"Poente aos olhos prateados"
(música indicada à leitura: Kings Of Leon - Closer)
_____________
Já são seis da tarde... hora de levantar...
Olfato aguçado, ela não sente o prazer de outra companhia. ”Sim, amor, agora você é uma alma. E almas não exalam odor...”
- Espere, controle-se mulher! O que fez não há de servir como exemplo! Veja o que é, VEJA O QUE INFRINGIU! Você o amava...
ama...
inala...
mastiga...
(....)
A família sentirá falta.
“Foda-se!” São seis da tarde. É hora de pular dos lençóis e sair, morrendo até ser ressuscitada. Pra acordar de novo, sem o cheiro inerte além do sangue que agora é dela, das células que agora funcionam pra ela, do lençol que se sujou pelo instinto... dela...
Língua ao dente, as presas sairão quando for hora. O melhor casaco, a carteira que ele trouxe cheia de dinheiro. Não que precisasse...
Por curiosidade, fuma pela primeira vez um resto de cigarro preto que a vítima deixara cair quando sua traquéia ainda estava no lugar.
Um último beijo...
sorriso de soslaio...
a satisfação excitante de sua fatalidade voraz...
Esta noite estará há uns 450 quilômetros se suas pernas estiverem descansadas. E sexo e sangue sempre estariam ao seu lado e de quem fosse a vez.
O sol poente esconde a luminosidade dos olhos prateados. Fome. O cigarro volta ao chão menor. Um scarpin vermelho como o lençol pisa sobre o resto de cinza à caminho da janela.
Mais um sorriso, agora com os olhos...
"E são só seis da tarde..."
Thiara Tezza
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681773
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.