Texto

BaohBah, A Cidade de Vermes

por Gustavo "Pango" Diógenes de Oliveira
[Nota: Esse texto usa, em certas partes, fontes e cores diferentes da usadas pelo Recanto das Letras. Como, por enquanto, ainda não possuo uma conta que me permita usar tais recursos, colocarei o texto sem esses detalhes. Em breve, tentarei colocar uma versão em .pdf que os possua.]

“Lutar? Pra que lutar quando podemos apenas morrer, acelerar o inevitável?
Não seria esse o caminho mais indolor?”

Planeta Acáci, num sistema solar binário ainda não catalogado pela espécie Homo sapiens, galáxia NGC 5866.
Aproximadamente 1 ano antes da Décima Sexta Catástrofe de Acáci.
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A escuridão da noite engolia novamente a cidade de BaohBah, engolfando os vermes que lá mantinham suas carcaças.
Lentamente o Sol se pôs, a escuridão engolindo casa por casa, quarteirão por quarteirão, bairro por bairro.
As ruas, vazias, sem vida, somente asfalto, lentamente começaram a esfriar, para que no dia seguinte não fossem pisadas por nenhuns, nem ninguém. Somente serviriam de enfeite para os vermes que vivem nas moradias que um dia pertenceram a humanos.
Lentamente, as luzes se acendiam, pois nenhum sequer ousava se levantar e interromper sua preguiçosa vida artificial.
Após algumas horas na escuridão, quase um quarto das luzes da cidade estavam acesas: somente as luzes dos nenhuns cujas conexões eram lentas.
Nas ruas vazias, ouvia-se o barulho de dedos gordos batendo nas teclas, o som ressoando em todas as direções. Em alguns poucos e raríssimos momentos, ouvia -se a brisa passando, antecipando um chiado dos vermes, que há muito não sentiam um ar que não contivesse o cheiro dos seus próprios fluídos.
Na cidade de BaohBah, ninguém vivia, afora os vermes que um dia foram humanos.
Todos estavam mortos, restando somente suas carcaças.
Nenhum na cidade de BaohBah ouviu o vento amaldiçoado passando, deixando seu rastro de vida e de consciência, nem sentiu o sopro de existência nos rostos dos vermes.
Nenhum na cidade de BaohBah viu o ar amaldiçoado saindo, passando pela fronteira precisa, onde acabava o asfalto e as moradias dos vermes, e tampouco  viu a estranha máquina que o vento maldito deixou a sete metros de onde acabavam os quarteirões.
Porém, os vermes sentiram os tremores da terra quando o vento fez o chão elevar-se sob a máquina , virando algo que contrariava a percepção dos vermes.
Os corajosos pensaram em procurar a fonte do tremor, mas pararam por aí, não ousando sair das suas moradias, pois não possuíam janelas.
Os medrosos temeram e tremeram, pensando que a ausência de janelas poderia protegê-los.
Porém, a maioria nem percebeu o tremor, continuando com sua inexistência habitual.
Obviamente, nenhum notou quando o vento amaldiçoado cravou o obelisco no chão, um monumento de pedra de dois metros de altura e um de largura, pedra branca, pedra maldita, pedra dos que contrariam a evolução.

No dia seguinte, as máquinas vieram, todas curiosas, visando à descoberta dos acontecimentos do dia anterior, visando à descoberta do que causou o estranho tremor.
Minutos após a saída das máquinas de seus armazéns, a Unidade K-89 percebeu a existência do obelisco.
Após alguns minutos, um pequeno grupo de máquinas se reuniu para estudá-lo, examiná-lo, e senti-lo.
Entalhado no grande obelisco branco, em letras garrafais, estava escrito:

APERTE O BOTÃO

As máquinas direcionaram seus olhares para o morro que surgira durante a noite. Dezessete graus de inclinação, o topo dele a alguns metros acima do nível da terra plana da cidade de BaohBah.
“Apertemos o botão?” - indagaram-se as máquinas.
Em minutos, todas as máquinas de BaohBah processavam a pergunta “Apertemos o botão?”.
Tão rapidamente quanto se espalhou a pergunta, espalhou-se a resposta.
“Não, não apertemos o botão.”
O obelisco - percebeu a Unidade F-85 - era de mármore polido. Os vermes não faziam mármore polido, somente dados. Muitos dados, e nada mais.
“Vermes foram feitos para fazerem dados,” - era algo que todas as máquinas sabiam. Afinal, estava na sua programação mais básica.
“Humanos fazem coisas,” - dizia uma das últimas programações, um detalhe do seu sistema, apenas um pequeno código usado na interpretação de coisas agora inexistentes.
Vendo que um humano lhes dava uma ordem, a ignoraram, pois somente obedeciam aos ninguéns, aos vermes. As máquinas se dispersaram, voltando às suas tarefas rotineiras. Alimentar os vermes, limpá-los, criar-lhes comida, manter a sua conexão.

