e-feito...
1
i
Escrevo sobre o efeito do leite derramado,
choro de o não ter feito em vós,
faço-o em voz, em canto, eu conto
Deitei-me com as duas mãos unidas
cingindo o malho erguido um mastro
onde não vos posso ter por minha vela
Fica esta acesa de desejo latejando
em imagens pulsando como veias cheias
correndo no corpo em marés de mar
ii
Primeiro comecei a gemer baixinho
como se em excesso tivesse eu bebido
dum bom vinho do qual ficasse ébrio
Comecei a ressacar saudades vivas
de vos injectar a vida bebida quente
com vosso corpo em transporte agente
iii
Vou agora sonhar ser desta poesia
um crepúsculo de sentires dispersos
onde da maré vos deixo a maresia
2
i
A descrição dê das palavras o pouco
que as palavras guardam nítido
de quem sentiu em silêncio sinfonia
dos instrumentos dum momento
Recomeço onde comecei deitado
a pensar gemer até gemer o pensar
de vos penetrar até afogar o mar
que me prende como ilha ao largo
Dei por mim a ganir como um cão
geme antes de uivar já eu lobo
saindo do corpo no roncar de porco
de tromba erguida elefante louco!
ii
Antes fechei os olhos e sonhei
convosco lambendo o malho todo
até vir beijar as mãos nele seguras
o O aconchegado na garganta
Onde vos toca a glande inchada
a latejar de desejo como acordeão
em dilatados acordes acordado
dando do peito os seus transportes
iii
Foi assim que me vim até chegar
do movimento à razão do ter
sem pensar onde começa desejo
quando desejo acaba o seu começo
3
i
Mas da vossa boca o corpo todo
bocas foi do meu desejo feito
alimentado em tantas bocas boas
como as nascentes onde de vós bebo
Vim a navegar veleiro virado
num mar alteroso em tempestade
erguido de ondas cheias de vontade
encapelada onde sondei o fundo
Tinha o mundo virado do avesso
navegando sem velas nesses vales
erguidos entre ondas montanhas
enquanto teu cavalgava tu sereia
ii
Tanto o veleiro virado flutuou
de mastro fundo nas ondas agitadas
que depois de espasmos atingi
um pasmo tão grande de deleite
Vinha-me, vinhas-te, vínhamos
nus num verbo despido Verbo
feito como sonho um sono vem
embalado num badalo com sino
iii
Assino o meu sonho deste dizer
feito dum fazer dito do escrito
águia leve de asas levadas altas
onde como do animal apenas grito
4
i
Preso ao dizer continuo por ter
o desejo satisfeito tão insatisfeito
que quis cantar aos quatro Ventos
todos os cardeais a Norte e Sul
Este ou Oeste de Nascente a Poente
Neste querer dar forma ao fogo
onde sois como chama minha vela
no mastro incendiado onde acendo
em luxúria a paixão do acordeão
que toco enchendo de ar o peito
Músico do prazer de ser música
onde me tocais como instrumento
do canto que para vós sou Canto
deixando em versos ser-se poema
toda a poesia onde o corpo deito
ii
Posas e poiso em todas as poses
agora entre as tuas pernas abertas
como um arco que recebe a seta
que é atirada até atingir no cume
seu máximo de Céu no nosso céu
Agora me recebes égua arrebatada
levada a galope a descansar passo
ainda nu continuado trote quente
como um bolero de bolas a bater
teus lábios grandes e pequenos
iii
Não teria fim a descrição dum sonho
que se alimenta sem fim de sonho ser
até ser o sonho que é por não o ser
quando se consuma em acto o facto
feito por medida para nós dois nus
5
À distância
duma estância de cinco dedos
escrevo este poema do meu corpo
até derramar a poesia na Língua sôfrega
da tua boca na minha fantasia!...
P.S. Imaginei um acto de polução em ausência, feito à mão, vendo-me no meio duma tempestade em pleno (a)mar... veleiro derrubado enfiando o mastro, sem vela (sem vê-la)... nas águas agitadas... da escrita!
Francisco Coimbra
Publicado no Recanto das Letras em 14/05/2005
Código do texto: T16945