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A Droga do Nariz

  Era uma pessoa normal, com uma vida regular. Só tinha algo que, há muito, o incomodava, e não o deixava de lado: uma baita coceira no nariz.

  Começou quando pequeno, tinha uns 9 ou 10 anos, e sentiu uma coceirinha. Coçou, e não parou mas. Já fazia mais de 30 anos que seu nariz coçava.

  Isso havia lentamente o levado à loucura. Noites em claro, coçando o nariz. Médicos e mais médicos olharam, não acharam nada. Chegaram a arriscar dizer que era caso psicológico, mas isso é absurdo. Não era louco, apenas o nariz coçava, e muito.

  Os familiares sempre estranhavam, toda aquela coceira no nariz. Fizeram reza, macumba e tudo mais, e não passava. Começaram a suspeitar uma ligação diabólica, o deixaram de lado. Ele ria da supersticiosidade das pessoas, e coçava o nariz.

  Um dia embalou, foi coçando, coçando, coçou tanto que o nariz saiu. Quando tirou a mão, lá veio o nariz junto. Olhou para ele, o analisou. Foi a um espelho e confirmou, realmente havia coçado o nariz pra fora.

  E o homem cada vez mais doido. Como ia fazer agora, sem nariz?

  E pior que ainda o coçava. Não o próprio nariz, já arrancado, mas era como um membro fantasma, daqueles que adquire quando se amputa algo. Para ele era um nariz coçante, e droga, não havia como coçá-lo.

  Que direito tem esse nariz de continuar a importuná-lo? O que havia de fazer nesse mundo, meu Deus, para aquela droga parar de coçar? Num ataque de raiva, lançou o nariz ao chão, o pisoteando.

  A coceira já crescia, precisava de um alívio. Pela sua vida já havia tentado todo tipo de remédio, mas nem drogas aliviavam.

  A coceira já o dominava, já o jogava aos joelhos, implorando a Deus e o mundo que cessasse, já não aguentava mais.

  Acabou morrendo, umas semanas depois. “Muito estresse, loucura” - explicavam os médicos. A família nem deu muito.

  Ficou para seu filho uma caixinha, com o tal do nariz, que não parava de coçar. Teve medo (e um pouco de nojo) de abrir aquilo, e foi ficando pro neto. O mesmo, sem ter ouvido a história, abriu a caixinha. Ficou assim, olhando, desnorteado (e um pouco horrorizado) para o nariz, já todo decomposto e comido, apodrecendo. E bem naquele momento, sentiu uma coceira no nariz.
Pedro Mendes
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681980

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Sobre o autor
Pedro Mendes
Rio de Janeiro/RJ - Brasil
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