima muito e seria profundamente constrangedor que seu irmão de consideração estragasse tudo. — Mais sossegado Macedo abaixa o punho e sussurra: — Nascimento, só você mesmo para trazer paz há essa hora. Melhor me afastar, nunca aturei esse babaca. — Ainda ébrio Dr. Moraes tenta provocar outra vez seu aliado quando por detrás deste surge um segurança extremamente forte, que empunhava uma arma por baixo do terno. Reparando os seguranças que o rodeava, o ébrio doutor gargalha displicentemente, cambaleia levemente trocando suas grossas pernas e debocha: — Dias, você acha que pode encostar um dedo em mim? Nem da família você é realmente, não passa de um cachorrinho que pertence ao Treviso. — Sério algo inusitado em seu comportamento, Nascimento se intromete, deixa seu jeito irreverente de lado e ratifica sua influência cortando o assunto: — Contudo eu posso até meter uma bala no seu rabo, pois você está insultando nossa família agindo desta maneira, além é claro que o Braccio Sinistro (Braço Esquerdo) está apenas te observando o tempo todo, e como a Boca da corporação você deveria saber o que falar. — Ultrajado o renomado advogado arregala os olhos em instantâneo furor, porém é contido pelo frio e espelhado olhar de Hélio, que tem o posto de Sentito (Ouvido) na organização.
  Aproximando-se de Moraes, Hélio emanando toda a confiança costumeira, ajusta seus caros óculos de grau com seus delicados dedos, se achega ainda mais revelando o forte odor de condicionador exalado pelos fartos cachos loiros que cobriam sua cabeça, e com a segurança de um carrasco no olhar delicadamente segura o ombro de seu aliado com suas brancas e magras mãos questionando lutuoso: — Você tem certeza que não quer descansar um pouco, creio que será perigoso para sua integridade quando Salvatore souber dessa palhaçada toda? — Sobressaltado Moraes que apesar de ébrio não havia perdido o temor da morte, gagueja bastante, intui a seriedade da sentença, e tentando reconciliar a situação, imediatamente pede desculpas e se retira para sentar-se com outros convidados de menor importância.
  Após a discreta retirada do advogado da família, Hélio observa Tupinambá na roda e pergunta: — O senhor como Braccio Sinistro observa a essa explanação dos negócios da família a tudo calado, enquanto o caos se instaura? — Retrucando, o pálido tentáculo que degustava uma farta taça de vinho, ignora a possível morte do antigo aliado e comenta: — Não me importo caso ele morra, nem o acho tão bom advogado assim. Na verdade ainda traria lucros a organização. — Atônito Hélio afirma embasbacado: — Não é á toa que Salvatore fala que Macedo, seu Braccio Destro (Braço Direito) é o Jab, enquanto você é canhota que fulmina. — Depois do comentário uma cena rara ocorre já que Tupinambá também sorri junto aos demais e ainda com o sorriso estampado indaga: — Não é à toa também que meus honorários são maiores. — Ao escutarem tal prova de humildade romana, todos caem na gargalhada, assim seguindo tranqüilamente a festa, que agora relembra embalos antigos para a alegria da grande nata corrupta que freqüentava o local.
   Subindo no belo palco montado, uma silhueta coberta pelas sombras propositais clama a atenção de todos, quando para a surpresa dos demais participantes, as luzes se acendem como bombas, assim desvendando a face encantadora e latina de Julles Sanio, o maior cantor estrangeiro da atualidade, que ao som de instrumentos meticulosamente entrelaça seu corpo ao de uma dançarina, enquanto os rudimentares aparelhos iniciam o som de seu repertório particular.   Delirando nas antigas músicas latinas as dançarinas mais experientes da corporação abrem o show expondo suas perfeitas curvas de teor insinuante despertando a libido de todos os figurões desacompanhados e alguns acompanhados mais desinibidos de sua poligamia.
