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O Último Relato

   "Passava da meia-noite, a televisão ligada falava sobre o aumento nos ataques de vampiros, na privada eu ouvia essa notícia – Aumento no Número de Ataques de Vampiros a Humanos – até um tempo atrás isso não passava de um mito imbecil feito para assustar as pessoas, agora sou obrigado a ficar em casa durante a noite. O governo decretou toque de recolher, mas o que isso importa? – Ninguém tem mais coragem de sair às ruas essa hora. Putz! Acabou o papel higiênico, ainda bem que existe o jornal. Daqui da janela vejo um policial ser morto por vampiros. Continuo assistindo o jornal e bebendo a minha vodca. Durante o dia eu havia comprado alguns livros para me distrair a noite, eu tenho insônia, consigo dormir no máximo quatro horas, todos os dias acordo quebrado, irritado. Neste momento há outro ataque, daqui se ouve os gritos desesperados da vítima, parece ser um homem, que pena, menos um. Droga! Acabou a vodca, peguei outra... A noite está linda, boa para um bom sexo. Será que tem alguma vampira dando sopa nessa noite? Ah! Quem dera se tivesse. Não pretendo sair daqui tão cedo. Resolvi então descrever como são as minhas noites cheias de “adrenalina” neste pequeno bloco de notas. Sou obrigado a ficar em casa durante a noite, sem ter nada para fazer – Os livros não me satisfazem nada me satisfaz. Estou bebendo demais – a noite parece uma mulher com TPM. O abajur velho está falhando.
   O celular está tocando, é a Verônica – trepei com ela algumas vezes, tem bumbum empinado, pernas grossas – é um tesão – quer que eu vá a casa dela pela manhã, topei na hora – poderei dormir tranqüilo, com uma mulher daquelas, nem precisa de masturbação.
   Está passando agora no jornal que houve um caso de ataque de vampiros no norte do Maranhão. É... A coisa está se espalhando. Desde o primeiro ataque até hoje são mais de cinqüenta mortos, nisso em menos de três meses. O que era a São Paulo agitada nas noites, nem existe mais, a conhecida cracolândia diminuiu o ritmo, o Parque do Ibirapuera não é mais o mesmo, está sempre vazio, mesmo durante o dia.
   Estou com sono, mas é só deitar que o perco totalmente. Fui num médico aqui perto, ele me passou alguns remédios, esses sim me fazem dormir. Sinto que já estou dependente deles, mas o que importa? – Eu quero dormir – Ainda continuo bebendo aquela vodca e ouvindo mais gritos de vitimas, mas essas estão longe, não sei dizer se é uma mulher ou um homem. Essa noite está cada vez mais longa, as ruas vazias. No meu apartamento há varias garrafas vazias, nem sei as horas que comecei a beber. Deito na cama, olho para o teto – O mundo é uma grande bola de merda – levanto, vou ao banheiro e me olho no espelho: como estou velho, cansado, nem lavando o rosto melhora alguma coisa, é a mesma ressaca de sempre, a mesma coisa vomitada de sempre. Ah! Tenho vontade de acabar com tudo isso, mas antes eu quero trepar com a minha Verônica, aquele bumbum me chama...
   Vou assistir outra vez, no lugar do jornal está passando um filme pornô, a atriz lembra a Verônica. Fico lá assistindo, já passou das duas horas da manhã.
   Vou beber mais um pouco da minha vodca e tomar meus remédios...
   É neste momento que a vista fica turva, vou para cama, esqueci de desligar a televisão... Quando eu acordar desligo.
Estranho, estou sentindo uma dor muito forte no peito, devem ser os remédios..."

   No Jornal dás 10 informa que um homem não identificado foi encontrado morto em seu apartamento no centro de São Paulo, aparentemente a causa foi uma overdose. Foi encontrado junto ao corpo uma garrafa vazia de vodca e alguns comprimidos para dormir jogados sobre a cama, no chão havia um bloco de notas, cujas anotações foram publicadas logo acima.
   O seu enterro ocorreu ás oito horas da manhã e, pelo que conta nas nossas informações, apenas uma pessoa compareceu, Verônica D’Ávila de Albuquerque Andrade, que nos informou o nome do falecido, Henrique Silva de 36 anos.
Augusto Fagundes
Publicado no Recanto das Letras em 26/10/2009
Código do texto: T1887317

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Sobre o autor
Augusto Fagundes
Hortolândia/SP - Brasil, 17 anos
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