Texto

Fábula Contemporânea





Jéssica é uma formiga azul muito popular. Dizia-se à boca pequena que nem ela nem o Asdrúbal, seu namorado, nasceram ali. Claro que o sotaque era um pouco diferente mas qualquer um pode arrastar os erres e soprar os ss sem ser estrangeiro. Clotilde, matriarca no formigueiro contíguo, bisbilhoteira de profissão, morria de inveja de Jéssica, do seu porte elegante, dos seus sapatos de confecção italiana, do seu jeito social e, pasme-se, até do hálito a menta que a formiga azul fazia gala em exibir. Daí as sílabas sibilantes jogadas ao rosto dos interlocutores -  clamava, Clotilde, invejosa.
Claro que ser de fora nem é crime mas a xenofobia existe até no coração de quem esteve emigrado toda a vida sobretudo se os visados têm sucesso, coisa que dói muito na alma dos mesquinhos.
Incomoda-me - dizia Clotilde furiosa – é saber que o azul não é natural e sentir que o Asdrúbal, de tão escuro, há-de ser árabe sem que  ninguém faça nada para o prender! Quero que os expulsem, os prendam ou os matem. Não me prejudicam mas odeio as diferenças. Porque sim. O mundo fica mais justo se for cinzento para todos! Deus é que talvez não se tenha lembrado disto, garantiu.
Edgardo Xavier
Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2009
Código do texto: T1897050
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Comentários
07/11/2009 14h48 - Mara de Fátima
Bela fábula amigo!! As diferenças... algo que esbarramos todos os dias, a td instante. Cada um de nós, com pequenos gestos e atitudes podemos mudar pelo menos o que e a quem nos rodeia né. Sonho muito com um mundo mais igual e mais tolerante. Parabéns proc mais uma vez. Bjusssssssss
06/11/2009 13h20 - Paula Castanheira
Edgardo, eu havia comentado esta fábula, cadê? Vi não senhor e como gostei muito, porque fala da intolerância ás diferenças, da pobreza espirítual que infelizmente existe por toda a parte (até nas formigas e Clotilde que o diga) volto a comentar, está divina. Quem dera o mundo entendesse que ser azul, amarelo, gordo, magro, hetero, homo, com ou sem credo, somos todos iguais perante nós e perante Deus. Os ricos se acham, os novos também, os de olhos azuis sentem que são mais e por aí. As diferenças nos iguais são o bem da vida e o que mais queremos é respeito, tolerância, generosidade. Clotilde mal amada representa uma parcela, vaia para ela. Beijuuuuuuuuuuuuuuuu

Sobre o autor
Edgardo Xavier
Portugal, 63 anos
78 textos (1930 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 12:53)

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