Capítulo I: A morte está escondida no relógio
Segunda-feira 08 de junho – cinco horas da tarde. Um belo começo de semana.
A ambulância chegou com rapidez. A policia já tinha isolado o lugar e afastado os curiosos que passavam no cruzamento entre a Rua Iguaçu com a Avenida Bandeirantes. Pedestres, barulho e confusão tomaram conta deste pedaço da cidade.
A cidade se fervia em movimentos, pessoas se entreolhavam, apontavam para o chão, se entreolhavam novamente como se perguntando umas as outras. Mas o que será isso? Mas como isso foi acontecer? No asfalto quente o sangue de um homem fervia.
No meio deste alvoroço de pessoas surge alguém gritando e abrindo espaço se espremendo diante da multidão tentando chegar ao local. Parecia saber de alguma coisa. Ouviam-se todos os tipos de opiniões, mas nada de muita relevância. Chega o homem a solavancos perto da vitima.
O acidentado ou suicida não se sabe bem ao certo, era um homem de meia idade, pele quase que sem nenhuma ruga, sobrancelhas grossas, traços fortes e gastos pela vida. Certamente um ser humano deplorável, reduzido à pó, apesar de visivelmente bem instruído, por anos de experiência parecia que a vida tinha lhe dado um chute, uma decepção, ou quem sabe até solidão demais daquelas que juramos por Deus que não vamos aguentar.
Este senhor se encontrava com os braços cobertos pelo próprio sangue. Ameaçava se cortar caso algum policial se aproximasse para ajudá-lo ou qualquer outra coisa. A cena era te aterrorizar a qualquer um que passasse por ali. Neste tempo percorrido havia chegado já à imprensa e colocado as dores de um humano como audiência e pano de fundo no jornal das seis horas – ao vivo.
Enquanto uns roíam as unhas, os dedos e não tiravam os olhos de cima do velho, nesse momento sendo chamado de louco, outros buzinavam, pediam licença e elogiavam a mãe daquele senhor de todas as formas deploráveis. O velho por outro lado vociferava contra a platéia em todas as línguas que conhecia.
— Vocês não entendem nada do que está acontecendo. – dizia apontando a lamina ensanguentada para o publico e as câmeras.
— Estamos sendo engolidos pelo sistema – gritava a todo pulmão. — Estamos vazios, vivendo em um mundo que está ilhado em tédio e desprezo.
Calou-se por alguns instantes. O homem não aguentava mais o peso da verdade sobre seu ombro iria derrubar o mundo se fosse preciso para que a sociedade lhe desse atenção mas ele queria vida e esta vida o mundo moderno não podia lhe dar.
Voltou a praguejar.
— Em quantas pessoas vocês esbarraram hoje? Para quantas pediram desculpas? Nenhuma – respondeu rápido quase se engasgando com sua saliva.
Parou olhou em volta todas aquelas pessoas que nunca tinha visto antes, podia ver em seus olhos seu pensamento “olha a que ponto cheguei”. Balançou a cabeça com uma velocidade espantosa respondendo a si mesmo “a que ponto chegou o mundo, me transformei neste poço de desilusão pela fragilidade que a vida se encontra”.
Abriu a boca e tornou-se a gritar.
— Será que não percebem que estão andando no piloto automático? Estão sendo solicitados a fazer coisas nada humanas. Mandar e-mails. Siga. Pare. Atravesse somente na faixa de pedestre. – ajoelhou levou as mãos ao céu e disse em alto e bom som.
— Os seres humanos foram restringidos pelos limites que criaram.
Naquele momento, a morte parecia à única saída para amenizar a alma daquele sujeito. O clima ficou pesado todos podiam sentir a atração hipnótica que o velho sentia pela lamina. Olhava e reolhava ambos os lados do gume em movimentos vagarosos, uma vez ou outra passava o dedo indicador sob o fio da faca. Encontrava-se totalmente perturbado.
— Estamos esperando Deus e batendo palmas para o Diab...
Nem terminou de completar a frase foi surpreendido por um rapaz da platéia que ousou se aproximar do velho. Os dois ficaram estáticos por um tempo – olho no olho, alguns segundos que para a multidão parecia horas, esperavam todos algo que estamparia a primeira página dos jornais amanhã.
