Texto

Para morrer basta estar vivo

Viver é a coisa mais perigosa que alguém poderia ter inventado. A todo momento estamos sujeitos a qualquer tipo de coisa que possa acontecer: desde uma topada com o dedão no meio-fio da calçada, até um tsunami, um terremoto ou uma erupção vulcânica.

Talvez poucas pessoas tenham percebido, mas quase tudo o que existe é mais poderoso do que o ser humano e também mais importante para o planeta do que esses simples homo sapiens. Mas isso não vem ao caso, e continuar falando sobre a importância dos humanos (ou a falta dela), além de ser um total desvio da idéia de assunto original, é também, certamente, perda de tempo. E tempo é algo que não se deve desperdiçar (afinal, você pode sofrer algum acidente nos próximos dois minutos, e se perder tempo talvez não chegue nem até a metade deste texto).

Bem, pianos de cauda e bigornas não caem do céu como nos desenhos animados (fiquei muito frustrada quando descobri isso), mas, em compensação, podem cair aviões, helicópteros e malucos de asa-delta. Então se isso acontecer e por mero acaso você se encontrar no local de pouso de um desses objetos cadentes, não se iluda, pois você não verá pássaros nem estrelinhas girando em torno de sua cabeça, que provavelmente já estará bem distante do pescoço e do resto do corpo.

A violência é hoje algo tão normal e presente na vida das pessoas, que elas mal percebem que, saindo de suas confortáveis e - assim pensam - seguras casas, têm apenas dois possíveis destinos: a continuidade da vida ou a interrupção desta. Vamos tomar como exemplo a queda de um inocente pão com manteiga. Ele tem 50% de chances de cair com a parte da manteiga virada para baixo, e outros 50% de cair com a manteiga voltada para cima. Normalmente acabamos com um chão amanteigado. O mesmo acontece com continuar vivo ou morrer quando se anda pelas ruas de alguma cidade: as chances são as mesmas, mas o corpo humano é um ímã para balas perdidas, carros desgovernados e afiadas lâminas de faca.

E é neste ponto que você pergunta: E agora, quem poderá nos defender?
E eu respondo: Rotweillers, alarmes e cercas elétricas podem ajudar por algum tempo, se você permanecer confinado em seu lar-doce-lar. Mas isso só vai te proteger da violência urbana, afinal existem muitos objetos dentro de uma casa que podem facilmente causar acidentes. Até mesmo a casa em si.
May Jordan
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991192
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Comentários
17/05/2008 20h57 - Gustavo Gollo
Bem, ao menos é reconfortante saber que o pão com manteiga não chega a ser mortal.
16/05/2008 23h14 - Puetalóide
Vou dizer que gostei, também.
16/05/2008 23h00 - Du Maranhão
May, amei seu texto, mais ainda seu mistério. Visite-me Du mannomarques@gmail.com

Sobre a autora
May Jordan
Campo Largo/PR - Brasil, 18 anos, Escritora Amadora
1 textos (107 leituras)
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