A invasão das formigas
Acordei mais tarde e algo me fez ir direto para a mesa do café, não era fome, eu já havia tomado um café rápido às 6 horas e retornado para debaixo daquele edredom. A manhã estava gélida e nada seria capaz de tirar-me daquele quentinho. Mas, tive a impressão que havia algo errado e forcei-me a levantar e ver o que poderia estar acontecendo. E não é que estava acontecendo mesmo! Uma verdadeira invasão!
- Ei, ei ! Você aí!
- Quem, eu? Perguntou a formiga.
- É, você mesma! Como conseguiu subir na mesa hoje? Digo hoje, porque ontem você conseguiu novamente. Eu já estou cansada de bloquear o caminho de vocês e quando vejo...
- Diga! Como foi?
-Dona - Falou a formiga maior. – Seu marido tomou café hoje?
- Claro que sim, toma todos os dias. Mas por que a pergunta?
- Então foi isso! - Exclamou a formiga. – Senti cheirinho de café fresco e bolo.
- Mas como você sentiu se estava tão distante de vocês? – Falei. – aquela conversa não estava me agradando nada...
- Veja dona! Ele deixou sobre a mesa, a xícara que usou o açucareiro e o prato de bolo, e eu estava com muita fome! Nem havia tomado café ainda, pois a dona Angelina, não acordou até agora!
- O que é que eu tenho a ver com isso? - Falei enfurecida, pois não era só aquela maior que estava lá não, mas o formigueiro inteiro ao que parecia.
- Tenha dó dona! Nós não havíamos comido nada ainda. Então, eu vim aqui, vi que tinha comida demais e que a dona Henriquieta quando chegasse poria tudo fora. O que eu fiz? Fui lá ao formigueiro, correndo contra o tempo pois faltavam poucos minutos para dar o horário dela chegar. Falei pra minha amiga e para mais alguns amigos e quando vi a notícia já havia se espalhado. – A senhora já viu né?! Estava todo mundo lá no formigueiro sem café e já eram quase 8 horas da manhã.
- Mas eu quero saber como vocês conseguiram subir hoje? – insisti na pergunta. Aquela formiga parecia querer me distrair com aquela estória toda. – Ontem, - continuei – vocês subiram pelo fio do carregador do celular que estava carregando sobre a mesa; então, agora não deixo mais ele aqui. Mas eu quero saber hoje! – Dessa vez falei num tom mais incisivo.– Porque eu bloqueei todo o caminho, envenenei todo pé de mármore da mesa, todos os cantinhos que achei possível.
- Olhe dona! – Falou a maldita formiga. – A senhora está vendo esse ladinho aqui da perna da mesa? – Falou ela bem devagar, parecia cansada e ofegante de tanto comer e, ter andado até o pé da mesa pra me mostrar como havia subido, estava deixando-a de olhos arregalados.
- Sim, estou!
- Então, eu cheirei tudo com o maior cuidado para não aspirar ao veneno e encontrei essa parte aqui que o seu spray não conseguiu atingir. Ontem, eu fiquei olhando lá de baixo e encontrei um caminho mais fácil, subi pela parede, fui até a tomada elétrica, tendo o maior cuidado pra não levar um choque. A senhora já pensou um choque de 127 volts nas minhas perninhas tão fininhas? Nem criança agüenta! – Lá estava a formiga novamente me embromando. - Então, alcancei o fio do carregador, que fazia a ligação da parede até a mesa, ele era fino e preto e ficou um pouco difícil caminhar sobre ele, mas ao menos não tinha veneno! - Vocês seres humanos, nem parecem humanos, são malvados, como podem ter coragem de por veneno pra gente?
- Olhe dona formiga. – Falei, já de forma mais branda, condoída com a estória da formiga. – Eu não gosto de pôr veneno não, sabe? Sei que vocês são muito importantes para o ecossistema, como todos os seres vivos que estão neste planeta, mas, aqui não é lugar pra vocês. Compreendam. Voltem para a mata.
- Que mata dona? Estão destruindo tudo! Pisam em nossas casas, destroem as plantas que nos dão abrigo, balões queimam nossas árvores, homens derrubam, o fumacê sufoca toda a nossa família, até o Aedes aegypti, saiu voando de lá, veio pra cidade e nós tivemos que correr de lá também.
- O Aedes eu sei, fez grande estrago aqui no Rio de Janeiro, mais de 130 mortes e muita gente gente hospitalizada. Mas eu não posso deixar vocês aqui na minha casa. Não posso! Quando vocês andam por aí atrás de comida, passam por lugares que possui seres microscópicos que são capazes de transmitir as mais variadas doenças e os trazem presos em suas perninhas lindas e fininhas e daqui à pouco será a minha família que vai adoecer. Por acaso a senhora e suas amigas fazem idéia das doenças que trazem em suas patinhas?
- Sei não senhora, nunca senti nada!
- Claro que não sua tonta! - Aquela conversa já estava tirando minha paciência. Onde já se viu dar conversa pra formiga? Já pensou se a dona Henriquieta chegasse ali e me visse conversando com formiga? Diria que enlouqueci. – Não é doença que dá em insetos não! São doenças que os insetos transmitem aos humanos.
- Como vou saber o que elas provocam?
Falou a formiga atrevida.
- Quer saber? Chega de papo e sumam já daqui! Caso contrário, vou chamar o pano amarelo, pra levar vocês à uma viagem ralo da pia abaixo. Sumam daqui! Gritei.
E lá foram as formigas, correndo como doidas, carregando o que foi possível. E eu, não tive coragem para matá-las, nem chamar o pano amarelo, somente dei uma forte palmada na mesa para assustá-la e aquele grito que doeu muito mais em mim e fizeram-nas ir embora. Fiquei ali assitindo aquela corrida, me coloquei no lugar delas, naquela fuga desenfreada, com medo de morrerem e algumas ainda estavam persistentes, talvez fosse uma daquelas surdas, como a estorinha do sapinho surdo que por não saber que não podia fazer, foi lá e fez.
Simone Conde
Publicado no Recanto das Letras em 14/07/2008
Código do texto: T1079102
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