O rapaz que se aproximou, um jovem, 20 e poucos anos muito bem vestido, paletó, gravata tudo muito bem engomado. Sentou-se na frente do velho, curvou a cabeça levou a mão até a testa ficou assim por alguns minutos em silêncio total.
— Saia daqui – disse o velho em tom hostil.
O silêncio do jovem falava muito alto em seu coração.
— Vá embora! – insistiu o velho, dessa vez ameaçando a vida do jovem.
Mesmo assim continuava imóvel.
— Eu disse para sair da minha frente – disse irritado o velho.
Então o homem enfiou a mão no bolso do paletó. A platéia ameaçou a dar um passo para trás pensando que poderia ser uma arma ou algo parecido. Não era nada disso. O jovem tirou um pedaço de papel e se pôs a le-lo em silêncio ainda sentado na mesma posição do inicio.
— Sai fora. Dessa vez parecia estar determinado a acabar com tudo isso. Alguns da platéia fecharam os olhos outros arregalaram ainda mais para não perder nenhum segundo.
— O senhor pode fazer silêncio? Está atrapalhando minha leitura – disse o jovem com uma calma divina, abrindo um sorriso para o velho.
Nem bem se afastou e um tremor saiu dele. Chamara no velho algum sentimento. Pensando em desistir. Impossível escapar agora. Este jovem não passava de um escravo dos acontecimentos – concluiu o senhor.
— O que é isto que está lendo? – indagou o velho.
Não houve uma resposta apenas um olhar de advertência que dizia o seguinte “está me incomodando novamente”. Pela segunda vez o velho fica sem reação. Pensou consigo: “Já não sou o único maluco deste cruzamento”.
A cena que as pessoas presenciavam era no mínimo surreal – um velho tentando se matar e um jovem lendo uma carta; momento digno dos piores sucessos de bilheteria.
Surpreendentemente, porém, o cruzamento tinha certa alegria – percebeu o velho. Enfeites atrasados, não recolhidos de comemorações passadas, davam-lhe uma atmosfera festiva. A própria casa do doutor Carmo, seu médico particular, era colorida, o jardim vibrante de luz. Era, enfim, cheia daqueles elementos supérfluos que dão mais sentido à vida. Foi nesta hora que o jovem foi recebido com dignidade.
Sem dúvida, este seria um motivo inquestionável para que fosse tratado como foi. Mas não é o caso. Aquele homem é o que eu serei. É o que um dia eu já fui – pensou o velho.
De repente, agiu para se fazer andar. Por mais que sejam refletidas, certas decisões parecem precipitar-se. Tudo fazemos para organizar meditações apoiados exclusivamente pelo pensamento racional. Afinal, somos levados a acreditar que a razão é algo externo a nós. Uma espécie de lousa imaginária em que nossa confusão interior repentinamente ganha traços geométricos. Toda uma clareza inesperada se reflete materialmente, num espaço que já não é mais subjetivo. Porém um impulso menos matemático pode derrubar lousas e clarezas, atropelar geometrias, e logo uma ação de menor fundamento filosófico toma existência.
Pedestres sorumbáticos produzem emoções inesperadas. Novas reflexões se fazem necessárias para um homem calado e só, independentemente de suas prováveis urgências. A sede e a dúvida renascida.
O velho parou, respirou fundo. Não era um indivíduo dado a enxergar fantasmas e então persegui-los como um louco. Era, antes de tudo, um descrente. Um homem a quem as ilusões já não enganavam. Na verdade, nunca é simples ser um descrente. A vida corriqueira - essa dos suores, dos ciscos, das entregas sexuais e das bolas na trave – exige sempre uma boa dose de crédito nas relações entre as pessoas. Ainda que a juros baixos. Atordoado com a própria loucura, entregou-se ao jovem.
Sentindo que o velho já fora fisgado o jovem se levantou vagarosamente estendeu a mão para o velho.
*****
O velho que agora era conhecido como Investigador Itamar por todo departamento de policia agradece todos os dias a vinda daquele jovem anonimo naquela fatidica tarde de segunda-feira, mas o que mudará sua vida realmente seria um acontecimento que posteriormente se tornaria um caso que lhe traria revelaçôes surpreendentes.
CONTINUA....
William da Cruz
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1890485
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