Texto

pequena reflexão

Um menino de oito anos tem por hábito deitar-se na mesma rede usada por seu avô e ali divertir-se usualmente, inclusive com o avô. O adulto, com idade por volta dos 50 anos, não leva uma vida sexual ativa em virtude de ter perdido a esposa há questão de dois anos, aproximadamente.
As brincadeiras com o neto se dão de forma inocente nos primeiros momentos, mas, com o passar do tempo, começam a ganhar contornos diferentes. Levado pela curiosidade infantil, não tarda o menino a cultivar uma atitude de cumplicidade com o adulto, que resvala para o terreno da sexualidade.
Por volta de cinco meses depois de iniciada essa forma de relacionamento, as brincadeiras ganham um contorno sexual, que não possuíam no início. Da curiosidade o menino passa à vivência que o leva a usar e ser usado pelo avô, sempre às escondidas do restante da família.
Há aí inocência? Pode até haver, no princípio. Mas logo o aspecto sexual imposto pela cumplicidade envereda pelo terreno da perversão. Curiosamente, as carícias genitais, masturbação unilateral ou mútua, e mesmo o coito geralmente ocorrem como gestos de afeto e sem qualquer sintoma de culpa, sem a idéia exata do que está de fato acontecendo nem a sua implicação futura.
Assim, instala-se entre os dois uma teia de relacionamento que se mostrará condenável apenas se o mundo tomar conhecimento. Enquanto permanecer um acontecimento envolvendo somente os dois, como classificar? Não se pode considerar como sendo uma violência contra o pequeno, se este agiu livremente, ainda que habilmente seduzido, querendo afinal que tudo enfim se sucedesse como realmente acabou ocorrendo.
A questão da idade não pode ser aqui colocada como um parâmetro que impeça o garoto de decidir se deseja ou não prosseguir naquilo que contribuiu para que tivesse um começo. Houvesse uma resistência e o adulto insistisse, fazendo valer sua força ou mesmo a autoridade de parente e/ou mais velho, e talvez se pudesse colocar sob o ponto de vista da violência contra o menor.
É verdade que o relacionamento aqui referido se dá num nível de novidade para ambos. O adulto, ainda que possua uma vivência anterior semelhante, experimenta um sentimento que é um misto de afetividade natural com o fato de tratar-se de alguém de seu mesmo sexo. É natural que ocorra uma rejeição em princípio ao vir à tona essas duas questões: ‘é meu neto’; e também ‘é homem assim como eu’...
Por outro lado, o menino se deixa enlaçar pela sensação de estar sendo protegido e, em sua pretensa inocência, não alcança o teor de homossexualidade da conduta, uma vez que ainda não se definiu interiormente de maneira plena.
Essas questões se dissolvem no calor das brincadeiras. O adulto se deixa levar pela jovialidade e o menino, garantida sua proteção e não tendo ainda a malícia que virá somente com o tempo, permite-se adotar comportamentos que dão ao avô a certeza de não estar fazendo coisa alguma de errado.
O desejo vem naturalmente e flui espontâneo, como viria quaisquer que fossem os envolvidos. E a sua tendência é caminhar para a explosão que caracteriza o seu clímax.
Quando isso acontece, chega a hora de uma definição para os dois, porque é sempre uma encruzilhada – não haverá mais retorno, nada será como antes, a partir desse ponto. Esse clímax pode chegar num beijo de fato, no ato de presenciar a ejaculação do avô, no manipular dos pênis, ou mesmo, num ritmo mais adiantado, no auge de uma felação ou até mesmo com a penetração anal.
Aqui se dará a inevitável separação entre o abuso e a permissividade consentida.
Não há como afirmar, de antemão, que o garoto rejeitará o adulto que o sodomiza; sobretudo se este tomou a precaução de agir com cautela e chegar ao ato em questão apenas depois de vencidas todas as outras etapas do processo de sedução cabíveis neste relacionamento, onde não pode ser afastada a hipótese de, sendo pervertido desde o início a relação, manter o controle da situação e conduzir as brincadeiras para este desfecho que lhe é desejado.
É possível, inclusive, que a encruzilhada referida anteriormente já tenha ocorrido num nível precedente, de modo que a definição de agora, com a penetração anal e a conseqüente consumação da posse, façam parte mesmo de um anseio de parte do garoto, já não mais tão inocente e sabedor – ainda que num estágio incipiente – das implicações do gesto praticado, ou a praticar. Na verdade, o menino se encontra já desejando ser possuído, justamente o estágio seguinte a tudo o que experimentou até então, todas as ‘preliminares’ vividas no decorrer do tempo que durou a sedução.
Não se pode aqui imputar culpa a qualquer das partes, pois se trata de um envolvimento onde nenhuma outra pessoa foi chamada a dar palpite, ainda que se coloque a criança como alguém sem capacidade para decidir o seu próprio futuro. Ocorre que não se trata aqui de futuro, mas de presente. Não teria o garoto sensibilidade para distinguir se as mãos do avô passeando em seu corpo podem significar outra coisa além do agrado que inspira no adulto, que lhe retribui em igual intensidade e lhe pede algo que ele, garoto, se acha capaz de – e quer – retribuir?
Certamente recusaria o pênis em sua mão ou em sua boca, caso não houvesse antes sido preparado para acolher o membro do avô, ou ainda se a situação se lhe mostrasse realmente desagradável. Não aceitaria ser penetrado, caso não houvesse previamente toda uma preparação, seja física ou psicológica, para o que viria em seguida, ou seja, a efetiva consumação da posse – quando poderia haver a ejaculação diretamente no ânus ou, em caso de ser coisa devidamente planejada, no interior de uma segura camisinha.