   Situado ainda em seu escritório particular Sr. Cross escuta em belos sons a chegada de seu ilustre convidado, quando um de seus atendidos no decorrer do assunto pergunta abismado: — É o Julles Sanio? — Analisando com seus sólidos olhos o deseducado indivíduo, Sr. Cross muda seu semblante bondoso por um tom sinistro e questiona abruptamente rude: — Tem certeza que o senhor irá consumir meu tempo se atendo aos detalhes da festa que esta comemorando o aniversário deste homem que presentemente lhe atende? — Tenso o humilde tremula as mãos e derruba a xícara de chá fino que degustava. Horrorizado por estragar peça sem igual, o senhor de esbranquiçado pêlo ainda estremecido se ajoelha no carpete dizendo que limparia tudo, contudo comovido com a cena patética protagonizada por seu pedinte, Cross humildemente ergue o ancião calmamente pelo braço e com tom afável fala: — Não se preocupe homem, quero lhe auxiliar. Apenas desejo que o senhor atenha-se aos detalhes — Então retomando o raciocínio pergunta: — Qual era sua situação mesmo? — Ainda angustiado o idoso de mãos dançantes revela pausadamente: — Estou sendo ameaçado por marginais que querem queimar minha loja se eu não fornecer produtos a eles. — Atento Salvatore pergunta: — Já fora à polícia? — Desanimado o comerciante revela: — Um deles é filhote desses canas da peste, é impossível fazer algo contra ele. Nunca vi um moleque rico ficar perturbando o sono de gente como eu, só aqui nessas cidades mesmo.  — Com o brilho de novas oportunidades nas órbitas oculares, o agora contente Salvatore pergunta interessado na delicada situação: — Você reside em Copacabana, não? Quem é o policial que acoberta os jovens? — Temeroso o idoso permanece calado, então Sr. Cross de maneira serena certifica: — Confie em mim, não veio aqui por meros boatos sobre meu poder, diga-me, estará protegido. — Espantado com a segurança do poderoso anfitrião, o comerciante alerta com os últimos resquícios de coragem existente em seu corpo: — É o Coronel Azevedão, o secretário de segurança. Creio que o senhor não possa tanto. — Sorrindo pela ignorância do pedinte a sua frente, Sr. Cross intera definitivamente de forma tão confiante como os antigos imperadores: — Vou enviar um de meus homens disfarçado de freguês, mas não conte nada a ninguém, pois em uma semana tudo estará resolvido, tenho certeza que este meliante não importunará mais o senhor. — Seguro pela sabiamente montada resposta de Salvatore, o comerciante se desculpa pela falta de educação de outrora se apresentando como Francisco Silva e em seguida indaga o que deveria fazer para retribuir esse favor, quando demonstrando sua enorme compaixão o poderoso empresário elucida calmamente: — Apenas sua eterna amizade, talvez algum dia lhe cobre este favor, mas pode ser que este dia nunca chegue. — Agora de pé e agradecendo a Cross, Francisco abaixa a cabeça num gesto respeitoso e se retira. — Próximo a seu irmão, Giovanni põe a mão na barriga como se estivesse com dores e desaba em altas gargalhadas. Assustado Salvatore contem a escancarada boca de seu fraterno com sua grossa mão e pergunta abismado: — Porra, o que é tão engraçado para fazer esse barulho todo seu filho da puta? — Ainda rindo bastante, e agora recostado sobre uma cadeira, Gio responde com outra pergunta: — Você já pagou os direitos autorais pelas frases copiadas do Poderoso Chefão? — Agora acompanhando a própria chacota, Salvatore reclina-se sobre à bem trabalhada mesa de seu escritório, revela seus inocentes olhos não apagados pelas dificuldades dos anos e concorda com o plágio: — Viu como elas surtem efeitos? O velho me obrigava a ver esse filme todos os dias e olha que são três horas cada, mas tenho de dar o braço a torcer, aprendi a encenar muito bem.
   Retomando a seriedade anterior, Salvatore arruma sua blusa de seda, ajeita as mobílias cuidadosamente, parecendo sofrer de transtornos obsessivos e compulsivos, e severo alerta ao querido irmão que a próxima pessoa a entrar, será o último caso a ser resolvido, e que precisará da opinião deste. Agora também assumindo a postura devida, o futuro consiglieri que não fora requisitado em nenhuma das outras ocasiões anteriores, pergunta: — Você realmente tem dúvida? — Sereno e demasiadamente sincero, o hábil líder explica que nunca tem dúvidas e adverte: — Apesar de não possuir dúvidas, esse será seu teste, porém quem sabe você possa me convencer do contrário. — Ao cerrar seus lábios, nem mais e nem menos que um segundo, uma bela mulher de aparente quarenta anos adentra a aconchegante sala, se serve com um uma xícara de chá e antes de começar argumentar desabrocha aos prantos.  Quando tentara se aproximar da senhora de quatro décadas, o belo moço de nariz acentuado se detém ao perceber a censura que seu irmão o fizera com os olhos.
