Mulher, sexo frágil? Creio que não...
A mulher é o famigerado sexo frágil. Bem, pelo menos é isso que ouço desde que me entendo por gente. Por outro lado, o homem é o sexo forte, o machão, “nervos de aço”. Homem não chora. Mulher, ao contrário, é manteiga derretida por natureza. Contudo, nos meus vinte e um anos de vida, venho observando fatos que me fazem questionar esta “tese”, ao menos em termos.
Conheço uma pessoa do sexo masculino, muito querida minha que, em seus quarenta e poucos anos, viveu dez deles fechado em si, não conseguindo se abrir a nenhum relacionamento sério e duradouro por muito tempo. O motivo de sua frustração se devia a uma profunda desilusão do passado: aos vinte e nove anos, namorava uma mocinha de dezesseis. Ele nutria por ela um sentimento singular, algo que nunca sentira antes. A relação ia às mil e uma noites, digo, às mil maravilhas. Então, em meio àquela “folia” toda (como ele mesmo disse), a adolescente anuncia à queima roupa: “Estou grávida e vou abortar. Não quero isso pra minha vida”. Pronto. Aquelas palavras foram o suficiente para arruinar os sentimentos daquele homem apaixonado – apaixonado e inconseqüente, pois ele disse que sabia muito bem o que fazia quando engravidou a moçoila, pois ele viu que estava na hora DELE ser pai e constituir família, não levando em conta a opinião da jovem. Enfim, num momento, ele estava feliz com o fato de ser papai; no outro, estava decepcionado e chocado com aquela mulher fria que ameaçava matar seu lindo bebê.
Parcialmente recuperado do choque, ele dá seu ultimato: “Se você fizer isso, não perderá apenas um. Perderá os dois!”.
A moça pensou, ponderou, e não abortou. Mas ele diz que sua ex confessou que havia tomado uns remédios, que obviamente não surtiram efeito, pois sua filha hoje conta com seus saudáveis e danadinhos treze anos de vida.
Enfim, os dois moraram juntos cerca de três anos, mas o amor que ele sentia por ela não era o mesmo. Ele disse-me que “algo morreu dentro dele, o sentimento não era mais o mesmo, murchara”. Esses três anos conjugais foram marcados por desentendimentos, ciúmes, cobranças e instantes que ele diz que “se não fosse o homem calmo que é, teria cometido uma besteira e hoje estaria amargando na cadeia”.
Separado, ao longo de quase dez anos, teve diversos affairs passageiros. Tornou-se desiludido em relação às mulheres. Tinha medo de sofrer outra decepção, de se enganar outra vez.
Dia desses, conversava eu com uma amiga que me é muito estimada. Passando maus bocados com um amor não correspondido, após alguns goles de chope e jurupinga, ela me contou a breve história do homem que ela acredita amar: Foi casado duas vezes. Traído pela segunda esposa. Nunca se recuperou do “golpe”. Desde então, passou a descontar em todas as namoradas que arranjava: conquistava-as e depois as traía com a naturalidade que lhe é peculiar. Brinca com sentimentos, usa, descarta e assim vai levando a vida. As mulheres são simples objetos para ele. Não acredita nelas. Julga-as tinhosas, maliciosas, devassas e infiéis.
E assim, a mulher sempre foi vista como um ser traiçoeiro, impuro. Nas diferentes religiões e culturas existentes, o sexo feminino sempre foi considerado o culpado de boa parte das moléstias que se abateram sobre a humanidade. Eva foi tola e “desvirtuou” Adão. Ele era inocente e bom, deixou-se levar por aquela mulher que lhe oferecia o fruto proibido; Pandora, curiosa, abriu a caixa e espalhou toda a sorte de infortúnios que se alastrou mundo afora. Pobre do seu marido Epimeteu, que confiou cegamente naquela mulher...
Enfim, a mulher sempre é vista como a vilã da história. O homem, a vítima. Existem mulheres que por mais que apanhem da vida, continuam dando suas cabeçadas. Por outro lado, há homens que, ao primeiro infortúnio, jogam a toalha. Crêem piamente que mulher é tudo igual, que vai acontecer de novo. Os sentimentos se abalam.
Em Branca de Neve, da Disney, a certa altura do filme Zangado diz: “Anjo? Ela é mulher! E as mulheres são falsas, cheias de sortilégios.”. Mais machista impossível, não acham? É, meus caros leitores, mensagem subliminar na veia! Mas isto não é foco deste texto.
Continuando... Ouvindo essas historias e observando a frustração desses homens traumatizados e desiludidos com seus relacionamentos frustrados e descontando suas desventuras em toda mulher desavisada que cruza seus caminhos, chego à conclusão que o homem tem sim sua pitada de “sexo frágil”.
Por fim, quero deixar claro que não sou feminista e que apenas venho aqui deixar meu ponto de vista. Também tenho plena consciência de que as coisas nem sempre são assim, que variam de pessoa pra pessoa. É relativa. Existem homens e homens, não podemos generalizar. E do mesmo modo, não se pode generalizar que a mulher é o sexo frágil, ainda mais quando isso se dá de maneira pejorativa.
Dama dos Mistérios
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1905542
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