Marés
Marés
Nossos corpos movem-se como ondas ao sabor agridoce das marés do amor.
O cheiro inebriante e provocativo de pecado permeia o ar.
Bocas provam-se, misturam-se, invadem fronteiras e fundem-se fundando um feudo de prazer.
Mãos frenéticas acariciam, apalpam, tocam com sofreguidão membros e partes carentes no delicioso e viciante jogo da luxúria.
Aqui não há limites, convenções ou regras, a única vigente é a de não se privar de nada, principalmente do que o coração ordena e/ou o corpo suplica, sem nenhuma espécie de restrição.
Os gemidos e sussurros unem-se ao canto do vento numa melodia afinadíssima e lasciva de puro delírio.
A lua manda seus raios invadirem a janela e escanearem seu corpo perfeito para guardar no seu lado oculto a imagem arquetípica da perfeição.
Nuvens se aproximam, embolam-se e condensam-se para terem uma visão melhor do ato sublime, voyeurs celestes.
Movimentos lentos e frenéticos alternam-se num ritmo perfeito, os partners se conhecem, são extensões e entram em uníssono nos abissais labirintos do êxtase.
Sorrisos e carinhos pós-orgasmo fazem com que fiquemos completamente imantados e tornam impossível a nossa dissociação, como duas partes perfeitas de uma medalha que jamais deveriam ser separadas e tornam-se a se encaixar de forma tão harmônica que não deixam sequer uma tênue cicatriz.
A maré cheia inundou praias e destruiu castelos de areia apenas para torná-los reais e viscerais.
A respiração alterada e os corações ritmados anunciam o refluxo, a segunda parte de um show infinito, com breves e áridos intervalos para a vida cotidiana, o dia-a-dia, o ônus a ser pago pelo incalculável privilégio de amar.
Leonardo Andrade
Leonardo Andrade
Publicado no Recanto das Letras em 13/05/2008
Código do texto: T987615
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