Desabafo de Uma Menina Supostamente Má
Há alguma verdade naquele que só ama na esperança de um ganho, de um lucro, de uma vantagem?
Não, não se trata de mais um daqueles meus textos que começam com enigmas bem bobinhos, cujas respostas eu coloco em letras minúsculas ao final de toda a minha verborragia. Dessa vez eu não venho com charadas, muito menos com a solução delas. Comecei e sigo essas linhas apenas divagando irresponsavelmente sem saber aonde isso vai dar.
Mas continuemos...
Li 'Travessuras da Menina Má' (de Mario Vargas Llosa) em 3 dias. Ou melhor, me alimentei do livro durante 3 dias. Terminei ontem, em meio a lágrimas e uma pontada bastante amarga de resignação.
Lágrimas de resignação?
Sim e não.
Já estive presente em letras de música, já me escondi em personagens de comédia romântica, já fui o estereótipo de cantora pop e até uma doce figurinha de desenho animado já encarnei. Um certo alguém há muito tenta me convencer de que sob a sua ótica, já fui todas essas lembranças e muitas outras mais. A propósito, nos últimos tempos também fui descoberta por ele nas múltiplas faces da ‘protagonista-antagonista’ desse livro, motivo pelo qual insistia para que eu lesse a obra e me identificasse com a minha clone literária que, segundo ele, tanto o fez sofrer e entender a nossa história.
Foi o que fiz.
Dediquei-me às suas 302 páginas como quem consulta um oráculo. Sorvi seu conteúdo, dissequei suas nuances, emocionei-me com a narrativa, tracei paralelos, construí paradigmas, espantei-me com o pragmatismo da personagem principal (Lily), compadeci-me do amor inabalável do narrador (Ricardo).
...
Um trecho em especial me marcou bastante.
Na página 92 ela é descrita da seguinte forma por ele:
“ - ... uma doida, uma aventureira, uma mulherzinha sem escrúpulos com quem nenhum homem, e muito menos eu, poderia manter uma relação estável sem acabar sendo pisoteado”.
...
Apesar de entendê-la assim, Ricardo sofre, cuida, deseja, dedica-se, espera, guarda-se, declara-se e, sobretudo, ama essa mulher ao longo de todos os anos de sua existência. Sempre desprezando profundamente o seu caráter (ou ausência dele, que seja...) isso é bem verdade, mas ao mesmo tempo nutrindo por ela um amor incondicional e arrebatador.
Enquanto isso, ela o despreza, humilha, usa, debocha, ignora, trai, abandona e incita a dúvida sobre quem realmente seja, ao longo de todos os mesmos anos de sua existência.
Lily é egocêntrica e me fez pensar que talvez o problema não esteja no amor egoísta de quem ama a si, mas no amor puramente egoísta daquele que ama tão-somente a si.
Ao terminar de ler o livro, fiquei me indagando se o que Lily dizia sentir por Ricardo era mesmo amor, aquele sentimento sublime e altruísta que conhecemos e que cintila feito purpurina no rosto de quem só quer o bem.
Não sei. Não me convenceu totalmente.
Sendo ou não, não dá para negar que de fato a personagem demonstrava uma forma de gostar na qual, muitas vezes, mostrou-se indiferente ao sofrimento do bom menino. Ou pior: ao longo de inúmeras passagens do texto, ela escancarou uma determinação desmesurada em articular o mal para se fazer o bem, em humilhá-lo para agradar a si, em querer exclusivamente desfrutá-lo em vez de amá-lo.
Amar, amar de verdade, amar pura e simplesmente não é reduzir, não é tomar, não é tolher, não é contabilizar, não é abandonar, não é privar, não é esconder, não é mentir, não é inventar, não é ofender, não é menosprezar, não é ensaiar, não é testar, não é cobiçar, não é impedir.
Amar, amar de verdade, amar pura e simplesmente é dedicar, é compartilhar, é declarar, é demonstrar, é dividir, é somar, é multiplicar, é ceder, é dar e perder, é contemporizar, é alegrar, é redimir, é consolar, é perdoar, é saber aceitar o fato de que nem sempre podemos possuir tudo o que desejamos e mesmo assim permanecer puro de alma e coração.
Pergunte a uma criança o que ela entende por pureza e ela provavelmente responderá que é a característica do que é limpo, translúcido.
A água que brota da fonte, talvez? Sim, ainda que se misture à terra do leito do rio.
Um amor verdadeiro, quem sabe? Sim, ainda que se misture às intempéries da vida.
A pureza de um sentimento vislumbra-se no coração daquele que se dá por inteiro a uma causa. E ela começa onde cessa o eu, aonde ele sequer se alcança, aonde ele desinteressadamente se perde.
Há pureza cada vez que o amor deixa de ser “mistura de interesses”.
Dito isso...
Não! Eu não sou a menina má do livro. E lamento profundamente a comparação. O que não deixa de se explicar pela obviedade cega, comprometida, insensível e linear das interpretações analógicas de quem nunca se preocupou em me enxergar de verdade. Provavelmente, porque a única imagem que conseguisse ver refletida nos meus olhos, fosse do seu próprio rosto.
Neca
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910026
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Já gostava do Llosa. Depois dessa sua crônica tão brilahnte, acabo de anotar esse livreo aqui para ler. Ótima! Bom dia! Paz e bem.
Ah, Neca, esse amor puro, sincero e desinteressado é tão raro, mas tão raro, que chega a parecer mera ficção. É certo que alguns chegam bem perto disso. No meu entender, o amor puro na vida real, como você disse, é o que não busca moldar ou tolher -- ama-se e pronto. Acontece que muitas vezes a nossa forma de amar não combina com os anseios do outro e vice-versa. Gente feito essa menina má do livro há aos montes. E quase sempre, por um estranho desígnio, atraem aqueles que amam incondicionalmente. Neste caso, parece que a forma de amar de um combina espetacularmente com a forma de não amar do outro -- o doador e o receptor, assim mesmo, em mão única. Enquanto isso, nós outros, que somos uma mistura de maldades e bondades, de egoísmo e altruísmo, que apreciamos as relações em mão dupla, vamos tentando combinar as nossas respectivas formas de amar, a nossa e a dos outros... e espero que um dia a gente consiga, finalmente, pura e simplesmente amar. Beijo da madrinha que já estava com saudade.
Odeio falas e promessas de amor. Talvez porque sempre morrem, sempre cessam, sempre se definham no caminho. Os imaturos que dizem muito amar, normalmente não se amam, por isso não se percebem, e tentam enxergar noutro alguém a aceitação própria, que por si não ousou conquistar. Amar é fato, é presente, e testificado aos olhos daquele que vê, sem medo, sem questionamentos. Se recusa fosse amor, seria o amor monólogo fruto de cartas vãs e poemas fatídicos? Não não o é, essa idéia de enxergar o sentido da vida noutro, é apenas covardia de quem não se permite enxergar a si mesmo, por isso faz do outro toda a vida, mesmo que esse outro, deseje apenas ser momentos, felizes, tristes, que seja. Cada um com suas razões, ainda que não se posso denominá-las. A idéia de Vinicius ainda lateja: "Que seja infinito enquanto dure". Solamente. Parabéns Poetisa.