Crer que o menino se submeteria a essa experiência apenas por gostar do avô ou temendo deste alguma represália é diminuir a capacidade do garoto em decidir o que julga ser melhor para si; aqui definido o “melhor para si” como sendo algo que o faça sentir-se bem, à vontade e do qual, mesmo que venha a se arrepender futuramente, ele não deseja deixar de viver na ocasião que se apresenta.
Aqui o novo é o principal atrativo. Ele não pensa no amanhã, seus sentidos só conseguem enxergar o hoje dessa relação. A intensidade das brincadeiras com o avô alcança o estágio febril da paixão e ele se interessa apenas em consumir e ser consumido pelo prazer que experimenta nos seus encontros, quando não teme nada nem ninguém, e quer apenas saciar essa sede que o desvario o faz sentir e que o impele ao encontro do adulto. Isso se dá, sobretudo, se esse clímax ocorre depois de toda uma preparação afetiva e psicológica, ou, em outras palavras, como conseqüência da sedução.
O menino não se dá conta de que sua atitude é a de um homossexual, que a sociedade mais tarde poderá condená-lo por ter esses anseios. Na verdade, quer apenas apaziguar o que sente e que, ao experimentar pela primeira vez o gozo – seja como for – chegará à conclusão de que o que fazia era bom.
Ou será que não existe para ele o prazer de chupar o pênis do avô até que este ejacule, se o sabor do esperma não lhe é desagradável? Ou ainda não poderia haver prazer em receber no ânus o pênis do adulto e, em movimentos cadenciados, pressionar com o esfíncter o membro que o invade até a iminente ejaculação?
Seria apenas perversão?
meninhO
Publicado no Recanto das Letras em 19/06/2008
Código do texto: T1041462

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Comentários
14/08/2008 19h47 - Adriano Pinto
São temas e motivos para horas e horas de debate... Talvez a inocencia de não se saber o que era a sexualidade fosse necessaria a todos nós... talvez assim nso despíssemos de todos os preconceitos sexuais e da hipocrisia que nos cerca.
14/07/2008 21h08 - LIRÓ CARNEIRO Lirózinha
Incrível!!!Muito interessante! qto ao seu comentário...adorei rs...bjs Lirózinha
23/06/2008 00h40 - marco
É um bom tema para se discutir. Embora muito te admire e respeite, penso que a relação afetiva que tinhas(tens) com teu avô impede que tenhas uma visão mais isenta do que realmente aconteceu. É a tua história (ou da personagem que criaste) e a história de vida não se muda. Entretanto, não tira a responsabilidade do avô que deveria proteger e respeitar o neto. Infelizmente se aproveitou, usou e o marcou irremediavelmente. Abraços, de um leitor assíduo.

Sobre o autor
meninhO
Ananindeua/PA - Brasil, Escritor Amador
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