Todo Mundo Nu
Todo Mundo Nu. Este era o nome da peça. Não sei por que meu pai cismou de querer ir vê-la, mas ele quis. Correção. Sei, sim. Meu pai era um santo homem. Muito religioso, pudico, bom. Mas se havia uma coisa que o fascinava era a beleza de um corpo nu, ou seminu. Especialmente um corpo feminino. Ríamos dele, de seu encantamento assistindo aos desfiles das escolas de samba pela TV, no carnaval.
Ele sorria, encabulado, dando de ombros, quase dizendo:
- Mas é bonito mesmo, fazer o quê?
Na ocasião, eu tinha pouco mais de dezenove anos e ele já não dirigia mais. Como ele sempre gostou de teatro e cinema e minha mãe, ao contrário, nunca foi muito fã de programas noturnos, acabamos nos tornando parceiros nas incursões culturais.
E assim, eis que, numa sexta-feira à noite, nos acomodamos para assistir Todo Mundo Nu. A peça segue o formato dos programas de humor tão nossos conhecidos. Eram quadros, esquetes rápidos de humor fácil. Nada de extraordinário, exceto pelo fato de que todos, no palco, estavam nus. Ah, sim! Descobriu tudo. Esta era a razão do título. Logo nos primeiros minutos da peça, meu pai começou a sentir-se incomodado. A ficha caiu de que eu era sua filhotinha, pura, inocente e virgem. Certo, não tão pura ou inocente. Mas, ainda virgem:
- Filha, quer ir embora?
- Por quê? - perguntei admirada, sem tirar os olhos do palco.
- Não sei, achei que você poderia estar sentindo-se desconfortável com essa situação...
- Não, pai. Fica tranqüilo.
Ele não ficou. Perguntou mais algumas vezes se estava bem ou se eu queria sair. Devolvi-lhe a pergunta, disse que para mim estava tudo bem, a peça era mesmo engraçada e eu nem estava prestando muita atenção no fato dos atores estarem sem roupas. Ele, convencido, relaxou e aproveitou o momento para dar umas boas risadas.
Eu não havia mentido. Depois dos primeiros instantes, a ausência de roupas não mais chocava. Isto é, tirando a cena do show de heavy metal, em que o guitarrista pulava em cena, as "coisas" balançando, subindo e descendo ao ritmo de seu corcoveado. Inevitável: mais uma vez meu velhinho perguntou-me se queria sair. Não quis. Assistimos ao espetáculo até o final. No caminho para casa, ele se desculpava pelo interesse por essa peça especificamente e eu insistia em que não foi nada demais.
Passado algum tempo, consegui uma filipeta de "Oh! Calcutá!", da Broadway, onde os atores aparecem todos nus, num trenzinho muito alegre. Levei para ele:
- E aí, pai... Vamos?
Ele riu. Não quis.
Por que será?
Nena Medeiros
Publicado no Recanto das Letras em 11/08/2008
Código do texto: T1122758
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