Crônicas de Alice - cap. 1: Alice
Aviso ao leitor:
Não considero este texto como erótico, mas deixo o leitor avisado para possíveis cenas mais fortes.
I
Alice
Ela tinha cabelos vermelhos, lisos e curtos. Não curtos demais, ou de menos. Cortados no tamanho dos de qualquer moleque. Cabelos bem colados na cabeça, num penteado que ela parecia manter fixo através da pura força de vontade. Com exceção da franja, que tinha a mania
de se partir ao meio - coisa que ela resolvia graciosamente, de tempos em tempos, passando os dedos em gestos hábeis pela testa.
Os olhos, que normalmente só paravam de passear, curiosos, para nos desafiar diretamente, inquisitores, agora estavam um pouco fechados e voltados para baixo. Todo seu rosto se contraía de leve, salpicado por pequenas sardas cativantes, duas ou três espinhas e um rubor indisfarçável.
A boca sorria sem mostrar os dentes. Alice estava envergonhada.
Envergonhada, ou sem jeito. Acanhada. Qualquer palavra que preceda o beijo. Estávamos sozinhos no meu quarto e, pelo andar da carruagem, aquilo já era esperado. Mas tão singelo, tão comovente, que minha boca - interrompendo um embrião de ósculo - perguntou por conta própria:
- Você está com vergonha?
Ela apenas fez que sim com a cabeça, transformando o sorriso num risinho contido.
II
O plano
Eu fui me aproximando de leve. Bem devagar. Numa mistura de cuidado e corpo-mole, tentando aproveitar o tempo. Engolindo segundos como se fossem doces. Alice continuava olhando para baixo, então mirei um beijo no nariz. Sem pressa. Compondo mentalmente a
trajetória da aproximação.
O abre-alas no nariz já estava decidido. Depois, beijar a testa algumas vezes. Os olhos fechados. Bochechas. Enquanto a boca brincava de acupuntura, uma mão passaria dos cabelos à orelha. Um dedo por baixo do queixo convidaria Alice, em silêncio, a levantar o rosto.
Há um prazer todo especial em preparar estes tipos de planos. E a fortuna ensina que a melhor política é saborear cada momento como se fosse eterno - enquanto resta o que fazer de planos, ou antes
que a surpresa venha acabar com eles.
III
Os fatos
Ainda com os olhos no chão, Alice permanecia imóvel. Avancei com a pretensão idiota de dever cumprido. Sentindo que tudo já havia se passado como eu imaginara, e que agora faltavam apenas as formalidades do espaço e do tempo. Ah, como é tolo aquele que acredita na falsa coerência do mundo... Aquele que imagina que as coisas acontecem como esperamos, ou mesmo como seria sensato que elas acontecessem... O universo é um lugar estranho. Imprevisível. Podemos notar o inesperado nas pequenas coisas. Essa história da carochinha que inventamos para explicar o mundo, e que chamamos de cultura, não é nada confiável. Atire a matemática pela janela, quando pisar do lado de fora da porta. Queime livros e documentários de televisão. E abandone prontamente todos esses preconceitos primários que alimentamos com a educação. É muito inocente, por exemplo, quem imagina e ainda afirma que enxergamos
apenas com os olhos.
Quantas coisas você já viu com os olhos fechados? E não foi só você. Acho que foi mesmo o nariz de Alice, com suas minúsculas sardas vigilantes, o primeiro a perceber que eu já estava muito perto, e que meus lábios se ovalavam.
E cada Homem é uma ilha isolada. Estamos sempre construindo pontes, mas o abismo continua lá. Pois que enquanto eu fazia planos - beijos no rosto e convites silenciosos com um dedo sob o queixo -Alice também tinha lá suas próprias idéias. Alheia ao meu projeto
imaginado, ela apenas sentiu que eu me aproximava. E talvez acreditasse que eu vinha desajeitado, mirando o lugar errado. Ou talvez imaginasse que eu vinha esperando por um milagre, ou por qualquer ação da parte dela. Talvez ela simplesmente desejasse uma abordagem mais direta, enquanto, com os olhos pregados no chão, lutava com a precocidade de seus dezessete anos. Ou talvez ela quisesse dançar a rumba numa fantasia de ovelha - eu sinceramente
não sei! Especular longamente sobre os íntimos e não-revelados pensamentos de Alice seria um exercício inútil, que só poderia nos levar a nada (ou, antes, ao infinito).
Passemos aos fatos: Assim que percebeu, com o nariz, a eminência do toque molhado, Alice levantou o rosto inesperadamente, e quase nos beijamos na boca.
Então este era o plano dela - que teria funcionado, se eu não recuasse um pouco e dissesse:
"Calma!", em tom de brincadeira. Agora, cada um tinha frustrado os planos do outro, e estávamos rindo. Alice voltara a fitar o chão.
Desta vez, saciado de espera, eu fui ao ataque mais rápido, e acertei o tão planejado beijo no nariz. Alice tremeu de leve, e fechou com mais força os olhos. Bem quietinha. Dei sequência ao meu plano sem pressa - testa, bochechas, olhos fechados... Carinho na têmpora. Carinho na nuca. Voltei ao nariz. Inclui o queixo. Beijei o canto de sua boca, algumas vezes. Seus lábios se descolaram com um estalinho tão baixo que eu ouvi com o corpo inteiro. Então passamos para o plano dela.
