Texto

Lado a lado.

Lado a lado eu caminhei
Com a dor e a vaidade
Sem querer continuei
Fazendo a infelicidade
Para mim eu planejei
Um espaço de saudade.

Fiz a minha obrigação
Acalmando o mar revolto
Fiz sem ter procuração
Pra viver um pouco solto
E depois do vagalhão
Procurei não ser afoito.

Fiz dezenas de projetos
Para um dia ser feliz
Guardei muitos objetos
Quase todos eu mesmo fiz
No final ouvi meus netos
Dizer o que não se diz.

Vi meu filho encabulado
Numa escada sem degrau
Com a esposa lado a lado
De mim só falavam mal
De casa eu fui despejado
Fui morar em um curral.

Decidi viver a vida
De maneira cordial
Procurei uma saída
Para parecer normal
Fui fazer a despedida
No momento crucial.

Despedi da minha nora
Que fingia estar sofrendo
Fui andando casa fora
Vi meu filho se escondendo
Eu fingi olhar a hora
Pra sair de la correndo.

Lada a lado com a tristeza
Minha estrada eu caminhei
Nada tenho de riqueza
Porque nada acumulei
Mas restou grande certeza
Dessa turba eu me livrei.

Encontrei no meu caminho
Um lençol esfarrapado
Tinha no centro um raminho
Que ali foi colocado
E no ramo um passarinho
Que também fora bordado.

Ao lado do passarinho
A gaiola de madeira
Esperava de mansinho
Prender sua companheira
Para então o coitadinho
Esperá-la a vida inteira.

 Ao lado desse lençol
Vi passar um caminhante
Querendo esconder do sol
Que sentia fumegante
Esquecera o seu farol
Que lhe faz irradiante.

Vi passar um general
Comandando a guarnição
Montando num animal
Que mordia o seu bridão
Demonstrava ser fatal
Aquela situação.

Eu segui um pouco adiante
Encontrei minha mulher
Pensando estar eu distante
Fazendo o que bem quiser
Demonstrei naquele instante
Que não dou o que ela quer.

Ela quer ambigüidade
Numa casa de pensão
Não vai ter felicidade
Poderá faltar o pão
Não vai ter facilidade
Vai viver em um porão.

La encontrará meu filho
E também a minha nora
Os meus netos já sem brilho
Chegarão fora de hora
Será esse o estribilho
Do que vão ganhar agora.

Eu venci minha tristeza
Tenho paz pra prosseguir
Levo em mim a realeza
Que pensei não possuir
Hoje tenho uma certeza
Tenho alguém a me seguir.

Vendo o quanto caminhei
Lado a lado com a injustiça
Estou certo que ganhei
Um troféu na minha liça
No final aprimorei
O meu senso de justiça.
Renato Lima
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1904159
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Comentários
05/11/2009 07h12 - Dante Marcucci
Outro belo cordel...Mas os teus poemas são sempre "tristes", apesar de conterem sempre um final "nobre" e uma mensagem de esperança e justiça. Um abraço
04/11/2009 19h10 - Luconi
Cem textos, parabéns meu amigo, e este é maravilhoso,passa uma mensagem muito linda, estou te aplaudindo e estourando a champanha, que bom em frente, adoro o que escreves. Beijos Luconi
04/11/2009 08h53 - Loira Paulista
Muito interessante teu texto ... adorei "Numa escada sem degrau" ... gostei do teu jeito de escrever, tem muito rítmo, parabéns , mil beijos e bom dia.

Sobre o autor
Renato Lima
Vitória/ES - Brasil, 62 anos
117 textos (2791 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 08:58)

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