Colóquio Vespertino
À tarde, em uma praça, dois amigos se reencontram após muito tempo.
Erasmo: Meu estimado amigo, há quanto tempo não o via
Arthur: Olá, bom companheiro, tenho dificuldades em exprimir minha alegria ao revê-lo
Erasmo: Pois, então, conte-me como vai a vida conjugal
Arthur: Esta se desfez assim que a ilusão se findou
Erasmo: Uma pena que a ilusão não seja perene, porque como disse Wilde: "No início enganamos a nós mesmos, em seguida, enganamos o outro: isso é o romance"
Arthur: Não seja tão duro, pois à medida que um romance chega ao fim, outro em breve terá seu início, porquanto há sempre alguém diferente de nós a nos fascinar com sua graça.
Erasmo: Você se equivoca, amigo, o deveras diferente tende a nos repelir.
Arthur: Pelo contrário, camarada, é notório que nosso maior fascínio é voltado àquilo que nos falta.
Erasmo: Outrora, não discordávamos tanto, a diferença não consegue viver muito tempo lado a lado com a sua antítese; assim como o fogo arrefece em contato com a água, as chamas do amor se apagam ante o efeito adverso causado pela simples emissão de ar da boca de quem a nós sequer se assemelha.
Arthur: Como posso ser completado por alguém idêntico a mim? Ansiamos por todas aquelas qualidades que nos são inalcançáveis.
Erasmo: Arthur, assim como quem é pequeno acaba por se sentir menor ainda se ao lado de alguém de grande estatura, a inteligência tem maior destaque ante a ignorância, portanto não existem metades que se completam.
Arthur: Você me confunde, Erasmo, deixe minhas convicções em paz, afinal tudo tende ao término e ao recomeço, as histórias são sempre iguais.
Erasmo: Suas idéias ainda não amadureceram plenamente quanto a este assunto, bom amigo, e frutos ainda não sazonados não são muito atrativos, e se os almejar retirar da árvore antes do amadurecimento, eles poderão ainda estar azedos.
As histórias são sempre as mesmas, você afirma; os personagens, contudo, mudam, logo elas podem ser no máximo parecidas, pois são estes que lhes dão valor.
Arthur: Fascinantes as suas teorias, prezado Erasmo, porém tenho de me retirar, espero que em breve nos encontremos novamente.
Erasmo: Felicidades, estimado companheiro.
15/11/08
Michel Domenech
Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2009
Código do texto: T1897770