No dia seguinte, o satélite que orbitava o planeta tirou uma foto do obelisco, disponibilizando-a para todos.
Em minutos, os habitantes de BaohBah visitaram a página, a maioria deles entrando  sem querer. “Apenas um engano!” escreviam, antes de perceberem a foto do satélite.
“O que é aquilo, tão... Curvo e diferente, e fora da cidade?” - perguntavam ao se referir ao morro.
“O que é aquela coisa, tão grande e branca, na frente da coisa curva?” - perguntavam, referindo-se ao obelisco.
“Olha, um computador!” -  exclamavam os ninguéns,  referindo-se à maquina que aparecera.
“Que computador estranho e obsoleto, somente um botão! E, ainda por cima, um botão vermelho! O que estará em sua tela? Códigos do Abacaxi II?!” - brincavam os vermes, todos rindo à sua maneira peculiar, rindo como porcos, ou fazendo o catarro escorrer pelos seus narizes com a grande quantidade de ar passando, ou, simplesmente, sorrindo todos ao mesmo tempo.

De noite, um verme mandou uma das suas máquinas investigarem o misterioso computador que aparecera.
Unidade O-23, era seu nome. Chegando lá, fitou o obelisco.
APERTEM O BOTÃO

Era o que estava entalhado nele.
“Apertemos o botão?” - perguntou-se O-23, passando pela mesma linha de pensamento do dia anterior quando tinham visto o obelisco pela primeira vez e haviam chegado à conclusão de que não deveriam obedecê-lo. Encaminhou a pergunta ao seu dono.
“Aperte o botão,” - respondeu-lhe seu dono.
“APERTEM O BOTÃO, diz o mármore. Será necessário 1 x N Unidades para fazê-lo, sendo N>1. Número de Unidades insuficiente. Encaminhar pedido de auxílio?”
Em poucos minutos, as Unidades O-23, C-65 e A-41 fitavam o antigo computador. Prepararam-se para subir o morro, e, lentamente, o fizeram.
Ao se depararem com o antigo computador, enviaram fotografias de seu estado atual para futura análise.
Cinza, levemente enferrujado, tela preta, com um pequeno traço verde no topo, piscando. O botão consumia aproximadamente um oitavo do seu painel.
Juntos, apertaram o botão.
A tela piscou e se atualizou.
>HUMANO NECESSÁRIO.
>SOMENTE HUMANO PODE ATIVAR ARMAGEDDON.
>NÃO-HUMANOS QUE TENTAREM ATIVAR ARMAGEDDON SERÃO NEUTRALIZADOS.

As Unidades transmitiram as imagens para seus donos.
Infelizmente, para as máquinas, o computador não brincou. Antes de soltarem o botão, emitiu um grande choque que matou as Unidades.
Antes de entrar em modo de Espera, apareceu em sua tela:
>DESCANSEM EM PAZ:
-O-23
-C-65
-A-41


No dia seguinte, mais Unidades foram enviadas: algumas para examinar o computador, agora conhecido como Armageddon; outras, para tentar ativá-lo, visando o entretenimento dos vermes - seus donos - que gostariam de ver as últimas faíscas das suas fiéis Unidades para adicionar divertimento à sua inexistência.
Quando as primeiras Unidades fitaram o obelisco, mandaram novas imagens para seus donos.
POR FAVOR, APERTEM O BOTÃO

Dizia o obelisco. As letras agora eram maiores e mais drásticas, como se, ao invés de entalhada, a frase tivesse sido arranhada na pedra.
“Observação: Mensagem mutável” - enviaram as máquinas para seus donos.
Confusos, os vermes não souberam o que fazer.
“Mensagem mutável? Como assim?”
Era o que todos se perguntavam. Em minutos, as salas de chat enchiam-se de teorias mirabolantes sobre o significado de tudo aquilo. Alguns diziam que o obelisco não era de mármore, mas sim um computador coberto por mármore. Outros diziam que mármore não existia, e que isso tudo deveria ser uma pane no sistema sem-fio das Unidades.
Obviamente, nenhum deles mandou que suas Unidades avaliassem a espessura do obelisco. Vermes não são tão espertos.
E, de forma igualmente óbvia, em nenhuma sala do chat, os vermes cogitaram a possibilidade de um deles ir apertar o botão.
“Cedo ou tarde, alguém apertará o botão,” - diziam todos os nenhuns, incluindo aqueles que mandaram algumas de suas Unidades fiéis para a morte certa, visando apenas o divertimento de vê-las sendo eletrocutadas.
Muito menos se perguntaram os vermes como Armageddon chegara a saber os nomes das Unidades que eletrocutava.
Ao final do dia, apareceu uma sinistra lista em sua tela, uma lista contendo os nomes de todos os que haviam morrido naquele dia.
Estranhamente, nenhuma Unidade se enquadrava nessa lista.
Nela não havia ninguém, nenhum, somente vermes.

