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Passado. Vamos remexê-lo para um futuro melhor?

Poderemos igualar nosso passado a um baú cheio de riqueza ou de muita pobreza. Pobreza de alma, de amor, de perdão.
Se pudermos examinar as coisas que ali se encontram veremos que muitas não valem mais nada e estão ocupando um lugar demasiadamente grande, valioso, impedindo a entrada de novos conhecimentos, experiências, emoções. Como fomos nós que enchemos este baú, então seremos nós que iremos esvaziá-lo das coisas inúteis que ali conservamos, para dar lugar às novas oportunidades que irão surgir ao longo de nosso caminho, de nossa jornada. É interessante como avaliamos cada situação. Vezes há em que damos atenção em demasia para um fato que dali a uma semana nem nos lembramos mais e outras tantas uma atenção insignificante, quase nula e lá na frente poderemos sentir o quanto poderia ter nos ajudado, perdendo-se aí, quem sabe, um excelente momento. E tudo isso acontece por estarmos estagnados na vida, por apertarmos tantas dificuldades com o novo, deixando em esquecimento dentro que a cada novo dia novas possibilidades surgirão.
Agora já sabemos que devemos avaliar e analisar tudo que encontraremos em nosso baú.  Que tal limpá-lo?  Que tal remexer em nosso passado? Quando formos abri-lo o faremos bem devagar, bem lentamente, pois não há pressa, até porque fomos nós mesmos que o enchemos sabe lá com o quê e quanto tempo levamos. Após alguns minutos de incertezas, com medo do desconhecido, vencemos as primeiras barreiras, nos enchemos de coragem e finalmente o abrimos. Num instante deparamos com coisas que nem nos lembrávamos mais. Como pode ser? Situações conflitantes, muitas delas traumatizantes que aconteceram muitas vezes por nossas próprias escolhas. Como é que deixamos certas coisas nos acontecerem? Como é que não nos demos conta de que seria ruim determinada escolha lá no futuro distante?
O baú contendo meu passado estava em grande desordem. Raiva misturada com amor. Orgulho misturado com humildade. Ilusões com desilusões. O que mais me assustou é que não encontrei a fé que tinha quando criança. Não notei quando foi que a perdi.
Amigos e inimigos encontrei aos montes. Ficaram para trás. Ou não.
Entro mais fundo e percebo quanto é grande o baú, pois raivas, amores, desamores tudo em grande quantidade estão ali. Paradas. Estagnadas e, ao se darem conta que as vejo remexem tanto que ferem meu coração. Resolvo organizar aquilo tudo. Primeiramente jogarei fora alguns sentimentos mais pesados que ali encontrei, assim como raiva, ódio, indiferença, medos. No caso do medo é necessário termos um pouquinho de parcimônia na limpeza, pois é preciso tê-lo um tantinho no estoque, visto que o medo nos protege de muitas coisas indesejadas. Já pensaram se não tivéssemos medo nenhum para atravessar uma avenida de muito movimento?
Vamos passar logo uma água limpa em alguns sonhos que encontramos, ilusões, desejos reprimidos, aquelas palavras nunca ditas – nunca esquecendo que em cada baú ou serão encontradas coisas e experiências diferentes – muitas vezes não nos damos conta que alguns daqueles sonhos de outrora já foram modificados ou não nos servem mais, pois já foram ultrapassados por outros desejos, talvez até já realizados. Os sonhos alcançados colocaremos bem no cantinho do baú e faremos um capítulo bem especial para eles. Afinal, precisamos enaltecer as conquistas para nos sentirmos incentivados para as próximas que virão. Aqueles desejos reprimidos que já não o são há muito tempo, aquela folha de alguma árvore envelhecida pelo tempo que está num livro que sequer foi lido e nem sabemos mais porque ali se encontra; palavras ofensivas que nunca deveríamos ter pronunciado, isso tudo vamos colocar no lixo. Não precisamos mais. Na verdade nunca precisamos delas. Existem ainda algumas coisas enferrujadas que nem limpando saberemos o que são também vão para o lixo.
Continuei com a limpeza assim como você neste momento.
Remexi nas mágoas que eu mesma causei, sentimentos ruins que eu plantei, lembranças de dias tristes. Mas fiz tudo devagar, muito lentamente para lembrar porque estavam ali guardadas. Qual tinha sido a razão de estarem ali naquele cantinho tão escondidinho. Como será que avaliei aqueles episódios naquela distante época? Tudo passou como se fosse um filme e então pude, pouco a pouco, me desfazer do que não precisava mais, de tudo o que pesava em minha alma. Aproveitei o momento e coloquei muito perdão sobre tudo. Senti-me bem.
Ainda havia muito resto de coisas que foram mal conduzidas, talvez por insegurança, por medo ou simplesmente por inexperiência, tais como amores não correspondidos, amizades que nunca vingaram, alegrias nunca sentidas nem vivenciadas... Encontrei mais um pouquinho de egoísmo e orgulho. Meu Deus, estes foram fortes e pesados. Aproveitei e coloquei tudo fora.
Agora que saneamos um pouco nosso baú já podemos perceber como existem coisas belas. Particularmente encontrei palavras ditas ou ouvidas com amor; encontrei um pouco de humildade, de encontros, de venturas, de passeios ao luar, de pequenas felicidades como por exemplo, jantar em família. Puxa, como havia esquecido de tantas coisas? Muitas lembranças boas foram surgindo como num passe de mágica. Lembro de alguns pequenos sonhos que já havia realizado e de outros tantos que ainda poderei conquistar. Vi também que já pronunciei muitas palavras bonitas e também ouvi outras tantas.
Encontrei amores, alegrias, amizades, e finalmente a minha fé. Estava embaixo dos sentimentos ruins. Ufa! Que alívio, ainda bem que a encontrei, pois já estava ficando preocupada.Eu a percebi abafadinha em um cantinho que somente agora vislumbrava. Esta talvez tenha sido o maior achado, visto que com fé em algo maior todos os sentimentos bons virão junto. Nunca uma faxina me trouxe tanto prazer. Tanta tranqüilidade. Foram belos momentos.  Fiquei com uma calma que há muito não experimentava. Estava leve, e com as minhas novas descobertas comecei a reavaliar cada escolha feita e suas conseqüências, e reparei que em certas ocasiões insistia em cometer sempre os mesmo erros. Meus relacionamentos para com as pessoas também eram sempre os mesmos. E muitos dos meus conceitos já estavam ultrapassados.
 Deparei ainda com outras várias situações que hoje teria agido diferente. Palavras, atitudes, sentimentos.
Não espero que alguém se identifique com os meus erros, minhas escolhas mal conduzidas, mas espero ardentemente que se conscientizem de que erraram em alguns momentos cruciais de suas vidas. Essa conscientização será a base para toda a transformação que se iniciará.
Enfim estou recomeçando livre de todas as amarras da vida.
Nosso passado é farto de capítulos escritos por nós. E somente nós poderemos reescrever nosso futuro. O ato de viver não é um mistério assim tão grande, mas mesmo que o seja, não vale a pena desvendá-lo?
Roseli Hubler
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2009
Código do texto: T1902863

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Comentários
03/11/2009 14h51 - Tildé
Muito bom! Essa limpeza, acredito, deve ser feita com mais frequência. Boa tarde!

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Sobre a autora
Roseli Hubler
Porto Alegre/RS - Brasil
24 textos (388 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 10:32)

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