NO FRIO DA MADRUGADA 2
O couro ia comer. Não tinha outro jeito de resolver a questão. A provocação não fora dele. A cachaça tremia à compressão dos dedos que seguravam o copo. Ao redor, bêbados e prostitutas se revezavam no balcão. Mas sua atenção estava voltada para a porta do puteiro. O acerto de contas era iminente. Bastava-lhe vislumbrar no vai-e-vem da porta a chegada do desafeto, e atiraria. Não, não havia outro jeito, e a única solução era antecipar-se ao inimigo.
Aquele dia estava sendo um inferno para aquele pobre catador de papéis. Como fora se meter em tamanha enrascada?
O dia amanhecera como todos. Sob a escravizadora rotina, o pária começou sua labuta. A carroça e o vira-lata a ela amarrado ali estavam à sua espera. Uma, calada - inanimada à espera do empuxo vital - e o outro - o amigo barulhento - abanava o rabo de alegria sem se preocupar com as horas.
Um fiapo d’àgua escorria pelo meio-fio imundo anunciando, talvez, que longe chovia e estava por vir mais uma daquelas inundações. O céu estava escuro ainda, mas isso não tinha tanta importância. Ou importância nenhuma. Era hora de sair pro trampo... e pronto.
A carroça de José era dividida em módulos. Fora uma iniciativa dele para separação do material que recolhia. Material que não era só papel, embora todos conheciam José por catador-de-papéis...
- E aí? Tá a fim?
Não. José não estava a fim de nada. Exceto pela decisão que tomara, realmente não estava a fim de mais nada.
- Hummmmmmm... – com desdém a mariposa voa para outras bandas. Ela não entende porque certos cabras vão ali... Danem-se!
De repente a porta do prostíbulo se abre. José larga o copo e, rapidamente, saca a arma.
O tiro foi certeiro. No meio do peito, sem chance!
A mariposa rejeitada olha para o corpo caído no chão.
- Bem feito, seu trouxa!
A polícia quando chega encontra o corpo de José jogado perto do latão de lixo, ao fundo do boteco.
- E aí, tá combinado então? Três horas da tarde... leva uma caixa de cerveja - diz o policial ao companheiro, enquanto filma bestamente, ao celular, o cadáver desfigurado.
À porta do puteiro, os ganidos tristes de Rex... aonde fora o seu maior amigo?
* * *
NELSON VITOR PEREIRA
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2009
Código do texto: T1896196
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