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Meus 13 Anos

Recentemente estava lendo uma matéria na revista Isto É, sobre os novos adolescentes de 13 anos, como estão amadurecendo mais cedo e coisa e tal. Sabe, esse é um tema bem explorado. Tem até aquele filme, “Aos 13”, com a Evan Rachel Wood, ex-affair do Marilyn Manson.

Identifiquei-me muito com este filme. Quando eu o assisti, tinha quinze anos. E tinha voltado a ser uma adolescente tranqüila e certinha. Mas nos meus 13 anos, eu era o oposto. Eu sempre fui uma menina tranqüila, pacata e estudiosa. Aos doze, era calma e ingênua. Gostava de assistir desenhos na TV, ler, escrever e desenhar. Colecionava figurinhas e trocava com os garotos da escola. Vestia a primeira roupa que encontrasse na gaveta, e geralmente era a mesma, pois eu achava desnecessário me “emperequetar” toda só pra ir à escola.

Eu era uma menina, digamos, desacreditada. Mal vestida, mal penteada e falando de super-heróis a todo tempo, as outras adolescentes não viam nenhuma vantagem em ter minha amizade. Eu era a nerd feia e bitolada com aquela coisa de desenho japonês.

Nessa época, começou o interesse por garotos. Mas os garotos mal me olhavam. Então reparei que as meninas mais lindas e atiradas da escola eram as que mais faziam sucesso com o público masculino. Então decidi rever meus conceitos. Reformei o guarda-roupa, joguei fora aquela bagulhada de desenho japonês e comecei a pensar e agir como toda adolescente “normal”. Até comecei a assistir aquela porcaria de Malhação, comprei aquelas revistinhas estúpidas da TodaTeen e Atrevida e coisas do tipo.

Fui aceita no time. Logo, andava com aquelas garotas “super-poderosas”. Passeávamos, cabulávamos aula, fumávamos, bebíamos, flertávamos. Tinha muitos “amigos”, era o paraíso na terra! Todos os garotos me achavam bonita. Confesso que virei a cabeça e dei as costas a velhos amigos, mas o que importava? Eu era popular agora.

Saía de casa e dizia a minha mãe que estava indo à escola. Realmente, eu ia, mas nem chegava a entrar. Ficava na pracinha com as amigas, jogando conversa fora. Íamos a uma padaria comprar cigarros. Uma vez, fui comprá-los com uma amiga de minha idade e o vendedor perguntou:

- Quantos anos vocês têm?

- Temos dezoito anos! – respondeu minha amiga, calma, vestida em sua minissaia.

O homem nos vendeu os cigarros – daqueles com cheiro de menta, canela, enfim. Compramos umas partilhas também, pra disfarçar o hálito quando voltássemos para as nossas casas.

O homem ainda disse:

- Meninas, vocês vão acabar com a vida de vocês.

Não importava. O que interessava era que tínhamos os cigarros.

E assim vivíamos essa vida errante. Cigarros, namoros, bebidas, muito funk, brigas, bullying e nada de estudos. Havia amigos que usavam drogas, fumavam maconha e usavam coisa pior, mas eu nunca passei do cigarro – que por sinal, me proporcionava grandes engasgos e até hoje me causa repulsa e alergia.

Então aconteceu uma coisa boba. Tínhamos que fazer um trabalho sobre drogas. Acontece que no meu grupo ninguém quis saber, jogaram a responsabilidade pra cima da nerd aqui. Fui à biblioteca e me afundei nas revistas e livros. Acontece que o que eu li me fez despertar para a realidade. Achei uma tolice tudo o que estava fazendo e larguei o cigarro, simples assim. As imagens de pulmões podres, pernas amputadas, dentes estragados e a possibilidade de mau hálito me impressionaram.

Ao ver o empenho dos meus pais em me dar um futuro digno, finalmente me dei conta da besteirada toda que estava fazendo. Voltei a me concentrar nos estudos, voltei a ser a “caretona” de sempre. E as meninas super-poderosas se afastaram. Mas eu não sentia falta delas. Voltei a me relacionar com os antigos amigos.

Tempos depois, vi muitas daquelas garotas engravidando precocemente, se amasiando, largando os estudos... minha amiga, a dos cigarros, morreu aos dezesseis anos atropelada por um trem. Essa linha fica numa favela aqui da cidade, lugar negligenciado pela prefeitura, reduto de muitos traficantes e maconheiros. O que ela fazia lá? Só Deus sabe. Tinha saído da casa da mãe, tempos atrás. Aos quatorze anos, se amasiou com um sujeito, não deu certo e ela foi morar com uma amiga nesse bairro onde aconteceu a tragédia.

Hoje em dia não tenho contato com aquelas jovens. Todas elas têm entre 20 e 22 anos. A maioria já tem seus filhos, poucas prosseguiram nos estudos, raras entraram para uma universidade. Na verdade, que eu saiba, nenhuma delas entrou. Meninas que antes eram lindas e admiradas, hoje não têm mais o corpo bonito que tinham. Precocemente acabadas e cheias de responsabilidades. Cadê o todo aquele glamour, influência e poder? No fantástico mundinho da escola, eram as estrelas do show. No mundo cruel da vida real, são simples estatísticas de jovens mães, desempregadas e pessoas de pouca instrução.

Continuo vendo essa história se repetindo todos os dias. Os próprios pais não percebem, mas eu, que vivi essa situação, reconheço a quilômetros uma menina que está entrando nesse caminho errante. Sei o que é uma jovem em natural transformação e uma jovem que só está mudando seus conceitos para aparecer e ser aceita.


Digo por experiência, que isso não é nada bom. Eu, felizmente, acordei antes que a coisa ficasse mais séria. Não passei de uns cigarrinhos – bem mal fumados por sinal – e uns beijinhos de porta de escola. Mas houve garotas que engravidaram cedo, não ficaram com os namorados, contraíram doenças, algumas abandonaram suas famílias e ainda há aquelas que se fazem de santinhas até hoje.

Por essas e outras, continuo a dizer: não vale a pena mudar seu jeito de ser para agradar aos outros ou mesmo para ser aceito em algum grupo. Seja mais você, valorize-se mais. Pra você, adolescente, a vida não é só esse mundinho da escola e os colegas que em muitos casos nem lembrarão mais da sua existência daqui a poucos anos. Abra os olhos para a vida e o futuro que existe lá fora. E pais, conversem mais com seus filhos e procurem saber com quem ele está andando.
Dama dos Mistérios
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1905538

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Comentários
22/11/2009 18h25 - Lord Daniel Salem
É isso que realmente acontece... E é muito triste! Em vez de serem a si mesmos, e não dar atenção para os outros falam de si, preferem o contrario; dar atenção, e não percebem que estão acabando com a sua própria vida. Eu tenho uma amiga (faz tempo que não há vejo), que eu tente ajudá-la, mas ela não estava nem aí. Ela ainda fuma cigarro, e recebi uma noticia sobre ela que, agora ela está gravida, e só tem 19 anos.

Sobre a autora
Dama dos Mistérios
Cubatão/SP - Brasil, 21 anos
13 textos (2122 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 10:39)

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