   Não sentira qualquer sinal de compaixão, tais lágrimas não lhe soaram verossímeis, não lhe despertaram emoção alguma, contudo choradeira o incomodava, então mantendo a calma Salvatore pergunta o nome desta. Soluçando a mulher diz se chamar Telma e que fora indicada a conversar com o poderoso Salvatore Cross por sua patroa, proprietária do hotel Xanadú em Ipanema, Dona Cecília.
   Emanando uma maquiada bondade em seus olhos, Salvatore segura às mãos da triste dançarina e pergunta no que pode ser útil. Esta deveras abalada pela situação em que se encontrava responde: — Estou praticamente desempregada, sou uma inútil, não consegui educar meu filho e por isto ele fora morto na porta de casa. Preciso saber quem fez isto com ele, e depois quero vingança! — Observando a cena com grande indiferença, Salvatore alterna sua postura e com extrema distância pergunta: — Diga-me o nome de seu filho. — Enfurecida com a frieza que o figurão cuidava do caso a pedinte tenta agarrar o pescoço deste em um descuidado ato, entretanto Turi se esquiva agilmente e esbofeteia violentamente o rosto desta ao mesmo tempo em que exige calma.
 Mantendo a postura anterior e com os olhos firmemente lançados a alma de sua convidada, o sábio repete a pergunta com a mesma frieza mortal. Fraca e desacreditada com a hospitalidade cedida por seu possível salvador, a desajeitada fêmea rebate displicentemente cuspindo todo o local: — Talles Mourinho. — Sisudo como de praxe, Salvatore mira pra seu irmão que permanecia inerte e clareia os fatos: — Talles com seus treze anos era um traficante local, fora morto pela gangue rival. Já procurei saber do caso, fui avisado por Cecília. — Então em tom conclusivo afirma certeiramente, igual à bala de misericórdia que tantas vezes fora acionada por seu indicador: — Minha senhora, creio que não possa fazer nada e concordo com você, realmente fora uma péssima mãe. — E bastante discreto persisti: — Na verdade, uma dançarina drogada que nunca ligou a mínima para o púbere e que agora pensando em me extorquir, vem aqui no meu aniversário com uma escuta em seu peito. — Ouvindo todo o falatório, reconhecendo a extensa influência, e a rede de informações do irmão, Gio se desequilibra ao tentar se afastar, assim infelizmente chamando a atenção da possível infiltrada que manifestando todo seu desapontamento aponta para este e alega: — Outro jovem, o que você mais quer? Não está satisfeito com tantos mortos sobre seus ombros? — As palavras o afetaram em seu interior, mas não conseguira efetuar nenhum gesto de arrependimento, e com a mesma expressão de antes, Cross revela impávido: — Eu quero a paz, por isso aceitei seu convite. — Provando sua persuasão comenta delicadamente: — Se eu tivesse os poderes e a maldade que a senhora pensa que tenho, teria a matado, algo que não preocupa as pessoas que a grampearam. — Tensa com a subliminar ameaça que recebera, Telma arrisca qualquer contragolpe, contudo não consegue retrucar. Atento ao fato como fora instruído desde cedo, Salvatore de maneira espetacular serve-se de todos os anos de experiência e finaliza: — Por apreço a Cecília, que ingênua a recomendou, e por tentar compreender a loucura que a senhorita fizera por desejar vingança pela perda do amado filho, venho lhe propor que trabalhe como coreógrafa nos shows de minha empresa em São Paulo, mas para isto vou exigir que a senhora vá para uma clínica de reabilitação e nunca mais pense tais coisas de minha pessoa. — Aturdida, e aproveitando a imensa oportunidade de sair ilesa após seu ato de traição, a viciada põe a mão sobre a despenteada cabeça e estropiada indaga: — Como o senhor pode querer ajudar a quem lhe tentou derrubar? — Conservando a impenetrável seriedade, mas com um olhar mais afetuoso, Sr. Cross responde francamente: — Pois acredito na mudança do homem e sei que à perda precoce de sua criança a fez enlouquecer, porém como percebi que é bela e talentosa nos vários shows que presenciei, presumo que possa reconstruir sua vida, mesmo não podendo substituir o filho perdido. —Pranteando bastante, a antiga dançarina esmaga o grampo fixado no colo de seu seio e confessa: — Agradeço a sua benevolência Sr. Salvatore Crossifixicio. — Ponderado a cena Sr. Cross mira instantaneamente para Gio e inaudível questiona se é uma cena ou ela realmente está desacreditada quanto aos federais. Sereno, assim assemelhando-se ao experiente irmão, e utilizando um sorriso malicioso, o astuto Giovani intui que este seria seu teste, então desdenhosamente faz um gesto com a cabeça, e olha para fora do escritório respondendo entre linhas que deveria mandar essa bosta de atriz embora junto a Van repleta de federais que se encontra estacionada a esquerda sobre a vaga de deficiente a quinhentos metros do escritório.
