Pequeno Prefácio sobre a Arte
Sobre a expressão artística existe a seguinte divisão: (1) os criadores, e (2) os apreciadores. Creio que esta razão explica a existência da arte obscura e anti-estética, da arte escatológica. A hipótese principal é que os apreciadores, às vezes, tomados pela inércia e pela volúpia da arte que apreciam, acabam tomados por um impulso mimético que faz com que se encham de uma aura de inspiração. E o resultado é desastroso, pura sem-vergonhice, fezes em locais inapropriados. Expressar, retratar, talvez enganar – essas são algumas peças dessa oficina latente de criações. Não é questão de otimismo, de pensar que a arte seja o milagre que opera sobre todas as dúvidas. Até quando se quer destruir, ou quando o espírito orienta para esse fim, deve-se criar aí o sentido dessa destruição. Com efeito, quem gosta de ler um bom romance, tomar um chopinho, ouvir uma boa música e todas as coisas belas da vida, deve meditar sobre si com muita cautela se, apesar de todos esses prazeres, estiver também engajado n’alguma criação artística: pode aí estar havendo uma grandiosíssima e patética confusão de papeis.
Fernando Lionel Quiroga
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910403
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