Etrelas
Ele podia ouvir estrelas a cantar melodias de inefável ternura. Do micro ao macrocosmo, sentia a energia dançando, em interações infinitas. Espiava quando as estrelas se enamoravam e reverenciava o poder de um imenso amor, capaz de dar à luz galáxias inteiras, que depois cresciam e se expandiam pelo tempo e pelo espaço.
Seus grandes e brilhantes olhos negros contemplavam a singela imagem do pequenino planeta azul, enquanto seu delicado corpo era tomado por intensas e incontíveis ondas de êxtase. Mesmo já tendo visto inumeráveis esferas em suas múltiplas excursões, jamais se tornara indiferente à divina poesia. Pois quanto mais conhecia, maior se tornava a sua admiração e o seu respeito pela criação universal. Sua alma vibrava em reverência, pois em tudo reconhecia o trabalho do divino arquiteto.
Seu corpo era formado de luz e podia viajar de uma estrela à outra num simples impulso da vontade. Respirava fluido cósmico e se alimentava apenas de amor.
Em um piscar de estrela lançou-se à Terra, rasgando o céu do planeta de um canto ao outro. Pairou sobre os mares, sobre os campos e sobre as cidades.
Em uma noite clara, brilhou no céu como estrela rara.
Quis descer, mas não pôde.
Uma estrela amiga lhe advertiu:
"- O homem da Terra ainda é rude! Nenhuma nação lhe seria gentil."
Da Terra, quase ninguém o viu.
Alguns disseram que foi um cometa.
Outros, que uma estrela caiu.
luciano araujo
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910300
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