Texto

A Biblioteca de Livros Esquecidos

Cruzei o umbral e soltei um espirro.
O cheiro de mofo estava por todo lado, a poeira recobria cada centímetro, cada mesa, cada prateleira.
Há quantos anos? Há quantas décadas ninguém entrava ali?
O salão de leitura era ovalado, circunscrito pelas prateleiras e por seus incontáveis exemplares. Um feixe de luz atravessava a clarabóia, banhando apenas um segmento do salão. E foi para esta ala iluminada que me dirigi.
Corri os dedos por sobre as lombadas de couro dos livros e, aleatoriamente, retirei um deles da prateleira. Detive-me com ele em mãos, tomado por um receio sem propósito. Acariciei-o, cuidei seu formato e espessura. Abri o volume e li o título.
E mesmo que eu nunca o houvesse lido, todo seu enredo e estrutura surgiram em minha mente. A vintena de personagens que vivia em suas quinhentas e tantas páginas, a tentativa desesperada do autor em narrar cada instante, cada detalhe da vida daquelas criaturas.
Recoloquei-o em seu lugar e apanhei o livro adjacente. Também não o havia lido, mas teve sobre mim o mesmo efeito. Vislumbrei a trama, a vida dum homem predestinado, mas imerso num mundo que não o compreendia.
Apanhei uma terceira obra. Foi então que compreendi onde realmente estava.
Aquele era o acervo de todos os livros que já concebi; que tentei escrever; que me venceram; que comecei, mas não conclui; que rascunhei; para os quais elaborei projetos; para os quais imaginei personagens; que seriam obras revolucionárias da Literatura mundial e que, justamente por isto, estavam muito além da minha capacidade; porque eram idéias geniais, mas que no papel se revelaram pobres; que não me cativaram; para as quais eu ainda não estava preparado. Uma infinidade deles: milhares, centenas de milhares.
Num ato de fúria, arranquei-os de suas estantes, chutei-os, pisoteei-os, virei as mesas e as cadeiras do salão, gritei e me deliciei com os ecos da minha violência. Por fim, exaurido, deixei-me cair entre os livros abertos e páginas rasgadas e chorei, oprimido por minha inaptidão.
A cada escolha que fiz, várias outras tive de abandonar. Para cada livro que consegui pôr um ponto-final, que me consumiu meses ou anos, outros vários deixaram de ser escritos. E remoí o temor de ter feito as escolhas erradas, de haver gastado minhas energias num projeto fracassado, de ter trilhado os caminhos que levaram a lugares nenhuns.
Ateei fogo aos livros e incendiei o templo que os sepultava, porque o que não foi, jamais será.
Antes de dormir, sentei-me e escrevi este desabafo, que, se não substitui os livros que deixei de escrever, pelo menos os justifica, que os mantêm vivos como o nada que são.

Henry Alfred Bugalho
Publicado no Recanto das Letras em 05/12/2008
Código do texto: T1319743

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Comentários
12/03/2009 19h49 - Henricabilio
Um tema interessante e, de certo modo, inquietante... A criatividade intuitiva pode ultrapassar as nossas capacidades e as histórias, com personagens e situações bailam no nosso espírito mas ficam para sempre reféns da nossa incompetência. Um texto que de algum modo fere a minha intimidade, tanto mais que já por diversas vezes pensei neste assunto... Um abraçooo!
05/12/2008 15h12 - Chellot
Vi-me como personagem de seu conto. Apenas tenho uma outra opinião: Mesmo que não termine as histórias, ou que não dê o devido valor a elas, estou criando vida. Não a vida como conhecemos, mas a vida de um personagem, seus sentimentos, seus objetivos. Cada personagem é como um filho e não deveria por isso ser esquecido. Beijos de lua.
05/12/2008 12h59 -
Uma boa maneira de falar sobre processo de criação. Não é como os textos didáticos que citam uma criação em etapas. Seu texto mostra a criação como ela realmente é. É mesmo incrível que as idéias mais geniais se mostrem inúteis no papel. Às vezes parece que muita coisa se perde no caminho entre a mente e a caneta. Mas eu não costumo desistir dos meus fracassos. Eu estou sempre relendo-os. Quem sabe algum dia eu possa dar sentido a eles. Ou ao menos tirar novas idéias e assim inspiração para um novo texto. Quem poderá saber? Ótimo texto-desabafo. Adorei o título também. =~)

Sobre o autor
Henry Alfred Bugalho
Estados Unidos, 29 anos
237 textos (14819 leituras)
1 áudios (126 audições)
31 e-livros (1985 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/11/09 08:47)

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