A mulher que tú nos destes
Tantos discursos. Tanto blá-blá-blá. O outro foi capaz de pôr a culpa em mim... Covarde! Tudo porque, num dado momento eu resolvi ser. Apenas isso. Conduzir em vez de ser conduzida. De boneco de marionetes a indivíduo, um erro fatal. Será?
Hoje vejo além. Eu me vejo. Antes, tão louca, falava com bicho, tecia diálogos... Mas não era capaz de me ouvir. Nem ao menos sabia quem era essa figura que as claras águas do rio refletiam. Mas sempre soube que podia ser mais. Meu bicho mais querido, com quem eu mais conversava, dizia isso constantemente. Hoje entendo que o bicho era eu, a serpente dentro de mim com sinuosas indagações. Afinal, se o jardim é meu, se foi feito pra o meu deleite, porque há nele uma arvore de fruto doce do qual não posso comer? E, porque justamente nele encontro respostas cujas perguntas nem deveriam existir? O próprio Divino fez questão de dizer que esse fruto é o conhecimento em si, é fonte de bem e mal, é o próprio saber. Como cheira bem esse fruto e como é saboroso... Se alguém colocou tamanha delícia no meu quintal é por que no fundo queria que eu provasse!E eu provei... E finalmente me vi. Nua. Bela. Inteira. Cheirando à terra. Com um horizonte à frente, finito, porém imprevisível, pronto pra ser construído por mim. A eternidade nunca me atraiu. O finito me faz ter pressa. E a pressa, querer mais. O outro lá, o macho, chora a morte e o trabalho. Eu não choro. Eu vejo. Vislumbro cada descoberta minha, dos meus filhos e netos. Coisas e coisas, boas e ruins. Sonhos e guerras que faremos todos, geração após geração. Então aprenderemos (ou não) com nossos erros e viveremos a fantástica aventura de ser. Humano, simplesmente.
Então, o que dizer de mim? Foi a mulher que tu nos destes? Sim! Eu. Eva. Mãe. Mulher. Eu que quis saber mais. Eu, o primeiro ser humano que brincou de ser Deus. Ele que, por soberana vontade pôs a árvore lá, já sabendo do meu potencial investigativo. Ele quis ver o circo pegar fogo. Porque a graça depende do erro. Porque um mundo cheio de Adãos não sai do lugar.
Déda Lizz
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
Código do texto: T1905581