Texto

O Ceifador

Aquele dia ia ser o mais feliz de toda minha vida. Estava tudo pronto e arrumado. O quarto dele já estava pintado de branco e azul. Todo decorado. Eu tinha certeza de que seria um menino! Já podia me imaginar jogando futebol e empinando pipas por aí com o moleque... Minha mulher acordou sentindo dores. Estava com oito meses e pouco de ges-tação e, tecnicamente, ainda não estava na hora. Mas e eu me lembrava disso? Levantei da cama num salto e em questão de minutos estava vestido, ao contrário de Fernanda, que ainda lavava o rosto.
– Ande mulher! Por que essa demora? – disse à porta do banheiro.
– Quem está parindo não sou eu? Por que essa pressa toda? Fique calmo, ouviu? – disse ela ao me encarar com o rosto pálido.
– Desculpe, só estou empolgado... – disse um pouco envergonhado. Ela tinha esse poder. Com apenas um olhar ela me desconcertava por completo.
Evitei apressá-la e ela ficou um pouco mais natural. As contrações vinham de tem-pos em tempos e nos intervalos podíamos conversar melhor. Enquanto eu a ajudava a tro-car de roupa, ela me dava recomendações sobre o caso dela ter de ficar internada na maternidade, que era pública. Eu estava desempregado e justo agora a situação não era boa.
Entramos com calma em meu pangaré, um Corcel setenta e seis, que infelizmente estava à venda, por causa das dificuldades de que já falei. Fui devagar para não deixar Fernanda nervosa. As contrações foram ficando cada vez mais fortes e em dado momento ela gritava de dor.
Finalmente chegamos à maternidade, o que para mim, foi um alívio. Eu já estava suando frio. As enfermeiras atenderam minha esposa e fiquei aguardando notícias.
– Eu sou marido de Fernanda Alencar, o meu filho já nasceu? – perguntei à aten-dente.
– Não senhor, ela ainda está no pré-parto...
– Mas isso não é possível! Chegamos pela manhã aqui! Onde está o médico? Preciso falar com ele... – disse furioso, procurando a porta pela qual teria contato com o ho-mem.
– Acalme-se senhor! – disse ela saindo de trás do balcão. – O fato é que ela ainda não tem passagem para o bebê...
– Então por que não a operam? – disse. Ela estava com os olhos arregalados. Tal-vez se eu passasse por aquela porta ela pudesse perder o emprego. Foi o que deduzi.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou um homem de branco que se aproxi-mara com cara de poucos amigos.
– Ele é o marido da moça que entrou pela manhã, a senhora... Fernanda Alencar... – disse ela puxando o nome de minha mulher pela memória.
– Como ela está doutor? Estou preocupado e...
– É seu primeiro filho, não é? – disse o médico seriamente. Devia ter uns trinta anos, como eu. Tinha um ar autoritário na voz. – Fique tranqüilo, está tudo sob controle. Estou aguardando para que ela tenha passagem para o bebê e então farei o parto.
– Mas ela já está tendo contrações há horas! – disse desesperado.
– Não se preocupe, é assim mesmo. Agora, tente se controlar, isso aqui é um hospital. – disse ele saindo da mesma forma como chegou.
Sentei no banco novamente. Eu estava mais aflito do que nunca. Havia alguns pais que aguardavam para visitar suas esposas e filhos. Não conversei com nenhum deles. Coçava meus cabelos, com a cabeça baixa. De onde eu estava era possível ouvir os gritos de Fernanda. Não, havia algo errado...
– Tem certeza que está tudo bem moça?
– Esta tudo bem senhor. Por que não vai para casa? Se quiser notícias é só telefo-nar...
– E deixar minha esposa aqui? De forma alguma! Vou ficar. Quero ser um dos primeiros a ver meu filho...
A porta que dava para a área restrita estava entreaberta e pude ver levarem minha mulher em uma maca. Não sei se ela me viu, mas levantou a mão como se acenasse para mim e eu respondi. Dei um sorriso misto de alegria e preocupação. Finalmente ia ver meu filho!
Já passava das quatro da tarde e nenhuma notícia. Eu não tinha comido nada e estava morto de fome. Mas não ia arredar o pé dali nem que chovesse canivetes. Uma enfermeira se aproximou da porta e chamou pelo meu nome.
– Sr. Osvaldo Alencar?
– Sou eu... – respondi rapidamente.
– Queira se aproximar, por favor... – disse ela me dando as costas. Sua cara não es-tava boa.
– Meu filho nasceu moça? – perguntei.
– Nasceu sim senhor...
– Graças a Deus! É um menino, não é?
– Sim, um menino...
– Eu sabia! Um garotão! – disse levantando os braços. A mulher não esboçou ne-nhuma manifestação. Tentava me dizer algo, mas eu mal lhe dava ouvidos. Fui até a sala de espera que era do lado e publiquei o nascimento do Osvaldinho para todos, que me re-tribuíram o sorriso. Meus olhos brilhavam.
– Escute senhor! Por favor! – disse ela me puxando pelo braço. Percebi que o que ela tentava me dizer era sério. – Seu filho demorou demais para nascer, e bebeu água...
– Ora, mas isso não tem importância! O garoto está bem... – disse tentando voltar para a recepção. Que mal faria uma criança beber um pouco de água?
– Escute senhor! – disse ela me puxando pelo braço novamente. – Ele não está bem. Bebeu água do parto e... morreu minutos depois. Sinto muito... – disse ela com lágrimas nos olhos.
Meu mundo desabou! Meu filho, que eu tanto amava, não viveu minutos... Ele também me amava, eu sabia disso. Parecia um pesadelo sem fim. O silêncio que antecedeu o que a enfermeira me disse jamais poderia ter sido quebrado. Isso não podia ser verdade! Verti em lágrimas silenciosas, com as mãos no rosto e nada no mundo podia acalmar mi-nha dor.
