Minha cabana.
A minha cabana é triste
Fica no alto da serra
É só uma que existe
E a minha saudade encerra
Ao tempo ela resiste
É tão linda como a terra.
Ela está no horizonte
De um caminho sem final
Tem em si perene fonte
Que sacia o animal
Começou atrás do monte
E me dá dia normal.
Seu telhado ressequido
De folhas de bananeira
Fez-me ser compreendido
Como alguém de vida ordeira
Também sou esclarecido
A cabana é sem goteira.
É uma cabana cheia
De sentimentos guardados
Alguém pode achá-la feia
Coisa de desocupado
Mas está em minha veia
O que sempre é comentado.
Ela mostra o fim do tempo
Mostra o quanto já vivi
Mostra que estou atento
Ao que sempre percebi
E também por que me prendo
Ao que sempre recebi.
Não tem porta nem janela
O piso é de chão batido
Tomo banho na gamela
Nela fico desvestido
O meu prato é a tigela
Onde como o que é servido.
Não preciso de tempero
Moro num solo sagrado
Aprendi com um tropeiro
Cozinhar bem temperado
Isso eu faço com esmero
Pra ficar alimentado.
Eu já fiz o meu fogão
Peguei lenha pelo pasto
Vou poder assar o pão
De milho bem fermentado
Vou usar o meu pilão
Para descançar sentado.
Na cabana eu vou fazer
Uma prece para Deus
Vou pedir pra ele ter
Paciência com os seus
E se Ele conceder
Salvará milhões de ateus.
Direi que a minha cabana
Não lhe servirá de templo
La não tem sequer banana
Pra servir de alimento
Porém lá está a faina
Pra mostrar o Seu exemplo.
Esse exemplo que eu falo
Pode ser um lavrador
Que não chega de estalo
Mas nos alivia a dor
Aproveita o intervalo
Pra mostrar o seu valor.
Pode ser um transeunte
Que passou por mero acaso
Deu conselhos que se ajustem
Antes que chegue o ocaso
E também que se consultem
Sobre o final do prazo.
Certamente eu não serei
Por que sou ignorante
Aconselhar eu não sei
Falo errado a todo instante
Mas também aprenderei
Pra seguir um pouco adiante.
Vou pedir pra me ensinar
Vou lutar para aprender
A lição vou estudar
Exercício eu vou fazer
Para assim continuar
A cumprir o meu dever.
Vou pedir que me ajude
Para eu poder mudar
Pra qualquer lugar que mude
Vou procurar me lembrar
Que desejam que eu estude
Pra depois ir ensinar.
Deixarei minha cabana
No alto daquela serra
Para quem buscar a fama
E pensar que nunca erra
Mostrarei que se engana
Vai voltar ao pó da terra.
Renato Lima
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908942
Parabéns amigo Renato. Excelente. Aprendi muito com seu cordel...palavreado bem interessante. Um abraço.
Que encanto de Cordel, Renato! Uma cabana no alto da serra, não tem portas, nem janela, o piso é de chão batido, isso demonstra a pureza de espírito, um coração sem maldade, alguém que despe-se de coisas supérfluas, que prefere a beleza conviver com as belezas naturais. Mas, convenhamos, deve ser maravilhoso ter um lugar assim, não é mesmo? Onde a natureza realmente impera! Parabéns, nobre poeta, por sempre nos encantar com seus magníficos cordéis!
Sucesso sempre! Tenha um maravilhoso final de semana.