A Galera da Noite Preta
Dois dias antes da morte de dona Luzia Lisboa. A galera da Noite Preta já domina completamente o bairro da União, uma invasão repleta de casas precárias e minúsculas, habitadas por famílias de cinco pessoas, no mínimo, sobrevivendo precariamente, sem emprego, sem escola, sem opção e sem condições. Essa é a situação da maioria dos que ali vivem, quem vive diferente faz parte de uma pequena exceção.
As pequenas galeras do bairro brigavam entre si, lutando para manter suas bocas de fumo com facas e terçados. Boi da Estrela, um sujeito afrodescendente, alto, de ombros largos e uma corcunda, e a pele escura que lembravam a cor do seu boi bumbá preferido – por isso o apelido – não se metia na guerra de gangues local, embora tivesse algum interesse, tinha uma boca de fumo sua no bairro, próximo da Perimetral. Ele apenas esperava o momento propício. Arregimentava ladrõezinhos, na maioria adolescentes, moradores da comunidade, que freqüentavam seu ponto no bairro, para serem seus olhos e ouvidos, mantê-lo informado da movimentação das galeras no bairro, se traficantes de outros bairros também estariam interessados no movimento. Quando chegou o tal dia, um mês antes, a sua galera entrou com tudo, pistolas 9mm, revólveres calibre 38'', .50, rifles calibre 12”. As ganguesinhas obviamente foram exterminadas em apenas uma tarde, e já à noite Ticado, Braddock e Selminho – um rapaz com feições marcadamente indígenas, com mais de 1,90m e mais de 120 quilos – os parceiros do Boi já eram donos do bairro.
Um mês depois, nem polícia, nem outras galeras entravam no bairro da União, ninguém entrava ou saía da região, nem cometia delitos sem a autorização expressa por algum dos membros do quarteto. Foi assim que Juninho chegou até o Boi, pedindo ácido para si e para os amigos. E foi assim que começou a cometer pequenos delitos, fora do bairro, sob autorização de seu fornecedor, cometia pequenos roubos para pagar pela droga que consumia, muitas das vezes sob o teto dos líderes da galera, sem sequer desconfiar que era parasitado pelos quatro. Num dia manifestou a vontade de participar da galera, entrar no esquema deles, quem sabe administrar uma nova boca de fumo. Boi da Estrela fungou tal e qual um boi verdadeiro e balançou a cabeça lentamente em negativa, os olhos muito negros refletindo a fumaça onipresente no ambiente pouco arejado.
“Tu é muito novo, Juninho. Bora esperar mais uns três anos...”
“..., Boi! Eu sou muito novo não! Deixa eu entrar na tua galera, man! Eu dou conta do recado!”
Boi da Estrela sorriu sarcasticamente, os olhos negros tornaram-se mais penetrantes, examinou o menino de cima a baixo. Suspirou profundamente, então respondeu:
“Tá certo... então me prova! Tu vai ter que matar alguém! Não me importa quem!”
O garoto titubeou por uns instantes, mas fechou o punho e olhou firmemente nos olhos do galeroso, com um brilho alucinado, em parte por conta da pasta base que consumiu.
“Vou mostrar que consigo!”
Dez dias depois do assassinato, encontrava-se numa maca, no hospital de pronto-socorro 28 de Agosto, com olheiras profundas, um curativo no nariz, sendo tratado com soro. Seus olhos fitavam as paredes, mirando além delas, desde que chegara ali, não dizia uma palavra, mesmo sem nenhum problema para falar. Não respondia quando perguntavam-lhe seu nome, e quando pediam para dizer quem eram seus pais, era o único momento em que falava: “Não quero minha mãe aqui!” dizia, com a voz embargada e sacudindo violentamente a cabeça em negativa. “Ela não merece mais incomodação não doutor!”
Mesmo assim, de qualquer forma, sua mãe apareceu no hospital, e postou-se a seu lado na maca, enquanto dormia, exausto. Pela manhã, ele a viu a seu lado, e as lágrimas encharcaram seus olhos. Com a voz rouca, ele disse: “Eu fiz muita coisa ruim, mãe... muita coisa ruim... não mereço que você se preocupe comigo não...” a jovem senhora também estava chorando, abraçou o menino e pediu-lhe apenas: “Meu filho, só tenta melhorar... só isso que sua mãe tá lhe pedindo! Depois a gente vê...”
