Casos comuns
O roubo, a morte, os gritos, os xingos, os tapas, tudo presenciado pelas crianças, nossas crianças que serão o futuro da nação. Na escola a professora grita demais com o aluno que estava colando, os outros o chamam de burro, ele sai chorando. Gritos pelo corredor, “bichinha”, “gay”, chega no banheiro, se tranca. Não agüenta mais tanta humilhação. Por que a professora tinha que ter feito aquilo? Ele não tinha estudado porque seus pais brigaram a noite toda, ele teve que cuidar da irmãzinha mais nova, pois a mãe já não conseguia andar, de tanto que apanhou. Agora, aquela professorazinha tinha que fazer isso. E aqueles colegas xingando o que ele tinha feito para todos? Como o mundo achava que poderia maltratá-lo assim? Que direito tinham? Se todos achavam que podia julgá-lo, ele também iria julgá-los. Raiva, ódio, humilhação, tudo se misturava dentro dele. Sabia que não podia mexer na gaveta do seu pai, que aquilo era perigoso, mas o que sentia, o que queria vingar era mais forte. Colocou a arma na mochila, e dormiu. Conseguiu sonhar aquela noite, nem ouviu os gritos de sua mãe. Acordou, tomou seu banho, a mãe estava ainda mais machucada. Foi para a escola, entrou na sala e esperou. Antes da aula começar o colega bateu em sua cabeça. A “bichinha” voltou? Ele ouviu. Respirou fundo, estava esperando a professora, ela o havia magoado, logo ela que ele sempre gostou que sempre quis bem. Ela havia brigado, gritado. Ela chegou toda a sala estava em silêncio, ele a olhou bem nos olhos, ela não o cumprimentou. Bom dia ele insistiu, ela não respondeu. –Pá. Sangue, grito, horror. A professora morta. O aluno de apenas 11 anos com a arma na mão.
Pablo Mariano
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1906256
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