Texto

O caminhante.

Sei que sou um caminhante
Mas não sei de onde venho
Onde passo estou diante
De uma roda de engenho
Vou parar só um instante
Pra falar sobre o que tenho.

O meu passo é demorado
Levo um peso sobre os ombros
Talvez seja o meu passado
Que eu levo como escombros
Mas no passo compassado
Posso vencer meus assombros.

Meu destino é caminhar
Pelo meu caminho interno
Gostaria de parar
Para fugir do inverno
Mas o que posso almejar
É voltar a ser eterno.

Não posso vangloriar
De ser justo caminhante
A muitos quis ajudar
Pra agradar a minha amante
Mas o que pude ganhar
Foi uma dor lancinante.

Registrei no escaninho
Que eu fiz pra colocar
Todas as pedras do caminho
Que tenho de preparar
Porém lá estou sozinho
Não consigo começar.

Coloquei na minha agenda
Uma data pra fazer
Correção em uma lenda
Que criei pra convencer
Que a fruta da fazenda
Faz o leite apodrecer.

Fiz também um comentário
Pra ninguém ignorar
Que eu era o emissário
Do governo no lugar
E por ser rico empresário
Poderia até matar.

Fiz do lar um ministério
Onde todos me ouviam
Repetia que o mistério
Era tudo o que eu queria
Era tanto vitupério
Que até eu percebia

O meu lar não resistiu
Minha queda foi fatal
A mulher não desistiu
Mas não resistiu ao mal
Isso tudo influiu
Para hoje eu ser normal.

Procurei minha cidade
Visitei várias adegas
La só vi banalidade
Gente caminhando às cegas
Vi também muita maldade
Por não se cumprir as regras.

Ao voltar para a fazenda
Encontrei só desconforto
Um engenho sem moenda
Uma casa sem conforto
Muita gente sem merenda
Enfrentando o desacordo.

Encontrei minha lavoura
Escondida no capim
Vi a moça com a vassoura
Enfeitando o seu jardim
Imitava uma cantora
Que também cantou pra mim.

A mocinha repetia
Que havia uma ilusão
No lugar que residia
Depois da sua união
Ela la esperaria
A sua consolação.

Ela não me conhecia
Assim pude perguntar
Se aquilo que dizia
Podia se confirmar
Ela para mim sorria
E voltou a trabalhar.

Disse que o seu casamento
Poderia até falhar
Mas o seu convencimento
Era pra continuar
Disse que a qualquer momento
O marido ia chegar.

Esperei só um pouquinho
E vi o rapaz chegar
Chegou bem devagarzinho
Esperando ela assustar
Ela então deu um gritinho
E correu para o abraçar.

Eu então reconheci
A moça com quem falei
Era a filha que perdi
Quando o lar abandonei
Hoje sabe que vivi
Procurando quem amei.

Fui até a sua casa
La eu tive uma surpresa
Havia fogão com brasa
Muito amor, muita pureza,
Vi que a filha me abraça
Com um gesto de nobreza.

Renato Lima
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1907982
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Comentários
13/11/2009 18h45 - Luconi
Pronto agora me emocionou, que lindo, a poeta tens a luz em teu coração, beijos Luconi

Sobre o autor
Renato Lima
Vitória/ES - Brasil, 62 anos
118 textos (2817 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 00:13)

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