Estação Violeta
©Márcio Buriti
— ESTRANHO — disse ao acordar do sonho em que havia passado por um túnel extenso e às escuras. Ao vencê-lo, e a se ver de braços cruzados no passeio florido de uma ruazinha solitária, concluiu:
— Acordei apenas para o sonho. É isso: estou acordado dentro do sonho. Que loucura, seu Freud! — e riu-se, como quem ri debochando.
“Ah, situação!” — pensou, ao se por em direção à casinha sob suposto pé de ipê do fim da rua. “Mas se entrei na chuva foi pra me molhar”. — refletiu, tirando mapa do lugarejo. “Não procurava assuntos para escrever? A propósito, isso é o que me martela a cabeça... Estou certo de que dormi com isso. Mas, caramba! As coisas estão à minha frente... Veja só: estou vivaz dentro de um sonho em que me vejo num lugar quieto, florido, cheio de passarinhos, e onde o sol é tão tímido quanto o azul do céu e os fiapos de nuvens. A vegetação, nem se fala! Que plantinhas graciosas à beira da ruazinha, que abrem as folhas quando passo por elas! Engraçado: não comentem no meu blog que estou ruim da cuca, mas juro que não preciso dos lábios para falar; faço-o com o pensamento. É de rir sim! Agora mesmo eu me virei às plantinhas e pensei em dizer a elas: fecha a porta dona Maria! Então elas juntaram as folhas como a criança junta as suas mãos para rezar. Incrível! Agorinha pensei em perguntar a alguém: que lugar é esse, meu Deus? Pensei; logo duas mulheres bonitas, vestidas de branco, ao cruzarem por mim, vindas de outra ruazinha, responderam-me sem mexer os lábios que aqui é Estação Violeta, Região das Moradas. Daí, a de cabelos compridos e negros voltou-me o rosto, disse chamar-se Maria Flor e que eu ia gostar dali, porque, embora tivesse chegado depois de mim, havia conhecido toda a Estação e estava adorando o lugar”.
“Estação Violeta? Região das Moradas? Chegou depois de mim? Que isso? Não conheço aquela mulher? E ela, e eu, chegamos de quê? Ah, que loucura mais prazerosa! Nunca pensei em levar vida normal dentro de um sonho. Mas é o que eu disse: se entrei na chuva foi pra me molhar e, como preciso escrever, vou puxar conversa com aquela gente da casinha:
— Bienvenido, amigo! — disse a garotinha em portunhol, entregando-me um buquê de violetas. — Soy Belita.
— Obrigado. Mas vocês podem...
— Sientate conosco — interveio o avô da garotinha, puxando o cestinho de frutas ao lugar em que eu me deveria sentar à mesa. — Você, yo sei, você está cansado de los viajes... Siente cheiro de las frutas e coma una. Después caminamos un poco no Bosque da Cascata, para que você pueda recuperarse do cansaço”.
“Viagem? Que viagem eu fiz? Apenas passei por um túnel às escuras, nada mais. Agora, estava cansado sim; mas, pela duração do sonho, eu quis-lhe dizer. Quis, mas não disse e, depois de comer uma fruta, da qual senti o gosto da cereja, vô Iael, Belita e eu saímos pelo Bosque”.
“Depois de andarmos tanto, o velho contou-me um pouco de sua vida: que morava em Estação Violeta há décadas; que há dois anos recebeu Belita em sua casinha; que fora designado pela Administradora de Estação, Sóror Joana, para cuidar dos bosques; que já sabia da minha viagem para cá. Eu disse, há pouco, que a situação era caso de risadas e ri ao perguntar-lhe como ele sabia, já que eu apenas vivia dentro de um sonho. Calmamente ele descansou o braço no ombro de Belita e respondeu, olhando para um ninho de passarinho, que era muito bom eu saber que dentro dos sonhos havia vida”.
“Muito estranho, o meu sonho. Mais ainda ficou quando uma moça apareceu pisando levemente o chão recoberto de folhas e disse algo ao ouvido de Vô Iael. Este, em expressão boníssima, disse-me que estava na hora de eu fazer viagem em companhia de Clarisse, aquela moça. Viajar? Mas, por quê? Eu quero é acordar, eu disse a eles. Não quero mais sonhar, vô Iael, implorei. Qual o quê! Clarisse achegou-se a mim e, segurando a minha mão esquerda, olhou-me tão intensamente que eu me senti levitando; daí eu dormi para outro sonho”.
“Outro sonho também cheio de vida, pois que, de repente, eu me vi brincando de bola com uma garotinha numa praça espaçosa e cheia de árvores e gente. Um lugar muito diferente, cujo ar pesado contrastava ao de Estação Violeta. Então, sob o olhar de Clarisse, sentada à sombra de um pé de manga, eu jogava a bola à garotinha, que retornava o lance rindo e me chamando vovô. Pega vovô, joga vovô, ela dizia. Mas, em instantes, o choque: o pai da garotinha, o meu filho, ignorando a minha presença, veio brincar com ela. Que isso, filho? Coisa é essa de não me ver? Recorri à sua esposa, que se juntou a eles na brincadeira de bola e nada. Chamei-os, acenei, esbravejei e nada; eles não me viam. Sem entender, voltei o rosto a Clarisse, mas ela já estava junto a mim:
— Clarisse, o que está acontecendo?
— Você vai entender João, assim que voltarmos a Estação Violeta. Sóror Joana quer lhe falar na Administração. Vamos?
— Não, eu quero brincar com minha netinha...
— Terá tempo para isso. Agora vamos”.
“Novamente Clarisse segurou a minha mão e olhou-me daquele modo que me fez levitar e me sentir anestesiado; mas, ainda me lembro de, ao deixar o chão, trocar um olhar com minha netinha”.
“Quando dei por mim, estava-me no corredor do prédio da Administração, à espera da entrevista com Sóror Joana. Impaciente, saí à imensa janela, e, olhando para baixo, meus olhos encontraram os olhos negros de Maria Flor, parada entre os transeuntes. Pensei: ah, sim, conheço essa mulher. Ela é do Brasil, se é que aqui não seja Brasil. Como pensar forte é falar, Clarisse e Vô Iael aproximaram-se de mim, dizendo-me com calma:
— Ela era do Brasil, sim — soou meiga a voz de Clarisse.
— Era da Terra, João — riu-se o velho administrador dos bosques.
— Era da Terra? — assustei-me. — Quer dizer que eu...
— Sim, João - ele disse. - Mas, acalme-se. Sóror Joana vai-lhe falar sobre isso”.
“Nesse momento, eu me lembrei de uma frase que somente minha mãe proferia: não é preciso; estou entendendo tudo direitinho. Assim, sorri aos amigos espirituais e desci à rua para encontrar-me com aquela que havia chegado depois de mim a Estação Violeta”.
Marcio Buriti
Publicado no Recanto das Letras em 28/10/2009
Código do texto: T1892159
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