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A TRAIÇÃO FATAL

        Os costumes de uma cidade pequena do sudeste brasileiro, não são iguais aos costumes das grandes cidades, por isso talvez a pequena população local reparasse tanto em Bianca. Uma moça simpática expansiva de conversa e sorriso fácil, ela teve vários namorados. Na pequena cidade até se comentava que Bianca não era exatamente a mulher ideal para se casar, mas se casou com o melhor partido da cidade, Denis um jovem recatado, fino, estudioso das ciências jurídicas era um promissor advogado.
        Eles formavam um casal no mínimo interessante, ele muito discreto e tímido, ela muito extrovertida e espalhafatosa. Nem sempre estavam juntos, pois Bianca tinha a sua loja de moda feminina e Denis o escritório sempre lotado de novos clientes.
        Naquela tarde ensolarada de quarta-feira, Juarez rapaz forte e bonito, segundo as meninas da cidade, foi até a loja de Bianca pedir um emprego de auxiliar de contabilidade. Conversaram animadamente por alguns instantes, levando ele a dar uma discreta cantada nela, fato imediatamente observado e escutado por dona Clotilde que saiu da loja com a blusa nova no pacote embaixo do braço e logo tratou de espalhar o fato pela cidade, a caminho de sua casa.
        Bianca simpatizou com o rapaz, gostaria de dar-lhe um emprego, mas na loja não havia vagas, então ela sugeriu que Juarez procurasse Denis, quem sabe o marido poderia ajudá-lo a arranjar um emprego. Sorridente e agradecido, o rapaz se dirigiu em direção ao escritório de advocacia.
        Todas as quartas-feiras feiras, Denis jantava na casa da sua mãe e conversava com o seu pai, até altas horas, tratando dos negócios da família. Bianca nunca o acompanhava, pois achava tudo aquilo uma verdadeira chatice, ficava solitária em casa a espera do marido.
        No entanto nesta quarta-feira, Bianca resolveu visitar uma amiga na cidade vizinha e informou o marido por telefone, que ela iria às cinco horas da tarde e só retornaria após as onze horas da noite. Depois Bianca ligou para a sua residência e pediu à empregada Marta, para não ir embora, ficar e dormir aquela noite no quarto dos fundos, evitando assim que a casa ficasse tanto tempo vazia e sozinha, á mercê dos ladrões.
         Às cinco horas da tarde em ponto, Bianca sai da loja dirigindo o seu carro. Às cinco e meia Denis transfere o jantar e a reunião de negócios com o seu pai, para quinta-feira à noite, alegando que estava muito cansado e precisava dormir um pouco.
         Ás sete e meia da noite, daquela quarta-feira enluarada, Denis liga desesperado para o seu colega de profissão Jonas, lhe diz “fiz uma grande besteira, matei a minha esposa e o Juarez, os dois estavam fazendo sexo quando eu entrei no quarto, eu os matei com o meu revolver 38.” O advogado Jonas aconselha o amigo a se refugiar em local seguro, para não ser preso em flagrante delito, enquanto isso ele tomaria as medidas cabíveis ao caso.
        Logo após os disparos, Marta sem que o patrão percebesse, foi em estado de choque para a sua humilde residência, lá em prantos noticiou ao vizinho, que o patrão tinha matado a patroa e o Juarez, sem dizer mais nada, foi dormir apavorada com os fatos ocorridos.
        Rapidamente a noticia se espalhou pela cidade, no outro dia todos apoiavam Denis, diziam “ele fez o que um homem honrado tinha mesmo que fazer”. Outros diziam, “o Juarez fez o que qualquer homem macho tinha que fazer, comer a dona”, nem as mulheres apoiaram Bianca, diziam “ela não valia nada mesmo”. Mas num ponto de vista todos estavam de acordo, uma situação dessas de traição explícita, naquela cidade, sempre foi resolvida na bala, com a graça do Senhor Bom Deus.
        Jonas descobriu por terceiros que Marta estava na casa na noite do crime e foi procurá-la, a moça estava atordoada, falou que não viu nada, apenas escutou os disparos e saiu correndo. Então Jonas lhe explicou todos os fatos ocorridos naquela noite e pediu para ela confirmá-los para a delegada, isso facilitaria em muito a defesa do patrão, ela concordou desde que continuasse no emprego e recebesse um aumento de salário, assim ficou acordado entre eles.
        Passado o período do flagrante, Denis se apresentou a justiça, relatou os fatos à delegada Aldira e foi liberado para aguardar o seu julgamento em liberdade. No outro dia pela manhã Dra. Aldira fez a oitiva de Marta, que confirmou os fatos relatados pelo patrão, mas cometeu um deslize quando a delegada lhe perguntou por que Bianca pediu para ela dormir na residência naquela noite. Marta não encontrou uma resposta plausível para a pergunta.
        Dra. Aldira começou apertá-la com suas perguntas, a delegada insistia em saber por que Bianca que iria trair o marido, em sua própria residência, pediria para a empregada dormir na casa. Marta começou a se esquivar afirmando repetidamente que não sabia o motivo. A delegada lhe acuou mais ainda insinuando que ocorreu uma orgia envolvendo Bianca, Marta e Juarez.
        Sem saída Marta começou abrir o jogo e revela que fez um acordo com o advogado de defesa do Denis, para obter melhores salários. Frente a essa revelação a Dra. Aldira ameaça indiciá-la naquele momento como cúmplice nos crimes, se ela não lhe revelar toda a verdade.
       Temendo ser indiciada por cumplicidade em duplo assassinato, pela delegada, Marta começou a revelar todos os fatos presenciados por ela naquela noite, disse que ouviu gritos na casa, que julgava vazia. Com muito receio ela aproximou-se em silencio da janela fechada do quarto. Mesmo assim ouviu Bianca falar em alto e bom som “Denis sua bicha louca, você está fazendo papel de mulherzinha com o Juarez, está dando para ele, cachorro sem vergonha”.
        Neste momento Marta escutou Juarez interceder dizendo “calma dona Bianca, eu vou embora, vamos fazer de conta que nada disso aconteceu”. Isto pareceu irritar mais ainda a dona Bianca, segundo ela, que gritou “vou contar pra toda cidade que o Dr. Denis, não passa de um viadinho safado”, depois ela escutou Bianca gritar “o que você vai fazer com esse revolver na mão, você não tem coragem, você é uma bichinha safada”.
        Marta escuta o primeiro disparo, em seguida Juarez diz “cara você tá louco, matou a sua mulher”, ela escuta o segundo disparo e minutos depois o telefonema de Denis para Jonas. Marta não chegou a ouvir a conversa toda, pois saiu sorrateiramente rumo a sua casa.
        Depois de saber desse depoimento bombástico dado a delegada pela empregada da casa, Denis fugiu para lugar incerto e desconhecido.
        Os comentários o achocalhavam, Denis virou motivo de piadas, nos bares, nas esquinas, nos lares em todos os lugares da pequena cidade.
        Não suportando a vergonha Denis suicidou-se duas quartas-feiras após os assassinatos, com um tiro na cabeça, ao por do sol, quando o dia já ardia covarde ao sol.
Midu Gorini
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2009
Código do texto: T1895315

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Comentários
30/10/2009 06h39 - Rosa Righetto
Muito bom mesmo...um final surpreendente...parabéns morzinho...beijos.
30/10/2009 05h17 - BETO
CARA ARRASOU, VALEU!

Sobre o autor
Midu Gorini
Londrina/PR - Brasil
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