![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() |
Texto

O Dom
Creio que tudo começou graças a um filme antigo...
Uma mulher apaixonou-se pelo cunhado. Eram tempos de escravidão; de corpos e de almas. Por obrigação de família, foi atada a um coração indiferente. Viviam os três sob o mesmo teto. Virou propriedade. Os cachorros, dele, recebiam maior atenção. A paixão pelo cunhado eclodiu. Ficaram descuidados. Não tardou que o marido descobrisse. Entre um irmão descartável e uma mulher branca de fino trato, prenda rara, decidiu armar emboscada para o rival de sangue.
A amante mergulhou em crise de saudade. O ódio acelerou. Passou a olhar o marido com uma intensidade selvagem. O fazendeiro fugia-lhe às vistas. Começou a segui-lo, a espreitá-lo. Quando estava no campo, sentia ele aquela punhalada fria na nuca. Voltava-se e batia de frente com olhos que o devoravam. Os escravos perceberam. Benziam-se.
Aos poucos o homem secou. Perdeu o apetite. Definhou rapidamente. Desceu a uma cova ao lado do irmão.
A esposa plantou-se no quarto. Diante de um espelho começou a libertar-se. Queria reencontrar o amante. Encarando a si mesma, matou-se em questão de horas...
Eu tenho o mesmo poder. Daí a eterna venda nos olhos. Mesmo que não queira, temo fazer mal a outras pessoas.
Não posso retirá-la, apesar do que me pede. Sei que é a sua função, que acreditam que perdi o juízo, mas é necessário que assim proceda pela sua própria segurança...
Descobri o dom na infância. Jogava futebol com amigos no amplo quintal de nossa casa. A bola voou sobre o muro e caiu no quintal de uma vizinha. Um pequeno abacateiro nos servia de poleiro e de trave do jogo. Escalei-o e gritei para que pegassem a bola. Demorou até que a dona da casa aparecesse. Veio lentamente.
- Querem a bola? Mostrou-a. Em seguida puxou de um facão que trazia escondido às costas. Furou-a e nos lançou o couro morto.
Passei ao ódio. Tudo se constrói; até os piores sentimentos são cuidadosamente edificados no âmago de cada ser. Subia no abacateiro e, tendo conhecimento daquela história, lançava-lhe o pior dos olhares. De início nada acontecia, cheguei a achar que não funcionaria. Depois de duas semanas percebi que ela não mais aparecia. Indaguei na vizinhança. Ela caíra muito doente. Exultei com a possibilidade. Dias depois, morria misteriosamente. Meus pés flutuavam...
Com o correr dos anos aperfeiçoei-me. Queria matar em menos tempo. Adotei certos cuidados: não me encarava diretamente no espelho e nem aos que amava.
Caminhava pelas ruas, e pela escola, com os olhos baixos. Pretendia somente me defender de um mundo confuso e perigoso...
Certa vez, na adolescência, já bem avançado na técnica, picou-me uma abelha. Ao invés de esmagá-la, apliquei-lhe o tratamento. Tombou em pleno vôo, agonizou e morreu. Treinava diante de plantas e passei a secá-las, primeiro em dias, depois em horas até que o processo começou a ser quase instantâneo.
Enfeitei meus aposentos com textos e fotos dos meus ídolos: Rasputin, Merlin, Paracelso, Nostradamus, Agrippa e muitos outros.
Minha família achou que meus hábitos eram estranhos. Entretanto, temiam-me, pois tememos o que não sabemos explicar. Nossa convivência degenerou-se. Isolava-me cada vez mais. Fazia minhas refeições solitariamente. Um dia decidiram internar-me. Foi uma violência. Minha mãe chorava. Fechei os olhos enquanto me arrastavam para evitar feri-los. Não toleravam minhas roupas, as meditações, o sacrifício de animais e os incensos. Eu os compreendo. Não puderam aceitar o ritual de libertação que impus ao cachorro da família...
Todos nós, iluminados, que viemos para socorrer de alguma forma a humanidade, sofremos. Cristo na cruz, Gandhi baleado, Rasputin traído, Napoleão no exílio...
Basta fazer algo diferente e somos vistos como loucos. Sou mais letal que o pior dos venenos. Matei alguns pássaros e insetos no jardim da clínica para testar o poder.
Os enfermeiros alegam que eu o fiz com as próprias mãos? Ciúmes e intriga da força que carrego. Mas eu os pouparei. Sou uma força do bem, doutor. Não quero o pior, apenas desejo viver a minha vida carregando, voluntariamente, essa responsabilidade...
|
| Jurandir Araguaia |
| Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008 Código do texto: T991263 |
![]() | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Jurandir Araguaia é escritor goiano e publica regularmente no sítio:http://www.jurandiraraguaia.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. |
Comentários 
Obras à venda
Sobre o autor

|
Jurandir Araguaia
Goiânia/GO - Brasil, 42 anos, Escritor Entusiasta
331 textos (16340 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/07/08 05:02)
|
Site do Escritor
|
| Capa | Cadastro | Textos | Áudios | Autores | Mural | Fórum | Escrivaninha | Regras de Uso | Links | Anuncie | Ajuda | Contate-nos |