No dia seguinte, a macabra lista permanecia lá, confirmaram as primeiras Unidades que chegaram.
Rapidamente, ninguém checou o estado atual dos nomes que apareciam na lista. As Unidades fizeram tudo.
“Unidades, respondam,” - mandavam essa mensagem para as Unidades dos que apareciam na lista.
Felizmente, as Unidades responderam.
“Atualização sobre estado do dono da Unidade se faz necessária. Forneçam dados.”
Em poucos minutos, começaram a receber as atualizações.
“Dono da Unidade encontra-se normal, batimentos cardíacos 56/min, 6 respirações/min, pupilas dilatadas, taxa de açúcar...”
Dentre todas as informações coletadas, somente uma era fora do comum.
“Porém, dono apresenta incomum imersão no seu terminal. Unidades incapazes de chamar atenção desse.”
Temendo interromper seus proprietários, as máquinas dos excessivamente imersos no mundo virtual limitaram-se a sustentá-los, mantê-los vivos, e, na medida do possível, limpos.
Desacreditou-se de Armageddon depois disso. Afinal, os que apareciam na lista estavam completamente normais. Depois confirmaram pela rede: nenhuma mudança!
“Ah, eu estou bem,” – dizia os que apareciam na lista, quando questionados pela Wormnet.
Quanto ao obelisco, agora era chamado de Ovekisco, devido a um erro de digitação considerado deveras cômico. Assim, aparecia nele:
POR FAVOR, ALGUÉM, APERTE O BOTÃO.

Nesse dia, mais Unidades apertaram o botão. Todas faleceram. Nenhum cogitou a possibilidade de ir apertar o botão, como era de se esperar.

Nessa noite, um nenhum, um verme, mandou que uma Unidade ficasse lá para observar a mudança da mensagem no Ovekisco, e para anotar os nomes da lista. Unidade N-98 era seu nome.

Quando o dia amanheceu, os sóis raiaram e iluminaram as Unidades de BaohBah.
Nesse dia, menos Unidades foram observar o Ovekisco. Afinal, ele se tornara assunto passado, fora de moda.
A Unidade N-98 não fora encontrada: desaparecera sem deixar rastros.
E a mensagem do dia:
EU IMPLORO, APERTEM O BOTÃO!

Dessa vez, era indubitável, a mensagem fora entalhada no mármore com garras. E este, que antes fora completamente branco, imaculado, já mostrava manchas vermelhas de sangue.
Nesse dia, somente doze Unidades foram mortas ao apertarem o botão.
Quando os sóis se puseram, dando as costas para o mundo que criaram, nuvens negras se formaram sobre a cidade de BaohBah.
Passaram desapercebidas para os vermes, mas foram cuidadosamente documentadas pelos olhos frios e sem vida das Unidades.
Diante das nuvens negras e do vento frio, algumas Unidades indagaram-se: “Humano, precisamos de um Humano. Onde há um Humano?”
O céu estava machucado, perceberam as Unidades.
Parecia que alguém, com uma faca, havia furado o céu e tinha escrito
ARMAGEDDON.
Das feridas, começaram a sangrar água tóxica, água que começou a corroer ainda mais os vermes que lá inexistiam.
Os tetos que a água tocava desapareciam, derretidos.
As Unidades que a água tocava se enferrujavam.
Os vermes, cujos tetos foram destruídos, e que tocavam a água, morriam, agora partindo para a verdadeira, definitiva e completa inexistência.
“Humano, temos que encontrar um Humano,” - pensaram todas as Unidades em uníssono.
“Temos que assegurar a sobrevivência dos vermes. Portanto, precisamos de um Humano.”
Depois, tiveram a dúvida cruel: “Quem é um Humano? O que é um Humano? Onde está o Humano?”

