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Sábados em 2009

Sábados em 2009




Fui no parque. Comi pastel. Ouvi um recital de poesia, em que um sujeito se manifestou no meio do público para dizer o quanto amava o poeta tal, e como prova desse sentimento mostrou o dorso tatuado, com as poesias do poeta tal. Fui na feira. Andei até a rua das Barcas e pensei que deve ser muito agradável morar ali. Fiz ioga, embora o instrutor tenha me dito que a pronúncia correta é iôga. Fui à missa de Santo Antonio. Tomei caldo verde e perdi um dente. Meio dente. A outra metade infeccionou e doeu por demais. Tomei chuva. Uma baita chuva, e poderia ter empregado outro termo ao invés de baita. Na hora, empreguei. Tomei ônibus lotado até Santo Amaro. Aos sábados diminuem o número de metropolitanos, e não há condução que chegue para os habitantes do bolsão. Em seus semblantes, cenhos e sulcos bem diversos dos expressos nas propagandas governistas na TV. Alguém está mentindo. Andei de novo até a rua das Barcas e concluí que os passarinhos de lá gorjeiam muito mais que os de cá, inda que porque, talvez, sejam em maior número. Fui ver minha mãe. Fui ver meus amigos – estão todos errados. Sou o único certo e me indago como é possível tamanha certeza. Entrei sem querer na fundação Gente é Pra Brilhar e me admirei com o cardápio das comidas. Um nome se fixou em minha mente: alheira. Na mesma hora encontro um casal de amigos que me revela ser alheira por seu turno uma revelação. Pensei: não é o dia e voltei no outro sábado. Para comer alheira e, adianto, comeria todos os sábados. Comi feijoada. Passeei com os cachorros. Não me admira que tenham de andar com uma coleira. São insubordinados e urinam em todos os lugares. Pensei nela. Pensei em situações felizes do passado e pensei em transformar a situação presente numa agradável lembrança futura. Tomei chuva. Encontrei com outros amigos, e me disseram que estou errado. No fundo todo mundo se entende, é só uma questão de boa vontade. Fui ver meu padrinho. Fui no parque. Custa 5 royal para assistir “Um passeio pelo universo”, no Planetário. Quem sabe no próximo sábado. Fui na feira. Tomei o ônibus até o Parque Independência e quando lá cheguei, me vi na porta do instituto tal. Há 10 anos atrás estava na porta desse instituto, colocando as crianças no carro. Me lembro como se fosse ontem. Me lembro do que aconteceu antes, durante e depois, e, acrescento: era um sábado ensolarado. O tempo é uma criatura escorregadia. Fui na feira. Coloquei os pés na água e fiquei quase duas horas inteiras vendo o céu e suas nuvens. Não ouvia nada além de trinados. Bela é a circunstância que ainda esconde dois ou três nichos, capazes de propiciar momentos como esse. Andei de bicicleta depois da chuva, e assim vi pequenas esferas molhadas fazendo desenhos no asfalto, na grama e na areia. Eu penso que os poetas do passado apenas nos ensinaram a ver as coisas por outro ângulo. Entretanto, nesse ‘apenas’ reside o mistério.  Comi alheira, mas acho que já mencionei isso. A vida é por demais capciosa para não ser compartilhada.
Bernard Gontier
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910586

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Comentários
15/11/2009 01h41 - Leila Marinho Lage
Tá na hora do sábado de nos encontrar. Bota mais água no feijão.
10/11/2009 19h34 - Ângela Rodrigues Gurgel
(...)todo sábado é assim eu me lembro de você, é o dia mais feliz (...) sua narrativa lembrou-me esta música. Meus sábados, antes de 2009 eram dia de almoço em família, aqui em casa, sumiram todos, também foi, durante algum tempo, dia de ir ä Caraúbas comer carne de porco lá em papai, agora a carne não tem mais o mesmo sabor, hoje meus sábados são apenas dias comuns. Ahhh, também já foi dia de esperar sua visita! Ler você é sempre um prazer de segunda a segunda. Beijos
Se todos os sábados de todas as pessoas fossem como os seus sábados! No mínimo, uma forma de realizar coisas diferentes. Pensar? Talvez uma pequena parte fizesse isso. Agora, refletir sobre o que e quem, isso sim, teriam muitos. Uma pequena obra de narrativa, Bernard. Lembrou-me alguns sábados, principalmente, os que eu, “ignorantemente”, disse que estava certo. Abraço,s Raí

Sobre o autor
Bernard Gontier
São Paulo/SP - Brasil, 49 anos
319 textos (34595 leituras)
13 áudios (1084 audições)
2 e-livros (130 leituras)
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