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Texto

COMO FALAR DOS LIVROS QUE NÃO LEMOS? __________________________________________________________________ Você já teve uma sensação de angústia ao entrar em uma livraria? Eu já tive e tenho. Quando entro, tenho a impressão de estar sendo, irrevogavelmente, condenado por todos os livros que lá estão e que não li. Pior do que a angústia da livraria é a de admitir, numa roda literária, que não leu um romance de Jorge Amado, de Machado de Assis, de Tolstoi, ou mesmo qualquer outro que lhe perguntem. É uma situação um tanto embaraçosa. Mais ainda se lhe pedirem uma opinião sobre o livro. Mentir, nesse caso, seria a alternativa, embora nem sempre bem-vinda. A não ser que tomemos a corajosa atitude de confessar, de forma súbita, a não-leitura; como fez Ezra Ponde quando Ernest Hemingway lhe perguntou o que achava de Dostoievski. Pond, detentor de uma cultura literária impressionante, decepcionou Hemingway ao responder: “Para lhe ser franco, nunca li os russos”. De quebra, aconselhou o amigo a ler “os franceses”. Pond com certeza sabia quem é Dostoievski e de sua importância na literatura, mas preferiu confessar sua ignorância em relação à obra do escritor russo. Na verdade, largar um livro na metade ou nas primeiras páginas, ou ainda, lê-lo aos pedaços, faz parte do histórico de qualquer leitor. Além disso, nossa memória possui limitações. Não raro, começamos a esquecer uma página quando ainda estamos lendo à seguinte, imagine, agora, uma obra inteira. Depois, com o tempo as obras lidas vão se misturando na memória, até ficarem completamente embaralhadas; isso, quando não as esquecemos totalmente. Há até quem recomende deixar de lado a leitura de um livro ruim. É o caso do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, autor do ensaio “Sobre Livros e Leituras. “Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta, e o tempo e a energia escassos”, diz o filósofo. Vou mais além, o tempo é escasso até mesmo para a leitura dos bons. Para aqueles que preferem argumentar uma falsa leitura em vez de admitir a não-leitura, repasso, abaixo, algumas dicas que o psicanalista e professor de literatura francesa, Pierre Bayard, recomenda em seu recente livro lançado na França: Como Falar Dos Livros Que Não Lemos? O título é polêmico e dá a sensação que a opinião do autor é a de incentivar a não leitura, mas o que ele pretende é ensinar a “ler”, não é ler por ler (sem reter), mas saber ler de forma a conseguir falar daquele livro e de outros, sem ter lido tudo. • Todos têm lacunas na sua formação cultural. Nas rodas em que se discute literatura, não há porque imaginar que o sujeito ao seu lado conheça mais uma obra que você. • Opiniões sobre literatura são sempre um tanto arbitrárias. Fale bem ou mal de um livro, mas fale com convicção – e ninguém desconfiará que você não o leu. • Todo leitor é traído pela memória. Assim você pode inventar novos episódios para um livro, ou até falar de autores e livros que não existem. Se alguém apontar o erro, diga, rindo que sua memória confundiu as coisas. • Há várias maneiras indiretas de conhecer um livro: pela crítica, por resumos, pelo que os amigos falam. • Oscar Wilde ensina que a crítica literária é uma forma de autobiografia. Fale do significado especial que o livro tem para você – mesmo que não o tenha lido. Pronto, agora você já pode entrar, sem receio, naquela rodinha, naquele fórum, e impor sua opinião sobre a obra discutida, mesmo que não a tenha lido. ® ________________________________________________________ Fontes: http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=164176#sinopse http://recherche.univ-paris8.fr/red_fich_pers.php?PersNum=194 Jerônimo Teixeira, Veja On-Line |
| Ricardo Sérgio |
| Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2007 Código do texto: T634004 |
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Sobre o autor

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Ricardo Sérgio
Campo Grande/MS - Brasil, 62 anos
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