Nossos braços, exploradores, descobriam trilhas pelo corpo do outro, e fomos nos deitando vagarosamente sobre a cama.
IV
Caminho-de-rato
Quando criança, uma das brincadeiras favoritas, minha e dos meus amigos, era fazer caminhos-de-rato. Nós comprávamos bombinhas, rojões, ou qualquer coisa que tivesse pólvora. Passávamos muito tempo desfazendo os pequenos explosivos. Juntando pacientemente a pólvora num copo, ou num potinho qualquer. Depois, despejávamos o pó mágico na calçada, aos poucos, traçando uma linha que poderia dar voltas, se subdividir, criar galhos... O resultado final variava, parecendo-se hora com um desenho, com o leito de um rio, com uma longa estrada reta, ou com qualquer coisa que pudesse criar nossa eufórica imaginação de crianças fazendo estripulias.
O formato preferido era o que chamávamos de "emboleira", que consistia numa linha de pólvora que seguia sem rumo pelo chão, fazendo curvas e passando por cima de si mesma, como os traços de uma caneta rabiscando aleatoriamente o papel. De forma que na hora de acender o caminho-de-rato, não tínhamos como prever a trajetória da faísca, nem saber qual parte da figura queimaria primeiro.
Ali, deitado na cama com Alice, era isso que eu sentia. A sensação que me davam meus dedos andando sobre ela, e os dedos dela percorrendo meu corpo - ávidos, afobados, em chamas - era como um caminho-de-rato ligado por duas bocas. Queimando rápido, brilhante e em todas as direções.
V
Os botões
Os botões são como palha - como os juramentos de Shakespeare - que não resiste ao fogo no sangue. De forma que, em pouco tempo, todos eles haviam cedido, deixando os corpos cobertos apenas pela última camada de pudor, sustentada por elásticos.
Alice exibia uma pequena e cativante mancha úmida, arredondada e convidativa, na calcinha cor-de-rosa. Eu, um volume indecoroso sob o pano da cueca. Colocamo-nos a conferir manualmente as novidades um do outro.
Desde o beijo, até aquele momento, Alice tinha se comportado com a naturalidade de uma atriz de cinema. Mas ao primeiro toque íntimo, soltou o que tinha nas mãos e se contraiu toda, num suste leve. Depois, apertou com força e projetou o próprio colo pra frente, apenas para se contrair novamente dentro de alguns instantes. E ficou assim, num misto intercalado de desejo e proteção, oferecendo a bala que logo guardaria no bolso.
Minha mão, não sem grande esforço da vontade, foi visitar outros horizontes. Alice relaxou um pouco, e as bocas também passearam.
VI
Seios de Caju
Alice tinha seios de caju - expressão que será explicada em outra parte, mais adiante. Mas eram seios de falsa-magra*, que não se destacavam por dentro da roupa. Como eles surgiram assim, já num primeiro momento, como é típico dos romances modernos, sem nenhuma resistência, não tive como apreciá-los devidamente naquele primeiro dia afobado.
Bem mais tarde, Alice ficaria emburrada ao me ouvir dizer que uma mulher precisa se valorizar. Ela achou que era machismo. Homens comem todas, e mulheres têm que se guardar.
Já estávamos numa fase em que eu evitava discussões. Deixei pra lá. Mas se ela tivesse me deixado reparar em seus peitos, e ter sonhado com eles antes de tê-los tido dentro da boca, ela não faria idéia do poder que eles teriam sobre mim.
Mas não foi assim, e o centro das atenções, naquela noite, foram suas costas. Ainda fecho os olhos com gosto, lembrando da primeira vez que vi aquelas costas nuas. Ombros retos, compactos e bem delineados. Uma cintura fina que se abria numa anca de sereia.
Comecei pelas extremidades, beijando a nuca e afagando o vão da calcinha. Ela se arqueou, projetando os dois pontos tocados para cima, e minha cabeça deslizou pelas suas costas como num tobogã, beijando cada uma de suas pintinhas.
O leitor, sempre apressado, pode estar pensando agora que esta cena ainda exigirá mais quarenta capítulos para chegar no "quente", tamanha é a ousadia da minha demora. Mas ele está enganado.
Minha demora é muito mais extensa do que isso, e se conta em dias e semanas, não em míseros capítulos. Daquele primeiro dia com Alice, eu já contei tudo de "quente" que tinha para contar. Não aconteceu mais nada. E o próximo capítulo é justamente para explicar que eu sou um frouxo.
*Falsa-magra: Meses depois, quando chamei Alice de falsa-magra, ela ficou irritadíssima. Disse que era um insulto. Que falsas-magras são gordinhas que se vestem camuflando as banhas. É preciso deixar claro que esse não é, absolutamente, o sentido que eu dou para a
expressão. Falsa-magra, para mim, é uma mulher muito gostosa que, vestida, parece ser uma magrinha comum. Elas mantêm esta ilusão até colocarem um biquini (ou tirarem tudo), revelando o caráter falsário e enganador dessa magreza.
buk
Publicado no Recanto das Letras em 03/07/2008
Código do texto: T1063404
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