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TRIBUTO A IRINEU


 TRIBUTO A IRINEU
       
        Hoje lembrei-me de Irineu, com um misto de  saudade e frustração. Explico: Irineu era  um “cabra” nordestino dos bons, filho de pais  humildes, natural de uma cidade interiorana das Alagoas, chamada Junqueiro. Ele e mais cinco irmãos dentre os quais duas meninas, estudaram e se formaram graças à determinação de sua mãe, D. Maria, que após ficar viúva ainda jovem, abdicou de tudo para  dar educação e formação intelectual aos seus rebentos. Com extrema dificuldade mas  amparada e orientada por Deus, como gostava de dizer, alcançou a graça de  ver seus filhos bem encaminhados para a vida. Um fotógrafo, uma professora, e até mesmo um padre. Os meninos de D. Maria não a decepcionaram. Mas vou deter-me em Irineu, que  foi quem eu conheci aqui no Rio de Janeiro.
      Ainda menino e morando num bairro de subúrbio, recordo-me das visitas que Irineu nos fazia esporadicamente aos domingos, trazendo notícias frescas  da “terrinha”.  Quem casou com quem, quem  morreu, quem prosperou, quem mudou-se etc...  ele era por assim dizer, uma espécie de “embaixador” das  Alagoas aqui no Rio de Janeiro, encargo que cumpria com grande desenvoltura e competência. Minhas restrições em relação a ele eram, entendo hoje,  perfeitamente naturais, já que, quando das suas visitas,  meus pais ficavam a tal ponto entretidos com as suas histórias e novidades que não sobrava espaço pra mim. Lembro-me de que ele falava muito a respeito de leis, direitos, justiça, sindicato, pelego, patrão, união, uma linguagem incompreensível e desinteressante para um menino como eu.  Era operário, tecelão de ofício. Estudou pouca coisa de eletrônica, mas por suas características inatas aprendeu muito mais do que estudou e dedicava-se nas horas vagas  a  consertar os aparelhos eletrônicos dos seus conterrâneos por pura generosidade, pois, se algum deles se insinuasse a falar em pagamento ele se aborrecia. Era um benfeitor.
        Seu repertório de causos curiosos era inesgotável e este que passo a narrar considero um dos mais interessantes. Contou-nos certa vez (aí eu já era adolescente) que uma senhora da sociedade alagoana pediu-lhe que comprasse aqui no Rio e os enviasse, sem preocupação com preço,  todos os artigos da grife “IOIO,  à época, segundo ela, o que havia de mais sofisticado em cosméticos femininos comercializados na então Capital da República. Ele incansavelmente  percorreu todas as lojas de cosméticos  que havia no centro da cidade, periferia e subúrbios, sem que ao menos um vendedor sequer conhecesse  os desejados produtos da marca “IOIO”. Frustrado, escreveu para a senhora informando que não medira esforços para adquirir a encomenda, mas devido à enorme procura os produtos estavam em falta, mentiu ele.
   Inconformado por não dar cabo da missão, continuou  pesquisando e tempos mais tarde descobriu casualmente que a denominação correta da tal grife não era “IOIO  e sim 1010 (mil e dez), o que na grafia é muito semelhante, foneticamente tem uma diferença abissal. Comprou finalmente todos os produtos  e os enviou à tal senhora, pedindo ainda desculpas  pela demora. Era assim o bom nordestino.
  O tempo passou, as visitas escassearam e Irineu, com problemas de saúde, já não podia mais fazer o que tanto gostava, o velho “embaixador” começava a sucumbir perante os golpes do tempo. Foi quando eu o conheci verdadeiramente e tive a oportunidade de ouvir e entender as suas opiniões acerca dos fatos da vida, algumas beirando a intransigência admito, porém extremamente lúcidas. Ouvi-as embevecido. E numa ocasião em que falávamos de política e políticos, um de seus assuntos prediletos, na falta de argumento, arrisquei um gracejo: Sabe meu amigo, sempre há uma luz no fim do túnel, só que eu acho que desta vez é o trem. Ele riu, e aquela gargalhada sonora, inconfundível, ficou registrada em minha memória.
 Tempos depois fui visitá-lo no hospital, sua saúde estava precária, mas ele mantinha o  mesmo bom humor de anos atrás. Quando me viu, percebi sua satisfação. Fez um esforço para levantar-se de seu leito e com aquele sorriso já não tão largo, mas o melhor que pode,  perguntou-me: e aí meu amigo será que é mesmo o trem? E voltou a gargalhar. Foi a última vez que o vi.
Ah,  a frustração a que me refiro no início do texto é  a de saber que embora estivesse  tão próximo, muito pouco compartilhei,  principalmente por um impedimento cronológico, com as idéias e opiniões de Irineu.

             Zeleo/Jul/09.
zeleo
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1682015

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Comentários
06/07/2009 10h56 - Carlos Sant Anna
É meu caro Léo! valeu a pena esperar, seu texto ficou perfeito, bom...Mas, isso não é nenhoma novidade! A respeito de Irineu. Ainda existem muitos pelo mundo...Porém não são observados devidamente. Uma pérola de crônica amigo! Parabéns! Tem certeza que não quer uma crônica dominical para alegrar a leitura do povo Brasileiro? Sucesso irmão!
05/07/2009 22h13 - EDNA LOPES
Amigo, estou comovida com seu texto.Suas lembranças, seu carinho e amizade, mesmo tardios a este carismático conterraneo, são um exemplo de sinceridade e leveza de alma.Um abraço e obrigada, sempre.

Sobre o autor
zeleo
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 56 anos
19 textos (742 leituras)
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