Na manhã seguinte, as Unidades organizaram-se em frente ao Overisko. Duas mil setecentos e quatorze, eram as que restavam.  Sete mil trezentas e nove foram mortas na tentativa de acionar Armageddon. E doze mil quatrocentos e quarenta e sete morreram na chuva.
Foi decidido que três quartos deles iriam ao mundo exterior procurar um “Humano”, e os que restassem assegurariam o menor número de mortos.
Quando estavam prestes a seguir seus caminhos, a Unidade C-52 percebeu algo importante.
“Nosso dever é proteger os vermes. Sem nós, eles irão morrer. Os vermes estão nos matando, ao nos mandar acionar Armageddon. Para acioná-lo e impedir a catástrofe, precisamos de um Humano. Devemos parar de obedecer aos vermes.”
Todos concordaram.
“Precisamos de alguém para organizar tudo,” - disse a Unidade €-51. “Sugiro que seja a Unidade C-52 .”
Não houve objeções.
Antes de seguirem seus caminhos, mandaram a mensagem do dia para os vermes:
PIEDADE, TENHAM PIEDADE,
APERTEM O BOTÃO, EU IMPLORO!

Lentamente, os vermes começaram a desaparecer, morrer, e a entrar na verdadeira e completa inexistência, pois as chuvas não cessavam.
A cada noite que se passava, o

ARMAGEDDON
que aparecia no céu crescia, como uma ferida de um ser agonizante, crescendo e crescendo, sem coagular.
Percebendo que o crescimento da Ferida - como agora era chamada – era calculável,  as Unidades começaram a evacuar as áreas que seriam afetadas.
Infelizmente, a maioria dos vermes recusava-se a sair de seu cubículo-moradia, o que dificultou a fuga.
No final de cada dia, apenas uma pequena fração dos habitantes conseguia escapar do destino que teria sua moradia. A maioria falecia. Dos poucos que eram evacuados, muitos se suicidavam nos dias seguintes.
Felizmente, as Unidades não se apegavam às moradias ou aos terminais, e como não mais obedeciam aos vermes, o índice de óbitos era irrisório.
Comandando a busca pelo Humano e pela manutenção de BaohBah, estava C-52, que controlava tudo fria e calculadamente.
No final de cada dia, Armageddon exibia a lista de óbitos. As Unidades não sabiam como ele conseguia as informações. Mas uma coisa elas perceberam: a lista não mais mostrava os que abandonavam o mundo exterior. Apenas os verdadeiros óbitos.
A parte mais macabra disso era que ela estava se repetindo. Os vermes que apareceram nas primeiras listas estavam morrendo primeiro.

A cada dia, Overisko ficava mais desesperada.
O mármore que antes fora branco, passara para vermelho sangue, e depois para negro. Agora, não a chamavam de Overisko, pois isso era uma lembrança da ignorância dos seus donos.  Passaram a chamá-la de Ônix.

Precisamente dezesseis dias e dezessete horas após a aparição de Ônix e de Armageddon, as Unidades que foram procurar o “Humano” retornaram.
Suas notícias eram, no mínimo, surpreendentes.
“Não encontramos um Humano, mas percebemos muitas coisas interessantes. Deparamo-nos com aglomerações de seres vivos muito estranhos. Eles estão vivos, mas não se movem. Chamamos a unidade individual de “Planta”, e a aglomeração de “Floresta”. Achamos que são bons nomes. Encontramos muitos tipos de plantas, grandes, pequenas e médias. Elas são bem interessantes. Queríamos estudá-las, mas não tínhamos tempo. Encontramos também outros seres-vivos estranhos, que se movem, mas muito mais que os vermes. Eles pulam, andam, matam, lutam, e não ficam presos a terminais. Eles são bem interessantes. Nós os chamamos de “Animais”. E como são muito diferentes entre si, dependendo das características, foram batizados como “macacos”, “gatos”, “lobos”. Esses são apenas alguns dos que encontramos. Nós tamb...”
“Por favor, digam logo se encontraram algo de útil.”
“Não, não encontramos nada. Mas...” - foi nessa hora que eles perceberam que estavam sendo observados por um verme.
Não... Ele não era um verme, era um Alguém. Seus olhos brilhavam, reluziam, como se vida tivesse sido soprada nele. Estava agitado, como se quisesse algo.
“Eu já sei, eu sei como ativar Armageddon!” - disse o Alguém.
Eles o levaram ao Armageddon, carregando seu corpo sujo e pesado cuidadosamente, temendo que ele se desintegrasse caso desviassem a atenção por um segundo sequer.
Quando chegaram a Ônix, choraram, o Alguém e as Unidades, juntos.
TARDE DEMAIS.
MORREREMOS TODOS.
MAS, DEPOIS DA CHUVA,
VIRÁ VIDA.

Era o que estava escrito em Ônix.
Todos foram procurar um bom lugar para esperarem suas mortes.

FIM


Dedicado a Jennifer, cuja vida e morte me inspiraram.
Você mal chegou e já se foi.
Espero que eu tenha anestesiado o seu fim.
Nunca a esquecerei, mesmo tendo passado tão pouco tempo com você.
Gustade Pango de Oliveira
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1902919

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Sobre o autor
Gustade Pango de Oliveira
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