    Sorridente pela conclusão e atenção de seu querido fraterno, o imponente Salvatore se aproxima novamente da mulher e menciona ironicamente: — Agora a senhora pode se retirar, pegar a Van do meu poderoso amigo Delegado Meirelles e dizer que não conseguiu nada com esse circo todo, pois agora tenho de desfrutar das comemorações de meu aniversário. — Tentando levantar-se para abraçar Cross, Telma é brutalmente interceptada por hábeis seguranças que abrem a porta do escritório e forçosamente a carregam até o veículo infiltrado, que também fora expulso, mas pela patrulha do condomínio, alegando que aquela era uma festa reservada e que até o estacionamento fora alugado pelo proprietário.
  Encerrando seu serviço e fechando seu escritório, Salvatore observava a ida dos irritantes federais, quando é interrompido pelo irmão que bastante curioso pergunta o que este fará com Telma. Sucinto Salvatore elucida que gostou da discrição do irmão e da paciência que este teve para segurar sua curiosidade em saber o que seria feito, e afirma repetidamente que Telma irá para São Paulo, entretanto antes de encerrar sua fala, com a mão direita aponta para uma escuta deixada presa na parte interna de um jarro ao lado de fora do escritório, enquanto com a outra mão reproduz um gesto fúnebre ao passar o dedo na garganta mostrando que a infiel será eliminada como todos os outros pecadores.
     Saindo do local grampeado e dirigindo-se para uma pequena saleta abafada e isolada próxima ao mesmo kit net, Salvatore muda o rumo do assunto e questiona em tom de aprovação para o novo conselheiro: — Em que base deu seu veredicto? — Olhando para o irmão, Giovani entrelaça as pernas, inquieta-se um pouco e profere com dificuldade temendo represarias: — Ela nunca fora uma boa atriz, apenas uma boa meretriz. — Gargalhando Salvatore altera outra vez seu sério semblante, para algo mais informal e confirma elucidando pausadamente, assim compartilhando de sua sabedoria: — Como uma mãe muda tão radicalmente de opinião em tão pouco tempo, ela é só uma lorpa que tirou proveito de Cecília. Até creio que nem mãe daquele pivete essa puta seja. — Aprofunda mais a explicação: — Por este motivo não levo fé na polícia, empregaram uma mulher despreparada e botaram a vida desta em risco. — Em seguida dá um afável tabefe de aprovação no ombro do irmão e assegura que este é ladino, contudo o repreende notificando que devido à inexperiência necessita ser mais prudente, pois aquela minúscula escuta acabaria com os planos de vida de toda a família. Assim sempre devendo ser o mais cauteloso possível e temer sim o erro, pois muitas vidas estão em jogo.
   Adotando a sugestão do irmão mais velho, o belo moço de venta acentuada se retira e alerta que esperará dentro do salão em menos de uma hora. Acenando com a cabeça, o grandioso Salvatore deixa seu fraterno e segue ereto como um militar junto aos seguranças até sua residência, iniciando os preparativos para apresentação na festa de comemoração do seu trigésimo segundo aniversário.
O vento umedecido pela maresia transpassa todos os arredores do condomínio e aos poucos se dissipa pelas inúmeras árvores e jardins estrategicamente distribuídos por todo o local. Contorna inúmeros seguranças, até que sopra no rosto mais protegido de toda a cidade do Rio de Janeiro. Absorvendo o salgado ar, um estranho pressentimento possui o grande corpo do empresário, que andando contra o próprio vento observa seus fartos cabelos escuros se soltarem formando uma pequena franja que produzia um efeito contrastante com seus belos olhos castanho-mel. Contemplando-se em um dos inúmeros pára-brisas, o poderoso homem de respeito mostra seu maior defeito, a vaidade.