– E minha esposa? Como ela está? – perguntei, quase sussurrando.
– Ela está bem... – disse a mulher. – Agora, se quiser ir... Ou então aguarde, na recepção...
– Perfeitamente... – respondi, e fui para a sala, com a cabeça baixa. Nenhuma das pessoas ousou me dizer uma só palavra. Não havia o que dizer. Tive inveja daqueles ho-mens que ergueriam seus filhos nos braços em pouco tempo. Como eu queria estar em seus lugares!
Percebi um movimento na tal área restrita. As pessoas estavam nervosas e pareciam rifar algo que ninguém queria. Uma notícia precisava ser dada e ninguém queria ser portador. Levantei-me e fui até eles, mesmo sem ter sido chamado.
– O que aconteceu à minha mulher? – perguntei, ainda com o rosto molhado. Eles entreolharam-se, sérios, até que um enfermeiro tomou a iniciativa.
– Desculpe senhor, sua esposa teve uma séria hemorragia depois do parto e não... resistiu... – disse ele cabisbaixo.
– Não, isso não! – disse caindo de joelhos ao chão. – A Fernanda não! O que eu fiz para merecer isso? – gritei desesperado. Quando olhei para cima todos choravam.
Alguns vieram me dar alento, mas nada podia me confortar. O que seria de mim agora? No final do corredor avistei o médico caminhando tranquilamente. Não perdi tempo. Meu sangue fervia de ódio. Ninguém esperava a minha reação e não puderam me impedir. Corri em sua direção e dei-lhe um belo soco nas ventas.
– Desgraçado! O que fez com a minha família? – esbravejei enquanto os guardas e enfermeiros me seguravam.
– Tirem esse maluco daqui! – disse ele com a voz nasalada, caído ao chão.
– Por que fez isso? – perguntei chorando. As pessoas me arrastavam para fora, as-sustadas.
– Sua esposa não tinha passagem para o bebê e fizemos uma operação, mas a cri-ança nasceu morta. Sua esposa teve uma hemorragia. Não pude fazer nada... Tente entender, a vida é assim mesmo... – disse ele ainda furioso com o murro que tinha levado, ten-tando levantar.
A vida é assim mesmo... Ele já sabia que minha esposa não ia ter meu filho de parto normal, por que não tomou nenhuma atitude enquanto era tempo? Desgraçado! Fiquei pensando em minha mulher. Não pude ao menos dizer adeus, ou confortá-la pela tragédia. E eu também queria seu conforto...
Os dias que se seguiram foram os piores possíveis. Tudo na casa lembrava eles. O cheiro das roupinhas lavadas, minha cama, as nossas fotos... Aquela cena ficou gravada em minha mente para sempre. Os dois, um ao lado do outro, cada qual em seus respectivos caixões... Todos me olhavam com pena. Se tivesse sido diferente, estariam me felicitando.
O pangaré foi vendido rapidamente. Com o dinheiro eu sobreviveria por um bom tempo, sem emprego, mas eu teria que procurar um rápido. Decidi então ficar o dia inteiro na rua. Isso me ajudaria inclusive a esquecer de tudo isso. Com parte do que eu recebi pelo carro comprei uma moto. Fernanda nunca gostou delas, mas agora ela me seria bem útil. Saía de casa pela manhã e retornava quase à meia noite. Eu pouco dormia, mas nem me importava. Nada mais me importava...
Consegui um emprego de entregador de pizza, à noite. Agora a moto se tornou es-sencial. As coisas estavam melhorando, e hoje minha vida mudaria completamente, talvez mais até do que quando perdi minha família.
Estava no caminho do trabalho, para o meu primeiro dia. Vejam que coincidência! O carro à minha frente é do médico que fez o parto de minha esposa... Enquanto procurava emprego, aproveitei e segui todos os seus passos. Descobri sua rotina, a que horas ia para o trabalho, a que horas voltava... Soube inclusive que tinha mulher e filhos.
Em um semáforo fechei o carro dele. Foi interessante ver o medo estampado em seu rosto. O soco que eu lhe dei deixou uma cicatriz incômoda no nariz. Eu usava uma touca negra e pensei em anunciar um assalto só para disfarçar, mas desisti. Puxei um re-vólver que estava na minha cintura e dei três tiros, mas nenhum o atingiu. Acertei a esposa e o garotinho que estava no banco de trás. Senti um frio na barriga e um pouco de remor-so, mas isso passou muito rápido. A satisfação em vê-lo desesperado, tentando acudir os seus foi única. Podia ter sido diferente se tivesse sido menos orgulhoso e feito o que deve-ria fazer, na hora certa. Ele não fez...
Chorava feito uma criança, e isso foi divertido. Por um momento tive vontade de matá-lo também, mas ele não merecia morrer. Precisava sentir o que eu senti. Só quem perdeu alguém querido é que sabe como é essa dor.
– Tente entender doutor, a vida é assim mesmo... – disse ao arrancar com a moto.
O estopim foi a vingança, mas depois, matar tornou-se um hábito. Ninguém mais me chama pelo meu nome. Agora me chamam de... Ceifador...
George dos Santos Pacheco
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1889450

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Comentários
13/11/2009 14h58 - Tânia Souza
Cruel, deveras cruel, e ao mesmo tempo, melancólico, gostei!!!
11/11/2009 22h18 - Tristão de Alegrette
Poxa, amigo, esse foi porreta. Bem que dizem que bala trocada não dói, que a vingança é doce. Um abraço, George.

Sobre o autor
George dos Santos Pacheco
Nova Friburgo/RJ - Brasil, 28 anos
11 textos (704 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 12:53)

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