Uma amistosa partida de futebol era jogada no areião, na entrada da União, Boi da Estrela e Ticado estavam no time dos com camisa, Braddock e Selminho no dos sem. Começava a anoitecer, após uma tarde muito quente e muito ensolarada, típica do verão manauara. Garotos e garotas assistiam à partida, alguns escolhendo seu time preferido e torcendo, como se estivessem no Vivaldão em noite de clássico. Um pouco mais ao longe, uma jovem de pele morena, cabelos negros bem lisos, uma franjinha caindo por sobre os olhos verdes-água, camiseta “baby-look” branca lisa e calça jeans de cintura baixa. Após o jogo, algumas garotas começaram a se jogar nos braços dos quatro bandidos. A menina de baby-look ainda assistia de longe, pensando consigo mesma que ainda haviam mulheres seduzidas pelo poder, fosse ele legal, ou paralelo. Respirou fundo e, com um sorriso sedutor e confiante, se dirigiu até o grupo. Não foi difícil ganhar a confiança deles, logo estavam no meio da invasão, ela, cinco ou seis outras garotas, Boi da Estrela, Ticado, Braddock, Selminho, e muita droga e cerveja.
Passaram-se horas, antes que Boi notasse que não eram só eles quatro que não bebiam, nem fumavam nada, naquela festinha. A jovem de olhos verdes-água estava desde o início da noite com a mesma latinha de cerveja venezuelana barata na mão, e não parecia mais animada, como as outras. Foi chamá-la de canto, e levou-a para o barraco que ocupava e fazia de residência. Assim que fechou a porta do casebre, mal teve tempo para desviar de um golpe mortal de adaga, que passou bem próxima de seu ombro esquerdo. Com a força de um touro, Boi agarrou a garota pelo pescoço, levantando-a e apertando-lhe a garganta.
“Qual é a tua, magrinha, achou que eu não ia me espertar contigo, foi?” Como resposta, ele viu apenas um sorriso sarcástico no rosto de Evangelina.
“Na verdade, eu achei que você ia se espertar antes... mas é melhor termos alguma privacidade, 'mermo'”!
Deu-lhe um chute, soltando-se de sua mão e girando no ar, acertando com a canela o rosto do Boi, que foi jogado para fora, atravessando a parede de madeira do barraco. Só parou em cima de Selminho, ambos caíram dentro da água suja do arroio. Ticado veio para cima de Evangelina, em grande velocidade, ela saltou sobre ele, pisando sobre sua cabeça e derrubando-o no chão empoeirado da ruela onde ficava o esconderijo deles. Braddock foi levantado com um chute de calcanhar, recebendo em seguida dois socos no peito, e sendo jogado longe, derrubando a cobertura de um quintal vizinho, improvisado. Saindo da água, Boi da Estrela bufava como um touro bravo, os olhos negros refletiam a luz do poste, transparecendo uma raiva bastante intensa. Correu para cima de Evangelina, que por sua vez correu também em sua direção. Sendo um pouco mais baixa, colocou-se por baixo dele, agachada, levantando-se em seguida. A pirueta que ele deu, antes de cair pesadamente de costas ao chão era digna de um filme chinês, de Jack Chan ou Jet Li. Braddock agarrou-a pela cintura, e teve de soltá-la para tirar a adaga de prata enfiada em suas costas, que quase acertou-lhe o coração. Ticado girava um terçado, desferindo golpes que, por muito pouco, só cortavam o ar. Selminho também veio com um. Evangelina não esperava tamanha força e velocidade daquela gangue, esperava que fosse uma luta mais fácil. Mas eles também esperavam terminar a luta o mais rápido possível, também estavam surpresos. Braddock voltou a carga, desferindo golpes com a própria adaga de Evangelina. Acertou um golpe nela, cortando-lhe superficialmente, por bem pouco, mas ainda assim deixando-a momentaneamente desnorteada. Sem perceber de onde viera, foi acertada por um cruzado de Boi, que a fez voar alguns metros, caindo pesadamente sobre um piso de lage, que sentiu quebrar-se sob seu corpo. O bandido já estava em cima dela, pisando-lhe o abdome. Evangelina curvou-se com a dor, sentiu como seu duas costelas tivessem se quebrado. Ele levantou-a pelos cabelos e estava prestes a, com a outra mão, agarrá-la pela garganta, para estrangulá-la. Num momento de desespero, sem pensar muito, Evangelina agarrou-lhe o braço, puxou seu pulso até seus lábios e o mordeu, enfiando os caninos fortemente na sua carne, perfurando-lhe uma veia. Começou a sugar, a procura de sangue. Sentiu a cabeça girar, os olhos ficaram aparentemente enevoados, o gosto que sentia não era o levemente salgado e quente do sangue, e sim uma substância fria, oleosa e ácida. Largou o pulso dele ao mesmo tempo que ele largava seus cabelos. Tombou no chão, com a cabeça girando como num carrossel enlouquecido, vomitou, o que quer que fosse que ele tivesse nas veias, não era sangue, e lhe fazia muito mal. O estômago doía, a cabeça parecia ser pressionada por mil toneladas. Tentava levantar-se, por-se de pé... ouviu, como se fosse num pesadelo muito vívido a voz do Boi a berrar:
“Vadiazinha lesa!! Vampirinha de romancezinho adolescente, achou de morder o cara errado!!”