  Atrapalhando seu momento narcisista, o mau pressentimento o consome por completo, contanto dispensa a segurança de seus homens e adentra solitariamente sua enorme mansão. Uma bela construção inspirada em traços góticos, ligeiramente similares à metade da residência de Don João VI, na Quinta da Boa Vista.
   Ao adentrar a belíssima arte arquitetônica, Sr. Cross afetuosamente se ajoelha e abre os braços quando seu pequeno filho Lucca segue desesperadamente correndo em sua direção. Era a vida de Salvatore que estava entre seus fortes braços. Um amor incondicional, apenas sentido pelos seus pais e irmãos. A criança em sua mente, fora sua única obra divina e imaculada, onde houvera apenas amor, sem nenhum rastro da violência cotidiana.
  Segurando a criança com todas as suas forças, percebe o cheiro inocente de talco que cobre o pequeno corpo de seu primeiro e único filho. Realmente sentia-se tocado por um pequeno e serelepe anjo. Observando atentamente o pai com seus grandes e abertos olhos esverdeados, o piá tenta pronunciar algo, contudo um pequeno defeito hereditário em suas cordas vocais o prejudicara, e devido a sua idade não fora permitido operar. Tampando a boca da criança com a mão sutilmente, Salvatore faz uma careta engraçada, beija o rosto do filho e evoca a governanta para arrumá-lo.
   Descendo as enormes escadarias uma franzina senhora de seus aparentes setenta anos esbraveja várias vezes o nome de Lucca o chamando atenção de maneira rude por este ter corrido e não a ter esperado. Sempre bem humorado  Cross, beija a governante duas vezes na bochecha , uma na cabeça e clareia amistoso: — É Sra. Dias você não mudou nada mesmo, passa os anos e a mesma cara rabugenta de sempre, tudo isso só para esconder esse coração de ouro. — Com o semblante sólido a governanta esbraveja: — Seu filho é igual a você, totalmente desorganizado, mas fazer o que? Com o pai que tem, só poderia sair assim. — Retrucando Salvatore ironiza: — A mãe é organizada. — Fitando o debochado sorriso de Salvatore a anciã comenta em censura: — Uma pena que você não soube valorizar aquela mulher, Tomasso sempre disse que um homem de respeito tem de ser casado. — Ignorando a governanta o patrão contrapõe: —  Viram quantas foram no enterro dele não é, tinha mais mulheres que jazidos, e  pro diabo ela, só queria saber de trabalhar, não me dava à presença necessária.Pior é que o empresário sou eu! — Após ouvir as reclamações constantes que Salvatore fazia sobre a ex-mulher, Senhora Dias alerta-o: — Tem um senhor elegante e de bastante idade te esperando na sala de estar. — Boquiaberto Salvatore franziu a testa e perguntou com olhar pasmado: — Quem é? — Dando de ombros a governanta diz: — Sei lá. Aquele rapaz feioso Douglas que o trouxe. Parece ser um homem de classe. — Sentindo um enorme calafrio por não imaginar quem seria sua ilustre visita, no entanto mantendo a postura Sr. Cross se dirige para a sala de estar, enquanto relembra o mau pressentimento de outrora, e para seu espanto encontra reclinado sobre sua cara poltrona de couro, um senhor que atraia uma densa presença Aparentava cinqüenta anos, vestido com um belíssimo terno Armani, possuidor de penetrantes e inflexíveis olhos azuis cintilante.  Tenso, o líder da família Crossifixicio mira atentamente seu visitante. Percebia com atenção o enorme coro cabeludo coberto por fios prateados, que assim revelavam sua alta idade. Este se tratava de Sr. Fiori, o maior empresário do sexo na América Latina, e um antigo inimigo da Família Treviso.
