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Sobre o que a espera pode trazer

Ela sempre esteve lá. Sim, todos a viam menos aquele a quem ela mais interessava. Todos os dias era a mesma coisa. O rapaz, sempre, ao pisar na areia pensava: “vai ser hoje”. E assim passavam-se os dias.
Ele sabia o que procurava. Sabia também que devia procurar, “quem procura acha”, não era assim que diziam? Mas não, no amor as coisas não ocorrem de acordo com as leis naturais das coisas. O amor não tem critério, não tem regras, não vem com manual ou qualquer coisa o explique. Infelizmente, devido ao fato do garoto não observar nada ao seu redor senão algo que o levasse a encontrar o que tanto esperava, ele não sabia da imprevisibilidade do amor.
Um dia, ele encontrou um velho e contou toda sua história, inclusive sua busca. O velho ouviu-o atentamente e o aconselhou a desistir porque sabia, por experiência própria, que as melhores coisas da vida aparecem quando menos esperamos.
O menino decidiu seguir seu conselho e parou de procurar. Passaram-se alguns anos e ele, agora já um homem, acreditou que havia deixado de procurar, mas não, a situação até piorara, agora seu coração a procurava não só nas areias, mas em todos os lugares.
O homem chegou então à velhice e, finalmente, conseguiu desprender-se de tudo, inclusive da imagem da bela moça que, na sua mente, já não era também mais jovem.
Quando aquela história já não o interessava mais e ele se tornara somente um mero observador das coisas do mundo, ele a viu, foi tudo muito rápido. Ele pensou em acompanhá-la, mas suas pernas já não se moviam com a rapidez da juventude. Pressentiu que aquele seria o último esforço e talvez que verdadeiramente valeria a pena em toda sua vida.
Aos poucos, a jovem foi se distanciando e já começava a desaparecer. Porém, algo também acontecia com aquele velho. Seu corpo estava cada vez pior em consequência da velhice, mas ele se sentia cada vez mais jovem e livre. Sabia que não podia e muito menos devia voltar. Havia esperado por aquilo a vida inteira.
De repente, ele já não estava mais onde pensava estar. O velho estava na moça e ela nele. Eram um só. Não sabia para onde ia. Não sabia nem o que esperar dali em diante. A única certeza que tinha era que não tinha encontrado o que esperava todo esse tempo, mas o que devia ter esperado.
Ricardo Casablanca
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1905451

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Sobre o autor
Ricardo Casablanca
Fortaleza/CE - Brasil, 19 anos
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