Não foi ele quem se aproximou dela. Talvez o tivesse enfraquecido, ao sugar um pouco do líquido viscoso que corria pelas veias e agora estava queimando-lhe as entranhas. Foi Selminho quem veio até ela, o terçado meio enferrujado na mão, pronto para arrancar-lhe a cabeça, que pesava enormemente. Soaram tiros por todos os lados, as balas rasgavam o ar, zunindo como vespas zangadas. Sua visão ficara um pouco mais clara, e viu Selminho ser atingido, na mão, deixando o facão cair, e na cabeça. Era uma galera rival, aproveitando a situação para tentar retomar o velho território. Nisso apareceu também uma viatura da PM, também estavam aproveitando para tentar impor um pouco de ordem no bairro. Ainda fraca demais para tentar sair dali sozinha, deixou-se ser levada para dentro da viatura por um policial jovem, baixo e de ombros largos, que atirava com um revólver calibre 32” e mandava o colega tirar eles dali.
Já na Perimetral, Evangelina já se sentia mais forte, sentou-se no banco de trás da viatura, lentamente abriu a porta que não estava trancada, pelo reflexo no retrovisor sorriu para os dois policiais e agradeceu, em seguida saltando do carro em movimento. Sumiu no meio da noite, antes mesmo que eles pensassem em parar a viatura para procurar por ela.
Evangelina levou uma semana para recuperar-se totalmente, aí então pensou em voltar a procurar pela galera da Noite Preta. Na noite de quinta, quando estava aprontando-se para ir em busca deles, pegando sua pistola 9mm e o sabre de prata, que não levara na outra noite, foi surpreendida pela presença do menino que mandara para o hospital não fazia muito tempo. Ele sorriu-lhe com tristeza, os olhos implorantes. No entanto, não pediu desculpas, ou perdão. Agradeceu-a, um tanto compungido.
“Mas, obrigado por quê?” perguntou ela, sem compreender.
“Por ter livrado a gente da galera da Noite Preta... eles sumiram...”
“Sumiram, sumiram como?” indagou ela, nervosa. Tocando o ombro de Juninho, que agora fitava-a com sentimento de culpa, insistiu: “Eles fugiram? Pra onde eles foram?”
Ele balançou negativamente a cabeça. “Sei não... só sei que a polícia tá mais presente por lá no bairro, que a galera do Boi saiu de lá escorraçada, parece até que ele perdeu uma mão...”
“Mas não sabe mesmo pra onde podem ter ido?”, tentou ela mais uma vez. O menino coçou a cabeça, o olhar mostrava que queria ajudar de alguma forma. “Bom...” começou ele. “Meus amigos, aqueles com quem eu andava... disseram que tavam falando em mudar de ares... ir pro sul... parece que aquele de cabelo vermelho, o Braddock, tem uns parentes em Santa Catarina!”
Os olhos de Evangelina se iluminaram com alguma esperança. Sorriu e passou carinhosamente a mão pela cabeça do garoto, que se mostrou um pouco contrafeito. “Eu que te agradeço”, disse, “você ajudou muito...”
Santa Catarina... eles sabiam que ela era uma inimiga mais perigosa que as outras galeras, era vampira também, embora não como eles. Ainda ia vingar a morte de dona Luzia.
Ayrton Mortimer
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1890564
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