Texto

Paciente 067: Felícia, "A Fronteiriça"

- Diga-me, Felícia, com o que costuma sonhar?

  É um pouco complicado explicar. São sempre sonhos que parecem reais, sonhos que eu posso sentir na pele e na alma. Tudo aquilo que vejo é real e se vejo, eu sinto, eu ouço... Todas as noitas os sonhos são bem parecidos quanto a temática mas as vezes muda o cenário.
  Eu costumo sonhar estar sozinha, caminhando. Ora estou caminhando em um deserto, ora em florestas, ora em um inferno congelado. Em fim, de qualquer forma, eu estou sozinha e caminhando. Não há sinal de vida humana nem animal, no máximo plantas. E o engraçado é que as plantas ou árvores sempre são de vidro, cristal, algo assim.
  Quando estou em um deserto, o calor é sufocante e o espaço vazio, o horizonte e a solidão chegam a ser claustrofóbicos. É como se todo o espaço do mundo me pressionasse por dentro, comprimindo os meus orgãos.
  Quando estou em uma floresta, como eu disse, não há animais e todas as plantas e árvores são de vidro. O ambiente não é muito iluminado, é bem escuro e as luzes que são refletidas pela lua espelham-se e espalham-se para todos os cantos.
  Quando estou no meio da neve, é praticamente o mesmo que no deserto, porém o inferno é gelado. Eu sinto o meu coração bater cada vez mais fraco, quase parando e as vezes vejo marés de neve me encobrindo.
  Independente de disso tudo, eu procuro seguir mesmo que eu esteja sozinha. Sempre sozinha. Alias, essa foi uma condição que já se fundamentou em mim. Não há mais aquela necessidade de precisar da ajuda de alguém ou  ter uma pessoa como objetivo, naquelas de "vou seguir para encontrá-la outra vez" ou "ela está me esperando, eu preciso continuar".
  Não os considero pesadelos, mesmo que não sejam muito agradáveis. Eu já me acostumei na verdade. Sinto falta quando não tenho esses sonhos.

- Entendo. Sabe, Felícia, parte disso é verdade e parte é mentira. Os sonhos em que flores são de vidro, significa que seu ego é fraco. A solidão sempre presente é reflexo da vida que você escolheu, porém você diz para si mesma que não precisa de ninguém. Por não ter, todos os ambientes são sufocantes, mesmo que você sonhasse em estar em seu quarto. Você diz que não precisa de ninguém porque tem medo de que te rejeitem! Você, na verdade, só quer atenção. Por isso você sempre procura fazer amizades com pacientes novos ou com os funcionários, mesmo que isso dure minutos. Você é uma Fronteiriça.
Melodeath
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1902383

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Comentários
04/11/2009 20h18 - Rosa Mattos
Caracterizou bem uma pessoa na soleira da porta da psicopatia. hehe*
04/11/2009 14h46 - AMagina
Chegou mto bem!! Belo texto, interessante e boa análise!! Bem Vindo mesmo =] Abraços, até mais...
03/11/2009 16h58 - Anna Ysabel
Seja bem vindo ao Recanto das Letras! Abraços afetuosos

Sobre o autor
Melodeath
São Paulo/SP - Brasil, 18 anos
1 textos (24 leituras)
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