Texto

Construção...

Sou feito de muito barro
Que comi de uma parede
Das lascas de muitos jarros
Que traziam água pra sede

Sou feito da terra farta
D’um sítio escondidinho
Onde a majestade da mata
Me viu bem pequeninho

Sou feito de um baú
Da onde me projetava
Prum vôo no céu azul
Era verdade, ou sonhava?

Sou feito das brincadeiras
Numa rua que era Maria
Nos São João tinha fogueiras
Pra folguedo da alegria

Sou feito da rolimã
Do carrinho em disparada
Da bola de gude, no afã,
Finalmente encaçapada

Sou feito do arco e flecha
Das aspas de um guarda chuva
A seta atirada com pecha,
Zanzava, fazendo curva

Sou feito daquele momento
Em que, a pipa no céu,
Eu assobiava pro vento
Pra cumprir o seu papel

Sou feito do livro primeiro
Que Dona Rosa me deu
Pergunto até hoje, cabreiro
O Patinho Feio sou eu?

Sou feito da tela mágica
Cinema mudo na igreja
Tinha riso, vida trágica
Que na mente inda flameja

Sou feito de um relógio
Que parecia maluco
Aparecia de hora em hora
Gritava, falando cuco-cuco

Sou feito daquela dor
Que por mim não existiria
Quando o verdadeiro amor
Que a gente vê, já não via

Sou feito do primeiro amor
Que gota a gota se fez Pingo
Mistura de prazer e dor
Paixão de domingo a domingo

Sou feito de uma ousadia
Quando homem me tornei
Uma noite surgiu Maria
E sem saber, a amei

Sou feito de verso e rima
De um amor tão inocente
O doce amor de uma prima
E ao mesmo tempo tão quente

Sou feito de um bar Redondo
Bem em frente ao Oficina
Plínio Marcos se impondo
Vendendo livro na esquina

Sou feito de uma Simone
Que não é de Beauvoir
Mas, independente do nome
Me ensinou a “voar”

Sou feito das madrugadas
No cine clube Oscarito
Grande clâ de camaradas
Cada encontro era um rito.

Sou feito do Lua Nova
Que brilhava no Bexiga
Pink Floyd , contraprova
De outra casa bem amiga

Sou feito de um momento
Que por ele não esperava
Disseram de um nascimento
Bateram com minha aldrava

Sou feito do bucolismo
Da Áustria aqui no Brasil
Treze Tílias é romantismo
Que o artesão esculpiu

Sou feito de uma paixão
Cujo corpo era arte
Fadinha, vara de condão
Um sonho chamado Tati

Sou feito de um "insight"
Num momento de euforia
Se um dia fizesse arte
Seria o belo, a alegria.

Sou feito de uma lagoa
Para quem lhe falta Ceci
No verão, a vida à toa
Me esparramo no Peri

Sou feito destes momentos
Porém não há conclusão
Enquanto houver sentimento
Estarei em construção...
J L Silva
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1906953

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Comentários
06/11/2009 16h01 - Renato de Souza Lima
Boa tarde ilustre companheiro, parabens pelo texto, simpesmente lindo.
06/11/2009 07h55 - Trova Urbana
Zé da Silva meu amigo De Floripa residente Por meio desta venho lhe fazer um pedido Que espero que aceite contente Uma banda eu possuo De gravadora independente Em busca de inspiração eu voo Nunca atrás e sempre a frente Poderia este humilde compositor Utilizando sua poesia Criar uma musica por favor Prometo que farei o trabalho com maestria
05/11/2009 20h05 - Graci
Bela construção, espero que demore bastante até ficar pronta... parabéns, Graci

Sobre o autor
J L Silva
Florianópolis/SC - Brasil, 50 anos
28 textos (675 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 03:14)

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