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JAIR PINGUÇO

Tremendo violonista, o Jair era um amigo nosso, nascido e criado no bairro da Renascença, funcionário da Prefeitura Municipal de Bêagá, boa praça, grande figura.
Gostava de tomar sua cachacinha e vivia quase sempre “mamado”, como se dizia na época. Nem porisso deixava de ser o grande músico que alegrava as noites nas barraquinhas da Igreja de Santo Afonso, tocando junto com o Seu Constantino (saxofone), meu saudoso pai, e seus filhos, o Aécio no acordeom, eu no pandeiro e no vocal, o Rubinho fazendo dupla com o Jair nos violões, e o Zé Afonso ao cavaquinho, acompanhando as músicas em sonoros e belíssimos acordes. Na bateria, Antonio Feio, amigo nosso, segurava o ritmo.
Jair Pinguço, como passou a ser conhecido em razão dos seus porres homéricos, sempre fazia das suas. Meu pai se descuidava um tiquinho e ele descia do palanque onde nos apresentávamos, nos intervalos, e ia às barracas das cozinheiras, lá por detrás, molhar o bico, bebericando umas e outras. Voltava meio bambo, pigarreava, cuspia grosso, acendia um cigarro, empunhava o violão e seguia o Rubinho no acompanhamento. Às vezes o odor da cachaça era insuportável para nós, jovens ainda. Mas o Jair não tomava jeito. Era um vício maldito, coitado.
Certa noite, um sábado, as barraquinhas repletas de gente, as “baianinhas” servindo a freguesia nas mesas, com entusiasmo, levando cerveja pra lá, guaraná pra cá, pasteis e tira-gostos de toda sorte, quando o locutor, Antonio Sampaio,  aproveitou a pausa na música  e anunciou o leilão de um frango assado recheado. Era mais uma forma de se arrecadar o dinheiro dos fieis para as obras sociais da igreja.
Mal o leilão começou, um sujeito gritou lá do fundo o primeiro lance, outro sapecou uma oferta maior e assim foi. Quando o frango já estava bem inflacionado no seu preço (o padre ria até as orelhas), tanto pelo entusiasmo dos presentes como pelos eflúvios do álcool já correndo nas veias e nas cabeças de todos, surgiu uma discussão entre os ocupantes de duas mesas vizinhas.
Uma “baianinha” foi lá tentar apaziguar os ânimos, levou um empurrão, sua cesta de pasteis caiu junto com  ela e a molecada atenta disputou aos tapas a guloseima. Aí a briga começou de fato. Porrada comendo adoidado, garrafas voando, correria, o diabo! ...
Depois de alguns minutos naquele desentendimento, a calma foi restabelecida por meia dúzia de guardas-civis de plantão,  alguns valentões foram conduzidos ao “rapa” e tudo serenou como se por encanto.
Aí meu pai deu por falta do Jair Pinguço. Chamou por ele ao microfone e nada! Nisso, o Rubinho, o mais novo do conjunto musical, agachou-se, olhou por debaixo de algumas mesas e tamboretes que ficaram amontoados num canto após a refrega, e vislumbrou o Jair todo sujo de farofa, com uma coxa de frango na mão, babando e xingando:-
“- Vem, cabra safado, filho da puta! ... Chega mais, seu corno! ...”, e brandia a coxa de frango pra lá e pra cá, tentando acertar seu inimigo invisível.
“- Ah, seu descarado,  você está aí, né? E agora? Quem vai pagar o frango assado que você pegou lá na cozinha, pra entrar nessa briga de foice?...”, cobrava a Dona Marieta, carola e cozinheira chefe das barraquinhas da Renascença.
Meu pai se acercou e ela completou a bronca, espumando de ódio:-
“- Viu, Seu Constantino? Ele pegou meu maior frango, todo recheado, uma beleza, e saiu dando bordoada em todo mundo. Queria que o senhor visse! O frango havia de pegar o maior preço no leilão desta noite! Mas o Jair, essa peste,  esfarinhou tudo, oh meu Deus!"

-o-o-o-o-o-

B.Hte., 01/04/97



RobertoRego
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1905665

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Comentários
Muito bom e engraçado! Bjs!

Sobre o autor
RobertoRego
Belo Horizonte/MG - Brasil, 70 anos
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