Texto

Tonhão, o cafetão (De Caicó para o Mundo)

Tio Antônio era considerado em Caicó, o melhor jogador de futebol da pequena cidade paraibana, onde morávamos antes de vim para a 2ª capital do Brasil. Ele veio com a gente, para tentar a sorte em um time carioca. A primeira opção de Tonhão, lógico foi o Clube de Regatas do Flamengo. Apesar da boa habilidade com a pelota, demonstrada nas chamadas “peneiras”, o consideraram muito velho. Ele não desistiu, e a sua segunda tentativa foi no Botafogo de Futebol e Regatas, mas a resposta obtida foi à mesma da anterior: a idade. Mas, como todo cabra macho, não deixou a peteca cair e partiu para Laranjeiras, mas exatamente no Fluminense, time aristocrata, nada.
Enquanto isso, papai trabalhava feito uma mula de carga, lavava os carros dos moradores em troca de alguns trocados, fazia às vezes, de vigia noturno, isso quando não realizava alguns reparos nos apartamentos.
No dia em que a descarga do 1002 entupiu e deu um puta vazamento na casa de D. Elza, no 902 o zelador do Edifício Miramar recebeu um chamado pelo interfone:
- Portaria, Raimundo. – Boa tarde! Disse meu pai, com um sotaque carregado.
- Raimundo sobe aqui rápido, que está tudo inundado. Falou a moradora, em pavoroso.
- Mas senhora, eu não posso deixar a portaria vazia.
- Seu imprestável! – gritou a mulher. - Meu apartamento tem até merda na sala! – berrava. - Se você não aparecer agora, vou mandar você para o olho da rua. Ameaçou.
Depois desse ultimato, meu pai lembrou-se das seis bocas que ele alimentava e “voou”, para o nono andar. Ao sair do elevador, o cheiro de esgoto já era forte. No momento que adentrou a sala, Seu Neves entendeu o porquê de D. Elza, uma senhora de 50 anos, muito educada, ter dito tais impropérios. Em cima de um sofá, que originalmente era da cor branca, descia uma cascata de água escura. No chão de mármore papai viu carreiras de bosta, papel higiênico, cabelo, absorvente, uma cagada só. E tudo escoava em um rio mal cheiroso, que se formara no cômodo principal do apê. O problema ocorreu devido a um cano que estorou no andar de cima. Ao terminar de fazer suas fezes D. Cláudia, com uma prisão de ventre que durava mais de 20 dias, apertou a descarga do seu banheiro, com a enorme quantidade despejada, a pressão dada pela válvula que controla o jorro de água que limpa o vaso sanitário, foi insuficiente tamanho eram os dejetos, verdadeiros “toletes”. Ao invés, de pegar um desentupidor área de serviço, a “esperta” mulher continuou a pressionar o equipamento. Resultado: Raimundo teve de fechar o registro, quem queria tomar banho, não podia porque papai precisou cortar água do prédio inteiro. Ai fedeu! O pessoal chegava do batente, suado ligava o chuveiro e nem uma gota. O interfone não parou de tocar e todos reclamavam, com o pobre coitado do Seu Neves que não tinha a menor culpa. Felizmente, o porteiro da noite chegou e meu pai pôde ir repousar, todo sujo de merda. O pior é que ele não podia se limpar.
Assim que entra no cubículo reservado ao porteiro-chefe, na geladeira papai encontra Antônio e pergunta:
- E aí, “craque de bola”, arrumou um time que te aceite? Falou furioso Raimundo Neves.
- Lógico! – falou Tonho confiante. – O treinador diz que sou melhor do que o Galo.
Mamãe, que fritava um ovo para o irmão, olha para papai com um sorriso, como se dissesse “Viu, não falei?”
Ele apenas a fulmina, com um olhar raivoso. D. Sebastiana vendo uma veia crescer no pescoço de painho, fala:
- Vai trocar de roupa, bem! – Você tá fedorento!
Meu pai entra no banheiro e mamãe vai atrás dele. Ela entra na pequena cabine e pergunta brava:
- Toninho consegue finalmente realizar sonho dele e você arretado. – É inveja?
Papai a segura pelos ombros e empurra minha mãe, com violência contra a porta. Com a testa pressiona a esposa e diz:
- Você sabe quem é galo?
- Sei lá, um jogador qualquer. Responde ela temerosa por sua integridade física.
- Um jogador qualquer. – fala ele com uma voz feminina. – E Zico, sabe?
- Ah! – Esse eu conheço. – Ele é o melhor de todos, né?
- É. – E o seu apelido é Galo.
- Pô! – Ele fatura milhões, estamos ricos!
- Ricos o quê. – Isso é mentira. – Amanhã, eu pego esse safado!
Quando tio Antônio subiu no coletivo, papai o seguiu em um táxi. Na Praça da Bandeira, Toninho saltou do ônibus. Raimundo achou que podia ser verdade, afinal, o cabra jogava bem e perguntou ao motorista se existia algum clube de futebol ali perto. Vendo a direção, que Antônio tomou, o condutor falou rindo:
- Só se a Vila Mimosa montou um time.
- Ochi! – Que diabos é Vila Mimosa?
- Um puteiro. E deu uma gargalhada.
Meu pai achou Tonho em bar, rodeado de mulheres. Meu tio tomou um baita susto, quando papai disse:
- Você não falou que era melhor que o Zico, seu filho de uma égua? E apareceu na sua frente.
- Não, falei isso! – Falei que era melhor que o galo. – e perguntou a mulherada: - Eu sou ou não, melhor que um galo?
E uma quenga bonita respondeu:
- Nossa! – Ele é insaciável! – Ele consegue dar várias, sem tirar de dentro. – Nunca vi coisa igual!
E foi assim, que ele virou Tonhão "o cafetão".

carlos eduardo de carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991283

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo



Comentários
16/05/2008 09h27 - dy corrêa
GOSTEI MUITO CAMARADA. ABRAÇOS.

Sobre o autor
carlos eduardo de carvalho
Rio de Janeiro/RJ - Brasil, 30 anos, Escritor Amador
24 textos (695 leituras)
1 e-livros (21 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/07/08 21:07)

Como anunciar aqui?




Ajude-nos a divulgar o Recanto das Letras.
Saiba como: clique aqui
Indique

Capa | Cadastro | Textos | Áudios | Autores | Mural | Fórum | Escrivaninha | Regras de Uso | Links | Anuncie | Ajuda | Contate-nos