Uma Elegia a Dashiell Hammett
Com o advento da internet as ferramentas colocadas em nossas mãos, tratando-se de interação pessoal, ficaram muito mais contundentes e velozes. A eficácia proporcionada pela net coloca-nos diante de várias questões: dentre elas, a que mais chama a atenção é o despreparo da maioria para lidar com o imenso leque que a net abre para todos nós. Há alguns anos, se nos sentíamos sozinhos, íamos a um barzinho procurar interagir com mais gente, ou então – recuando um pouco mais no tempo – à pracinha, participar do footing, esperando a nossa cara metade aparecer do lado contrário da fila, trocar um sorriso medroso e iniciar a paquera. O sentimento de solidão não se alterou; continua pressionando corações e mentes. Nas pracinhas, ainda há footing, os barzinhos ficam cheios, e a solidão, essa madrasta cruel, só parece se agigantar. Mas, antes de ir a um desses lugares, quem se sente só vai para uma sala de bate-papo, ou busca, entre seus contatos, alguém que preencha o vazio que lhe perpassa a alma. Grandes paixões inundam o imenso oceano da net, alimentadas pela carência e, mais ainda, pela capacidade que a nossa mente tem de fantasiar, ao ver uma foto atraente, um perfil interessante, podemos rapidamente transformar um sapo em príncipe (valendo o mesmo também para sapas!), no mais das vezes sem nem o beijar.
O escritor acima citado buscava o seu material indo diretamente a fonte: o bas-fond, o underground, misturando-se com os elementos soturnos da noite. Quando, pela primeira vez, entrei em um bordel, uma casa de mulher-dama, ainda menino, todo um mundo de mistério se descortinou para mim – era a casa de Belice, a comandante das meninas que davam prazer proibido aos homens de Gongogi. Meu olhar curioso percorreu a fileira de quartos, a disposição das camas, os gestos nervosos de Belice, supervisionando tudo, para que a noite, nada estivesse fora de lugar. Eu sabia que meu avô (delegado à época) era um dos clientes da casa, o que só acrescentava mais curiosidade a minha exploração. Bem mais tarde, deixou-me um gosto amargo, na boca e na mente, a fala de uma das meninas, deitada ao meu lado na cama: “você é neto do Raimundo Sapateiro?” Carreguei as implicações dessa interrogação (como se incesto fosse) por um bom período de minha vida, até conseguir lidar tranquilamente com o peso da mesma. As camas das meninas de Belice, o underground de Dashiell Hammett, mais as pracinhas de footing, barzinhos inclusos, tornam-se material precioso nas mãos de quem faz da vida uma imensa sala de artesanato.
Ensaio escrito após uma de muitas reflexões sobre a maneira com que este sertanejo se atira de cabeça, mergulhando fundo em suas relações pessoais - como fazia, literalmente, pulando entre as pedras cheias de perigo, na correnteza do rio Gongogi.
Vale do Paraíba, domingo cheio de sol e calor, Outubro de 2008
João Bosco
Aprendiz de Poeta
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1907613
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