O Esquecido
Já era a noite antes do casamento, e ele tinha um problema: não conseguia lembrar o nome da amada. Seria Carla? Não, não, era
Jéssica, com certeza. Espera ai, Jéssica é meio adolescente. Devia ser algo como Maria.
Ouve-se a mulher apagar a luz do banheiro e abrir a porta, dali a pouco já estava no quarto, preparando para dormir.
Tentou definir um nome olhando para ela, loira e bonita. Talvez Flávia...
- Está excitado? O nosso grande dia finalmente chega, amanhã. Espero que mamãe não faça toda aquela cena, de emocionada. Papai não vai gostar, nunca foi muito do nosso namoro - ela falava e falava. Seria uma Taís?
- Você revisou a lista de convidados, como pedi? Sei que revisou. Ainda bem que lembrei de desconvidar aquele Mário, que me enche desde a escola. A tia tinha uma quedinha por seu irmão mais velho, por isso insistia em nossa amizade. Poderia até ter casado, se não achasse você.
Ainda nada. Na verdade, não conseguira lembrar como se conheceram. Foi deixando de lado, e acabaram noivos. Não prestou atenção todo aquele tempo, e agora era tarde. Casavam-se amanhã, com cena de mãe e ex-namorado. Sentiu um peso nos ombros, e algo o incomodava na garganta.
Ai, imagine só o vexame. No casamento, e sem conseguir lembrar o nome dela. Era pior até que deixar no altar, sozinha, desiludida. As duas famílias, o olhando, praticamente sem acreditar que esquecera a droga do nome.
E a mulher continuava a tagarelar, e enquanto fingia que ouvia, ia tramando: “Talvez enquanto ela dorme, acho sua bolsa, olho sua carteira de identidade”. Percebeu o absurdo - “Eu aqui, na noite do casamento, tramando contra minha noiva, e droga, futura esposa, pois não consigo lembrar o seu nome”.
A luz se apagou, e se deu conta de que a mulher havia parado de falar e tinha ido dormir, com um sorriso na cara, internamente celebrando seu bom-partido.
“É isso,” - pensou - “tenho de fugir. Mas para onde, meu Deus? Estou na casa dela, e se bobear nem sei onde fica. Será que ainda estou com a minha chave?” - se deu conta que já moravam juntos.
E agora? Como poderia desertar, logo antes do casamento, sua excitada noiva, fugir de sua vida, escapar das responsabilidades? Como iria olhar para a própia família depois dessa? Será que já sabiam? “Claro que sim!” - pensou - “Estamos na noite antes do casamento”.
Não viu mais solução. Silenciosamente se despiu dos pijamas e vestiu uma roupa simples, calçou o tênis e saiu pela rua. E ainda hoje se pergunta como teria sido a vida se houvesse se casado com a mulher.
Pedro Mendes
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681962
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