    Franzindo as sobrancelhas de maneira excepcional Sr. Cross estende o braço, porém não consegue disfarçar o incomodo com a presença deste e esbanjando cinismo pergunta estampando um belo sorriso: — Ao que devo a honra da visita depois de tantos anos? Veio certificar o acordo de paz que lhe enviei meses atrás? — Segurando rigidamente a mão de Sr. Cross como os antigos desafetos faziam na Era de Ouro, Fiori sarcasticamente o cumprimenta ao perceber o espanto de sua presença, e emanando seu forçoso sotaque estrangeiro diz: — Primeiramente, feliz aniversário garoto Vicente. — Ainda apertando a mão de Salvatore, ao mesmo tempo em que emanava o frio mortal de suas veias, o intrigante senhor completa as congratulações de forma petulante: — Lhe desejo felicidades, muita saúde, inteligência e prudência. — Essa última palavra fora proferida com um tom intimidador, e arrebatadora acertou o ego de Salvatore, quando para seu ânimo avista o fiel gatilho nervoso Douglas, a Boca Sangrenta, que se aproxima e senta-se ao lado do super confiante Sr. Fiori.
    Prosseguindo com a tensa conversa, mais encorajado pela vantagem numérica Salvatore agradece as felicitações e pergunta se este gostaria de se juntar à festa. Balançando a cabeça em um gesto classudo, Sr. Fiori dá uma singela negativa e revela: — Muito obrigado, contudo me dirigi a um local tão longínquo para falar de negócios referentes ao acordo de paz. — Revidando a negativa anterior, o aniversariante também contrapõe o tom insolente e ilustra: — Hoje é meu dia, e o tempo de negócios se esgotou faz dez minutos. — Em seguida usando de cordialidade se desculpa e oferece uma suíte de luxo em seu Hotel Xanadú, para que este possa esperar até o dia seguinte, quando realmente poderia negociar.
    Um pouco contrariado Sr. Fiori se levanta, estica o braço e irradia poder mencionando sua avaliação da situação: — Interessante o tratamento desrespeitoso que você direciona a mim, mas entendo que é a sua pouca idade, eu era como você, contudo devo lhe noticiar que estou de partida hoje mesmo, no entanto deixarei um de meus negociadores para amanhã. Esta será sua última chance de negociar pessoalmente. — Sentindo o pronome de tratamento você soar como uma enorme ofensa e mudando seu temperamento afável por um mais agressivo Sr. Cross aperta a mão do poderoso cafetão com demasiada violência e revela hipocritamente: — Creio que o senhor tenha muito em experiência a me oferecer e sinto muito não poder atendê-lo, mas antes dos negócios nesta data tão importante, vem a minha obrigação como homem e amigo, porém podemos marcar outro dia em território neutro, pois com seus subordinados não irei argumentar. — Percebendo a falha de sua estratégia e a perspicácia de seu opositor, que descobrira que este objetivara marcar a reunião em um momento inviável, para assim poder levá-lo a seu território por meras considerações morais, orgulhoso, apesar de contrariado o grisalho declara: — Ao passar do tempo me admiro mais com você meu jovem, agora realmente entendo a gana que o idoso Don Treviso teve para tornar-se seu tutor naquele funeral, e por isso aceitarei seu convite. — Demonstrando mais respeito por Salvatore, Sr. Fiori conclui: — Em uma semana enviarei um mensageiro até seu Sentito. — Em seguida abraça o tenso anfitrião e lhe beija na face. Retribuindo o respeitoso gesto, Sr. Cross também toca seus lábios sobre a envelhecida face de Fiori, se despede e ordena que Douglas acompanhe o ilustre visitante até a saída.
    Embaraçado pelo acontecimento, o aniversariante aguarda a silhueta de Fiori se desfazer dentre as sombras da noite que arrebatadora surgira, e em seguida despeja seu pesado corpo sobre o enorme divã avermelhado que se encontrava encostado próximo a um enorme piano de cauda no plano interior da sala.
    Desfrutando do fúnebre silêncio, vagarosamente imagina como sua vida tem sido agitada nas últimas semanas, e com afinco agarra seu telefone celular contra o peito, enquanto em seu subconsciente esbravejava inúmeras dúvidas sobre o que deveria ser feito.
Turi Scaramella
Publicado no Recanto das Letras em 18/10/2009
Código do texto: T1873502

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Comentários
27/10/2009 14h43 - edson gonçalves ferreira
Muito envolvente. Você faz um trama muito bem articulada. Continue. Convido você para ler Tempo de Mudança e deixar seu comentário. Um abraço, Edson

Sobre o autor
Turi Scaramella
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 23 anos
3 textos (153 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 13:46)

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