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Autor Tópico: MANUEL BANDEIRA  (Lida 13210 vezes)
HFaria
Novato
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Mensagens: 1


« Resposta #15 em: 31/Mai/09 20:45 »

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Manuel Bandeira
Autenticado
Vitor de Silva
Membro Sénior
****
Mensagens: 477


« Resposta #16 em: 08/Jun/09 05:10 »

Como a tradução é de Bandeira, tomo a liberdade de postar aqui. Sabendo que toda tradução é uma recriação.

Fragmento Original de:

Songs for a Colored Singer


III

Lullaby.
Adult and child
sink to their rest.
At sea the big ship sinks and dies,
lead in its breast.

Lullaby.
Let mations rage,
let nations fall.
The shadow of the crib makes an enormous cage
upon the wall.

Lullaby.
Sleep on and on,
war's over soon.
Drop the silly, harmless toy,
pick up the moon.

Lullaby.
If they should say
you have no sense,
don't you mind them; it won't make
much difference.

Lullaby.
Adult and child
sink to their rest.
At sea the big ship sinks and dies,
lead in its breast.

Elisabeth Bishop


Tradução:

Acalanto


Nana nana.
Nana, dorme o adulto
E a criança dorme.
Ao largo, ferido de morte, naufraga
O navio enorme.

Nana nana.
Batalhem os povos
E morram: não faz diferença.
A sombra do berço desenha uma imensa
Gaiola no muro.

Nana nana.
Breve a guerra acaba.
Solta esse brinquedo
Bobo, e apanha a lua,
Que é o melhor brinquedo.

Nana nana.
Se acaso disserem
Que não tens juízo,
Não dês importância:
Sorri o teu sorriso.

Manuel Bandeira


Elisabeth Bishop: Nascida em 8 de fevereiro 1911 em Worcester, Massachussets nos EUA. Teve uma infância difícil com o falecimento prematuro de seu pai quando ainda tinha oito meses de idade e posteriormente, sua mãe entrou em surto psicótico tendo que ser internada em clínicas psiquiátricas. Com esse quadro, Elisabeth foi criada por seus avós. Ela era asmática, alérgica e deprimida. Posteriormente, na juventude, se tornou alcoólatra. Era também homossexual. Todos estes elementos marcaram a fundo sua poesia. Começou a escrever aos 16 anos, foi professora em Harvard e Seattle.
Em novembro de 1951, buscando fugir de mais uma crise de depressão, viajou para a América Latina e se fixou no Brasil, estadia que perdurou por mais de quinze anos. Viveu entre as cidades de Petrópolis (RJ) e Ouro Preto (MG). Por aqui escreveu o famoso livro An anthology of thwentieth-century Brazilian poetry. Este livro em que ela traduziu Joaquim Cardozo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima e Cecília Meirelles, é ainda um dos maiores meios de divulgação da poesia brasileira no exterior.
Elisabeth era conhecida pelo extremo rigor para com seus versos, sempre em busca da expressividade. Faleceu de aneurisma, aos sessenta e oito anos de idade, em 06 de outubro de 1979. Seus poemas foram coligidos na obra The completed poems.
Certa vez disse a um poeta amigo que não estava interessada numa grande obra. Não é preciso que algo seja grande para ser bom, dizia.
Elisabeth Bishop escreveu menos de cem poemas e é a poeta que mais tem merecido estudos nos Estados Unidos.
Elisabeth tinha preferência em sua obra poética por temas ligados aos fenômenos entre o acordar e o dormir, a vida nos sonhos, as margens do mar (ela mesma se sentia assim), etc. Seu trabalho inicialmente era mais abstrato, partindo do abstrato para o concreto em busca, como outros poetas, da especulação metafísica da natureza e da essência dos sonhos; e só mais tarde daria contornos mais precisos de sua experiência pessoal. Apesar de sua contemporaneidade, não se furtou de escrever sonetos, vilancetes, sextinas e outras formas clássicas.

Vitor de Silva
Autenticado
Juan Martín
Novato
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Mensagens: 9


« Resposta #17 em: 14/Ago/09 18:21 »





Porquinho-da-Índia


Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


Manuel Bandeira
« Última modificação: 19/Ago/09 17:43 por Juan Martín » Autenticado
Joseph Shafan
Membro Sénior
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Mensagens: 439


« Resposta #18 em: 18/Ago/09 19:39 »

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
    [expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no
    [dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
                                                     [de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
                      [amante exemplar com cem modelos
                         [de cartas e as diferentes maneiras
                                 [de agradar as mulheres, etc.

Quero o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira

in "Bandeira de Bolso" - L&PM , 166 p., p.74-75.
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